Maria (M.): Fala-nos um pouco do teu curso, em que consiste e quais são as suas saídas profissionais.

Júlia Dâmaso Viveiros (J. D. V.): O meu curso engloba tudo o que diz respeito a aviões: manutenção, aeroportos, segurança, certificações e até mesmo investigação científica para projetos futuros.

Vítor Emanuel Narciso (V. E. N.): Engenharia Aeroespacial é um curso de Mestrado Integrado lecionado no Instituto Superior Técnico (IST) que tem a duração de 5 anos, sendo os primeiros três de licenciatura e os últimos dois de mestrado num de três ramos: Aeronáutica (essencialmente mecânico), Aviónica (essencialmente eletrónico) ou Espaço. Como ainda só concluí o 1º ano, a minha noção acerca de Aeroespacial não é muito abrangente nem tem muitos fundamentos, mas, tal como qualquer outra engenharia, é um curso que de início é extremamente matemático, tendo-se algumas cadeiras de física, mecânica, eletrónica, programação, materiais e, como seria de esperar, especificas do setor aeroespacial progressivamente ao longo dos semestres. Em termos de saídas profissionais, visto que este curso é bastante multidisciplinar, um engenheiro aeroespacial pode trabalhar tanto direta e indiretamente na construção de aeronaves como noutras áreas tais como consultoria, mecânica, eletrotécnica, programação, gestão, etc.

João Pedro Caldeira (J. P. C.): O curso está relacionado com veículos como aeroplanos, aeronaves, helicópteros, foguetões e satélites e com as tecnologias integradas nos mesmos, como a propulsão ou a aerodinâmica, entre outras. Atualmente, é um curso com grande empregabilidade, tanto em Portugal como no estrangeiro. As saídas passam por empresas aeronáuticas e espaciais nacionais ou internacionais. No entanto, como se trata de uma engenharia, há imensas outras saídas que não estão diretamente relacionadas com o setor, como consultoria ou informática.



 

M.: O que te levou a escolher o teu curso e que factores tiveste em conta? Foi a tua primeira escolha?

J. D. V.: O fator que me fez escolher este curso como primeira opção foi, em primeira instância, o fascínio associado ao setor da aviação (que está em crescimento exponencial). Isto aliado à empregabilidade de quase 100% que o mesmo oferece constitui uma excelente aposta para o futuro. Para além disso, a meu ver, o facto de este curso só existir na Covilhã torna-o único, pois existem muito menos pessoas a competir pelas mesmas vagas.

V. E. N.: Ao contrário daquilo que provavelmente seria de esperar, nunca tive uma paixão por aviões, foguetões ou mesmo pela área em si, apesar de me despertarem um certo fascínio. Sempre quis ir para engenharia, mas nunca soube bem por qual delas enveredar, pelo que Engenharia Aeroespacial pareceu-me a escolha correta, uma vez que, como já mencionei antes, esta engenharia me dá formação para trabalhar não só no setor aeroespacial, mas também nos setores de mecânica e eletrotécnica (consoante o ramo de mestrado escolhido), sendo eu reconhecido como engenheiro nessas mesmas áreas. Por outro lado, tenho de ser sincero e, apesar de já ter a escolha feita, o reconhecimento que o curso ganhou nos últimos anos e a atenção dada pelos media também me aliciou e reforçou ainda mais a minha decisão. E sim, foi a primeira opção, assim como a de (quase) todos os outros colocados neste curso.

J. P. C.: Frequentei o Mestrado Integrado em Medicina durante um ano e não me identifiquei com o mesmo. Assim, as opções da saúde estavam totalmente eliminadas e comecei a “virar-me” mais para a engenharia, a ler e a recolher opiniões sobre os vários cursos do Técnico, sendo aeroespacial o curso que mais interesse me suscitou, não só pelas cadeiras e temas, mas também pelas saídas profissionais, e por isso foi a minha primeira opção.

 

M.: O que é que te surpreendeu pela positiva e pela negativa no curso?

J. D. V.: Começando pela parte positiva, e estendendo a crítica à cidade também, fiquei surpreendida com o quão “em casa” me consegui sentir após três anos. A Covilhã é, sem dúvida, a minha segunda casa, e um dia que tenha que sair terei imensas saudades do ambiente. Para além disso, o espírito académico que lá existe é inigualável. Passando aos aspetos menos bons, acho que a cidade ainda está um pouco isolada e por vezes não se encontra preparada para receber assim tantos alunos, especialmente no que diz respeito aos serviços prestados à população (hospital, inexistência de transportes públicos, etc).

V. E. N.: Quando entrei em Engenharia Aeroespacial estava à espera de me deparar com o típico estereótipo de “cromo”, mas desde cedo se desabaram os meus preconceitos. Regra geral, toda a comunidade do curso entreajuda-se imenso, havendo bastante material de apoio feito por alunos à nossa disposição, quer seja em formato físico ou digital, pelo que o grande destaque positivo vai para os estudantes em si. Por outro lado, a estrutura do curso torna-o um pouco monótono e abstrato, visto ter uma forte componente teórica, o que resulta muitas vezes em aulas teóricas desinteressantes e, por vezes, os professores também não procuram obter a atenção dos alunos, agravando ainda mais este problema.

J. P. C.: Apesar do choque, que penso que todos sentimos, de entrar na universidade e não existir o apoio que tínhamos no Ensino Secundário, o curso surpreendeu-me bastante pela organização e pelos professores, que se mostram normalmente disponíveis para ajudar em dúvidas ou qualquer problema que tenhamos.



 

M.: Como tem sido a experiência de estudar nesse curso? O que é que te marcou mais?

J. D. V.: Até agora, a experiência de frequentar este curso tem sido muito boa. A Universidade da Beira Interior e a cidade da Covilhã têm um ambiente muito acolhedor, e é extremamente positivo frequentar um curso no qual só entram 40 pessoas por ano. Como somos poucos, o ambiente torna-se um tanto ou quanto “próximo” e torna possível que os professores saibam os nossos nomes e consigam sempre motivar-nos das melhores formas.

V. E. N.: O Técnico tem fama de ser uma faculdade competitiva e, quanto a Engenharia Aeroespacial, por isso, no início, era algo desafiante e frustrante tentar acompanhar o ritmo dos outros alunos pois eles esforçam-se não só para passar, mas também para tirar excelentes notas. Contudo, como já referi acima, a comunidade do curso é muito prestável pelo que esta competição é puramente amigável e, pelo menos da minha parte, tem culminado em bons resultados académicos. Claro que nem todas as cadeiras foram do meu agrado, mas no todo retiro deste primeiro ano uma experiência positiva.

J. P. C.: Tem sido fantástico. O Técnico e, em especial, Engenharia Aeroespacial receberam-me da melhor forma e senti-me “em casa”. Surpreendeu-me, acima de tudo, o ambiente vivido no curso. A praxe, logo desde o primeiro dia, lembra-nos de que somos uma equipa, e foi algo que eu senti ao longo de todo o ano, pois todos se dão muito bem e se ajudam imenso.

 

M.: Como descreverias a tua adaptação ao ensino superior? Quais foram os teus principais desafios?

J. D. V.: A minha adaptação ao ensino superior não foi fácil. Ir dos Açores para um sítio como a Covilhã não é uma mudança simples e a ideia de que para ir a casa tinha de apanhar um comboio e um avião não era agradável, especialmente tendo em conta que todos os meus colegas iam passar os fins de semana a casa e eu ficava sempre sozinha de sexta a domingo. Levei quase o primeiro ano inteiro a adaptar-me e ia a casa uma vez por mês, ou pelo menos uma vez de dois em dois meses. Só no segundo ano é que consegui começar a “desapegar-me” mais de casa.

V. E. N.: A minha adaptação ao ensino superior foi acompanhada por uma adaptação a uma nova cidade e ao facto de ter de viver sozinho, pelo que por si só já foi um grande desafio. Do ensino secundário para o ensino superior há um aumento enorme da carga de trabalho pelo que, juntando às tarefas domésticas e outras atividades, o tempo livre torna-se escasso, sendo necessária uma boa gestão do tempo. Por vezes, tive de abdicar de sair à noite ou estar com amigos em prol do curso, mas, se uma pessoa for organizada, consegue envolver-se em núcleos, desportos ou quaisquer outras atividades sem comprometer o desempenho académico.

J. P. C.: No início foi complicado, como para qualquer pessoa que pela primeira vez vive longe de casa, com responsabilidades, numa grande cidade como é Lisboa. No entanto, acho que é algo essencial para a vida e fez-me crescer imenso. Torna-se difícil ter tempo para tudo, devido às tarefas domésticas e à faculdade, mas organizando-me consigo também divertir-me e estar com os meus amigos.

 

M.: Achas que o teu curso te prepara para o exercício da profissão, isto é, que adquires as principais competências que um profissional dessa área deve ter?

J. D. V.: Sim e não. Acho que, no fundo, depende muito da área que cada um quer seguir. A título de exemplo, se um aluno desejar seguir áreas mais teóricas como a investigação científica ou o setor da segurança e certificações, sem dúvida que fica completamente preparado. Por outro lado, se o seu objetivo for uma abordagem mais prática e “no campo”, como por exemplo a manutenção, julgo que o curso peca um pouco nesse aspeto. No entanto, acho que esse problema existe com todas as engenharias, pois há uma grande diferença entre aquilo que se estuda e para o qual se treina, e aquilo que se acaba por exercer.

V. E. N.: Um curso de engenharia está destinado ao ensino das “bases” sobre a área que ele abrange do que propriamente à preparação para o exercício da profissão, isto porque as saídas profissionais das engenharias são bastante diversas e, consoante a empresa para a qual o engenheiro trabalha, apenas determinadas capacidades que ele aprendeu no curso serão chamadas à ação. Assim sendo, um engenheiro aeroespacial adquire as principais competências para exercer, mas precisará sempre de uma fase de adaptação dentro da empresa para estar completamente apto a desempenhar as suas funções.

J. P. C.: O curso está muito bem estruturado e, apesar de só ir ingressar no segundo ano, sei que no final do curso estarei preparado para exercer. Ainda assim, é importante fazer algo para além do curso, como entrar num núcleo, projeto ou mesmo fazer um estágio, porque permite-nos ter mais contacto com o trabalho em si e ajuda-nos a ganhar experiência.



 

M.: Consideras o teu curso difícil? Porquê?

J. D. V.: Novamente, sim e não. O curso não é nada fácil, as cadeiras são exigentes e a carga de trabalho é grande, porém, o ambiente da universidade promove muito a entreajuda, e partindo do pressuposto que para escolher aeronáutica é preciso gostar mesmo, acaba por ser algo difícil feito com gosto, o que o torna fácil!

V. E. N.: Na minha opinião, apesar da média de entrada assustar um pouco, o curso de Engenharia Aeroespacial não é difícil, mas sim trabalhoso. Claro que depois depende um pouco dos objetivos de cada aluno, mas o curso é “fazível” desde que se estude atempadamente para as frequências e os exames.

J. P. C.: Como qualquer curso de engenharia, não é fácil. Tem muita Física e muita Matemática, por isso à partida já dará o seu trabalho. Obviamente, existem cadeiras mais difíceis que outras, e muitas vezes algumas tornam-se mesmo desmotivantes devido à dificuldade. No entanto, acho que com trabalho e esforço tudo se consegue, e o curso torna-se muito mais fácil!

 

M.: Quais são as tuas expectativas no que toca à entrada no mercado de trabalho? Que perspectivas tens?

J. D. V.: Sinceramente, como ainda tenho um mestrado pela frente, creio que ainda é um pouco cedo para me pronunciar a esse respeito. Os cursos de engenharia têm todos um tronco muito parecido, ou seja, demoram algum tempo até saírem das matemáticas e físicas comuns para se tornarem específicos. O meu, por exemplo, só se torna direcionado a aviões mesmo no terceiro ano, por isso os seguintes servem para a pessoa perceber aquilo de que gosta e o que quer seguir no mercado de trabalho.

V. E. N.: O Técnico assegura uma taxa de empregabilidade próxima dos 100% para os licenciados neste curso, contudo, as oportunidades de emprego no setor são escassas em Portugal, pelo que, para trabalhar em Aeroespacial, muitos acabam por emigrar ou, ficando em Portugal, trabalham em áreas como a consultoria (entre outras) que hoje em dia são mais bem pagas que engenharia no nosso país. Como tal, já comecei a mentalizar-me de que provavelmente terei de emigrar pois gostaria de exercer no setor aeroespacial.

J. P. C.: Tendo o curso uma taxa de empregabilidade tão alta, espero que quando acabar o curso consiga logo um emprego. Um dos meus objetivos é trabalhar no setor aeroespacial propriamente dito, ainda que tenha de ser no estrangeiro…!

 

M.: Pensas em continuar a estudar para um mestrados/doutoramentos ou pós-graduações?

J. D. V.: Sim, sendo o meu curso um Mestrado Integrado torna-se quase obrigatório prosseguir para o segundo ciclo de estudos após conclusão da licenciatura. Quanto ao doutoramento… Ainda não pensei nisso suficientemente, mas sem dúvida é algo que me cativa.

V. E. N.:O curso de Engenharia Aeroespacial já tem Mestrado Integrado, mas sempre achei que um Doutoramento (a médio-longo prazo) seria uma experiência enriquecedora tanto a nível pessoal como curricular. Por agora não tenho pensado muito nisso; prefiro pensar numa coisa de cada vez e a minha prioridade agora é o curso.

J. P. C.: O meu curso é um Mestrado Integrado, ou seja, estudamos durante cinco anos. À partida, gostaria de começar logo a trabalhar no fim deste período, mas um doutoramento é algo a considerar.



 

M.: Se soubesses o que sabes hoje, candidatavas-te para o mesmo curso novamente? Porque?

J. D. V.: Claro que sim! Provavelmente, teria começado a estudar mais mais cedo, porque no primeiro ano damos as principais bases para o resto do curso e é muito importante que fiquem bem solidificadas para não terem de ser revistas mais tarde. Mas nunca me arrependo de ter feito esta escolha, é uma área sem dúvida apaixonante.

V. E. N.: Sem dúvida! Se bem que provavelmente reajustaria algumas das minhas expectativas em relação ao curso, tanto para cima como para baixo, pelos motivos que tenho mencionado ao longo da entrevista.

J. P. C.: Absolutamente. A minha escolha ao nível de cidade, faculdade e curso não poderia ter sido mais acertada. Como já disse, sinto-me “em casa”. Uma das coisas mais importantes para mim é gostar daquilo que faço e não o ver como uma obrigação, e embora por vezes seja difícil ou desmotivante, posso felizmente dizer que esse é o meu caso.

 

M.: Que recomendações deixas aos futuros candidatos ao ensino superior?

J. D. V.: A minha principal recomendação é que escolham aquilo de que gostam, porque quando se gosta mesmo daquilo que se faz, o difícil torna-se fácil, e caso não se goste pode até mesmo tornar-se um sacrifício, e um curso superior é demasiado exigente e importante para ser feito com sacrifício. 

V. E. N.: Qualquer pessoa que se candidate ao Ensino Superior acho que já tem minimamente noção daquilo com que se deparará, contudo, embora a escolha do curso seja uma decisão séria, também deve ser levada com serenidade. Não vale a pena ter ataques de stress e ansiedade enquanto se espera pelos resultados pois, mesmo que não se entre na 1ª fase, existem 2ª e 3ª fases e, se for necessário, há a possibilidade de fazer melhorias durante um ano e realizar uma candidatura no ano seguinte. O mais importante, por mais cliché que isto seja, é seguir os nossos sonhos, mesmo que isso implique “perder” um ano da nossa vida no ensino secundário; no fim das contas, mais um ano,  menos um ano, o que interessa é receber o diploma do curso.

J. P. C.: Que pensem muito bem em todas as opções que têm e que se lembrem de que o mais importante é sentirem-se bem no curso que frequentam e gostarem daquilo que fazem. Caso contrário, há imensas outras opções e de certeza que alguma será a certa. A melhor coisa que eu fiz foi desistir de um curso onde não estava feliz e perder um ano para descobrir aquele onde me “encaixo” e consigo dizer que não é definitivamente o fim do mundo. Quero referir também que, apesar de se estar ali para estudar, a faculdade é uma altura fantástica das nossas vidas e é muito importante divertirmo-nos e levar dali imensas memórias e vivências!

 

M.: O que dizem… as tuas notas?

J. D. V.: As minhas notas não são muito altas, mas o mais importante num curso de engenharia é manter sempre a média acima de 14 valores (arredondados às unidades), por isso quem começar a trabalhar para isso desde o início, consegue manter esta média ao longo do curso!

V. E. N.: As minhas notas são o resultado de muito esforço e dedicação, mas também de diversão e lazer porque a faculdade não é só estudar e, por vezes, dar uma volta ou simplesmente descansar um pouco pode valer mais que 5 horas consecutivas de estudo.

J. P. C.: Estou muito satisfeito com as minhas notas, mas são fruto de noites incontáveis de estudo e muito trabalho. É importante manter as coisas em dia e organizar o tempo de modo a fazer outras coisas também.

 

Júlia Dâmaso Viveiros é aluna da Faculdade de Engenharia da Universidade da Beira Interior e Vítor Emanuel Narciso e João Pedro Caldeira do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa.