Maria (M.): Fala-nos um pouco do teu curso, em que consiste e quais são as suas saídas profissionais.

Catarina Baptista (C. B.): A Medicina Veterinária é sem dúvida muito desafiante e motivante como seria de esperar numa profissão que lida com o valor da vida e os animais. As saídas profissionais em veterinária não são uma nuvem totalmente negra. Na verdade,  é um curso muito abrangente, dando oportunidade de trabalho em áreas como a clínica de pequenos animais, clínica de espécies pecuárias, equinos, inspeção sanitária e segurança alimentar, investigação etc… O que acontece em Medicina Veterinária é que a maioria dos estudantes pretende entrar nas clínicas de pequenos animais, havendo salários mais baixos do que aqueles que seriam de esperar para um curso superior longo e exigente. Por isso, muitos estudantes optam por sair do país procurando salários mais elevados, maior reconhecimento, especialidades/pós-graduações e formação em áreas como a medicina de outras espécies.

Raquel França de Barros (R. F. B.): Medicina Veterinária pode não parecer, mas envolve (na profissão) um bocadinho de ciência, comunicação, psicologia (animal e humana) e gestão.

Como curso científico é muito completo e exigente. Temos de saber um pouco de tudo, bastante de várias coisas e tudo sobre um ou outro tema.

Ao contrário a que é habitualmente associada, a medicina veterinária não se baseia apenas em trabalhar numa clínica com animais de companhia – é, talvez, dos cursos com mais saídas. Desde a clínica a inspeção sanitária/sanidade, investigação, centros de recuperação de animais selvagens (projetos de conservação), explorações pecuárias…

 



 

M.: O que te levou a escolher o teu curso e que factores tiveste em conta? Foi a tua primeira escolha?

C. B.: A escolha do curso foi talvez a parte mais fácil. Desde sempre que tive uma ligação forte aos animais e às profissões da área da saúde, portanto, juntar as duas coisas é sinónimo de veterinária.

R. F. B.: Confesso que quero ser veterinária desde pequena (algumas crianças são teimosas, ou é o que dizem..). Antes de escolher, pois sempre gostei muito de artes e desporto, decidi ir estagiar para uma clínica, para ver se realmente era para mim. Houve coisas de que gostei e outras que não, mas percebi que era a este mundo “que pertencia”. Sou apologista de que a vida dá muitas voltas e também de que não pertencemos a “um só sítio”; há dias em que penso “no que é que me fui meter.. devo ser maluquinha.. ninguém tem tempo nem paciência para isto…” mas o olhar agradecido de um animal… aquela felicidade em aprender e fazer alguma coisa sozinha e ter sucesso… vale por todas as dúvidas!

 

M.: O que é que te surpreendeu pela positiva e pela negativa no curso?

C. B.: Esta é uma pergunta difícil e provavelmente diferente entre os colegas de curso, porque cada um terá uma resposta diferente consoante a área da medicina veterinária onde tenciona trabalhar. Surpreendeu-me pela negativa o facto de as cadeiras não integrarem áreas da veterinária do meu interesse como espécies selvagens, os primeiros anos serem demasiado teóricos e laboratoriais (muito pouca medicina, digamos assim) e a abordagem de temas repetidos em várias cadeiras. Pela positiva, surpreendeu-me o reduzido número de pessoas do curso, as pessoas conhecerem-se todas e alguns professores terem uma relação próxima e mais informal connosco e isso torna o ambiente menos tenso e mais agradável. Fui muito bem recebida e orientada pelos colegas mais velhos e isso foi muito importante daí para a frente.

R. F. B.: Pela positiva, a vasta gama de funções de que os médicos veterinários se ocupam e a quantidade de coisas aleatórias e transversais que aprendemos (para quem tem vários e díspares interesses como eu, é espectacular). Pela negativa, realço o quanto “à frente” poderíamos estar (a nível científico e pedagógico) se o sistema de ensino fosse reformulado – muitas vezes deixa a desejar e temos potencial para muito mais; esta problemática é talvez sentida em muitos cursos, mas não deixa de ser importante.



 

M.: Como tem sido a experiência de estudar nesse curso? O que é que te marcou mais?

C. B.: Neste curso foi muito importante para mim saber como gostar dos animais e tratá-los da melhor forma possível. Por exemplo, muita gente trata os animais como iguais a si mesmos e na realidade um ambiente sem fatores de stress para um animal não é o nosso ideal de paraíso. Tenho gostado de muitas cadeiras, não gostado de outras, descobri que até gosto de algumas coisas que não sabia. Aprendi também a ter estômago para muita coisa, há aulas que do ponto de vista visual e olfativo não são nada fáceis e mais não digo. 

R. F. B.: Estou muito feliz no meu curso e universidade (sem nunca esquecer, como jovem que me prezo, o que está mal e podia melhorar). O que mais me marcou foi a constante autossuperação e conhecimento próprio a que somos sujeitos e que tenho sentido. Custa. Mas é bom.

 

M.: Como descreverias a tua adaptação ao ensino superior? Quais foram os teus principais desafios?

C. B.: Adaptei-me muito bem, não posso dizer o contrário. Tenho melhores notas do que tinha no secundário não porque seja mais fácil (porque não é, de todo!), mas porque fui muito bem orientada pelos colegas mais velhos e senti que estava a estudar aquilo que verdadeiramente queria para o futuro. Os principais desafios foram sem dúvida estar em exames quando todos os outros cursos já estão de férias, ter primeiras fases de exames durante janeiro e junho e segundas fases em fevereiro e julho. 

R. F. B.: Sou do Porto mas estudo em Vila Real, ou seja, fui morar “para fora”. No início, apesar de ter acontecido tudo muito rápido e de repente (colocações, inscrição, arranjar casa, aulas) não senti muito estar “longe” porque estava muito feliz por ter entrado no curso que sempre quis e ia a casa no fim de semana. Lembro-me, no entanto, de um domingo em que cheguei mais cedo a Vila Real e me senti sozinha (sim, faz parte) e vieram-me as lágrimas aos olhos ao pensar em tudo o que estava a “perder” nessa semana no Porto.. festas de anos, treinos.. uma pessoa mais tarde apercebe-se de tudo aquilo que está a “ganhar” e vale a pena.

Mas este é um processo diferente para cada um. Sei de colegas que se sentiam muito deslocados, outros encontraram o paraíso.. depende de cada um e do ambiente universitário que se vive. Uma das coisas que não posso deixar de mencionar que foi fulcral na minha adaptação e continua a sê-lo é a praxe. Cada praxe é diferente, cada universidade, curso, ano. A minha, como tudo na vida, teve momentos bons, maus e outros que me fazem agradecer ter sido corajosa… ou maluca o suficiente para naquele dia ter dito que queria ser praxada e não ter desistido.

O karaté fazia parte do meu quotidiano e não quis desistir dele com a faculdade (parei no 3º ano por vários motivos, não só o estudo). Procurei um clube e continuei a treinar. Não quebrar por completo algumas rotinas nem abandonar coisas que nos dão prazer é importante. A vida muda, mas o mundo não para!

 

 

M.: Achas que o teu curso te prepara para o exercício da profissão, isto é, que adquires as principais competências que um profissional dessa área deve ter?

C. B.: Mais ou menos. Aquilo que eu sinto é que saímos bons na teoria, exigem-nos isso, no entanto a parte prática devia estar mais consistente: há pouca oportunidade de estarmos em hospital e as horas em que estamos, não abrangem o conjunto de treino necessário. Contudo, temos ainda estágio obrigatório no fim do curso o que suplementa isso. É um curso muito abrangente e algumas áreas da veterinária são menos exploradas do que outras apesar de estarmos autorizados a exercê-las no fim do curso.

R. F. B.: Sim.. e não. Não consigo dar uma resposta simples porque por um lado, apesar de saber que há lacunas grandes, também sei que é impossível ensinar tudo e há coisas que só se aprendem com a experiência e a vivência.

 



 

M.: Consideras o teu curso difícil? Porquê?

C. B.: Sim, pois exige organização e muita força de vontade para estudar muita coisa de não menos de 7 cadeiras por semestre. São muitos nomes, muitas diferenças entre espécies e a exigência é grande. 

R. F. B.: Sim. Além de muito estudo, é necessária muita dedicação, vontade de aprender e gosto por aquilo que se está a fazer. Ter objetivos também é importante para superar os momentos de desespero de exames e aulas mais intensas, mas nem sempre acontece. Não devemos planear nada em demasia.

 

M.: Quais são as tuas expectativas no que toca à entrada no mercado de trabalho? Que perspectivas tens?

C. B.: Outra pergunta difícil. Eu tenciono que o estágio abra portas para aquilo que pretendo fazer no futuro. Não me vejo a fazer rigorosamente o mesmo durante toda a minha vida e talvez veterinária seja a profissão ideal para esse tipo de pessoas. Talvez procurar estágios e ter os olhinhos em oportunidades nacionais e internacionais e, sem dúvida, trabalhar com animais selvagens em algum momento da minha vida. 

R. F. B.: Neste momento, tenho noção de que inicialmente posso não me sentir valorizada pela responsabilidade que tenho em mãos e o retorno não será aquele que espero, no entanto também há boas oportunidades, é preciso é procurar. Como uma vez um professor me disse “é preciso encontrar trabalho, o emprego vem a seguir”. Presumo que queira dizer que hoje em dia nada é certo e que temos de ser trabalhadores, astutos e ir atrás das coisas.

 

M.: Pensas em continuar a estudar para um mestrados/doutoramentos ou pós-graduações?

C. B.: O meu curso é um mestrado integrado, mas já pensei numa pós-graduação. Logo verei as oportunidades que surgirem.

R. F. B.: O meu curso é mestrado integrado, ou seja, seguir-se-ia o doutoramento ou uma pós-graduação. Neste momento, não penso num  doutoramento, é demasiado cedo, mas quem sabe um dia. Uma pós-graduação seria mais provável.

 



 

M.: Se soubesses o que sabes hoje, candidatavas-te para o mesmo curso novamente? Porque?

C. B.: Sem a mínima dúvida, porque apesar de tudo o que possa ser apontado continua a ser o que me vejo a fazer na vida desde os 8 anos.

R. F. B.: Sim. Estou feliz!

 

M.: Que recomendações deixas aos futuros candidatos ao ensino superior?

C. B.: Pensem bem (todos dizem isto, eu sei), mas foquem o vosso pensamento em se de facto se veem numa profissão onde lidarão com a vida e que implica muitas vezes lidar com a ausência dela. Gostar de animais não é suficiente, é importante ter noção das coisas que poderão vir a estar à nossa frente e à nossa responsabilidade. Venham com a mente aberta para o curso e não muito focados numa só área porque acho que quem vem com a mente aberta aproveita melhor as oportunidades de formação que vão surgindo.

R. F. B.: Não tenham medo de errar e por favor sigam o vosso coração e não o dos outros. Mesmo que existam dúvidas e momentos maus, mais vale passá-los por alguma coisa que valha a pena e vos preencha.

 

M.: O que dizem… as tuas notas?

C. B.: Não me vou gabar mas também não vou mentir: tenho boas notas derivadas do meu trabalho e organização de tempo, não deixo nada por fazer por elas, procuro rentabilizar o meu tempo ao máximo. Essa é a fórmula para este curso, pelo menos na minha opinião. 

R. F. B.: Absolutamente nada. Dizem que há cadeiras que adorei e em que tive 10, outras que odiei e em que tive 16, outras que eram difíceis mas os testes eram sempre iguais então tive 15 e outras que podiam ser facílimas mas o professor era.. uma pessoa desagradável… então toda a gente passou com nota mínima.

 

Catarina Baptista é aluna da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa e Raquel França de Barros da Escola de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.