Não sei bem por onde começar. Nem sequer sei se tal “desabafo” terá uma categoria onde se inserir. Ainda assim, estou a escrever. De qualquer das formas, é das poucas coisas que me dá prazer.

Sempre fui boa aluna. Empenhada, atenta, organizada, mas sempre tímida, recatada, sossegada, no meu mundo, no meu canto (exceto quando, os agora chamados “praticantes de bullying“, me perturbavam e interrompiam o que pensara ser o melhor para mim). Pois bem, não era assim tão bom. Cheguei a uma altura em que o ser tao pacífica só me fazia mal, só me corrompia – e corrompe – de uma maneira avassaladora. Acumulava tanta coisa dentro de mim! Fui guardando preocupação, angústia, stress, raiva – tudo de bom, não é mesmo? Pois bem, e assim começou a fase mais difícil da minha curta e desinteressante vida.

Sempre gostei de artes, mas dos números também. O raciocínio matemático, toda aquela lógica e estratégia subjacentes sempre me fascinaram. Tendo em conta as opiniões alheias, e um certo ‘preconceito’ e pressão colocada por parte dos professores, optei por frequentar ciências no ensino secundário. Não foi fácil, mas digamos que uma média de 18 não foi mau de todo para quem estava numa área na qual apenas uma ínfima percentagem do vasto conteúdo lecionado me agradava. Mais uma vez condicionada pelo gosto pelos números, ingressei na faculdade de economia da Universidade do Porto. Uau, a menina ia ser uma renomada economista. Ok, parte disso concretizou-se. Acabei o curso no tempo previsto, uma média de quase 15, e um previsível pré-esgotamento/ depressão. Nenhuma surpresa até aqui, certo?



Sorriso nos lábios, cartola na cabeça e diploma na mão. Era desta! Finalmente aquele calvário ia terminar. Ia trabalhar e quiçá, aliar a minha licenciatura ao que realmente gostava: moda e Artes. “Spoiler alert”
Mas o Calvário só piorou, estava só a começar.

Terminado o curso, colocava-se a hipótese de prosseguir e tirar um mestrado, ou então ingressar no assustador mundo do trabalho (ou ambas as coisas). Pelo menos, para os comuns dos mortais, seria esse o dilema com o qual se iriam deparar.  Acontece que alguém tão fraco psicologicamente, tão vulnerável, emocionalmente frágil e de uma limitada capacidade de controlo, jamais poderia decidir de bom ânimo.

Juntamente com os meus pais, achamos por bem parar por ali. O facto de chegar a casa e ter o conforto e o carinho da família teve grande impacto nesta decisão.

É então que está oficialmente aberta a época da procura desenfreada de um emprego. Sair da cidade era algo que não se colocava em questão. Foram entrevistas, e entrevistas… e mais entrevistas. Mas todas elas, apesar de bastante distintas, tinham sempre algo em comum. ” Caso seja selecionada, entraremos em contacto consigo dentro de poucos dias “. Eram horas, dias, semanas. Telemóvel no volume máximo à espera da chamada que nunca chegou. Aquele separador do Chrome com o email sempre aberto e em constante atualização, cujos mails recebidos ou eram spam, ou notificações do Facebook. Entrei numa espiral da qual ainda agora estou a tentar sair. É aquela dor de cabeça que nunca mais passa; é aquele desmaio sem motivo aparente, é aquele choro compulsivo “sem razão”, é aquele vazio e sentimento de impotência a toldar a alma, é aquela mudança repentina de comportamento e de humor, é aquele cansaço extremo de alguém que “não faz nada”. “Vou dormir mais um bocado”, “hoje não me apetece sair”, “Estou tão cansada “, ” Eish, não me chateiem. Já disse que estou bem!”

E assim me fui afastando das pessoas que mais me queriam bem, que mais me amavam. Afastei-me de mim mesma, da minha conduta e essência.  Só as frases proferidas por línguas maldosas faziam eco na minha cabeça. Quase como se só fizesse questão de me lembrar daquilo. Uma auto mutilação invisível. As palavras de conforto e alento eram interpretadas como uma tentativa frustrada de alegrar alguém sem qualquer brilho nos olhos cor de mel, embora pouco doces. Para mim, era como se me vissem como apenas mais uma desempregada deprimida e de mal com a vida. Aqueles olhares de pena e compaixão faziam-me, e ainda fazem, imensa confusão. Não compreendem. Sempre tive uma mente complicada e distinta no que toca a receber conselhos e principalmente a coloca-los em prática. Sempre foi ao contrário. Sempre fui a conselheira dos tristes e oprimidos, quando, na verdade, esta definição me assenta lindamente.

Eu estou bem. Não, não estou triste. Apenas não tenho vontade de sorrir. Talvez apática. Não nego. Só me sinto oca, sem ambições ou objetivos.  Já não consigo sentir nada, exceto que me enganei durante mais de duas décadas. Sempre focada em futilidades, para no final me sentir exatamente assim: fútil, banal, desnecessária. Confesso que, usando a força da expressão, ‘sentir que não se serve para nada’, é um quanto cansativo e doloroso. Deito-me na cama, fecho os olhos, mas nunca descanso! Aqueles pensamentos negros regressaram. Saiam da minha cabeça! “Eu estou cá por algum motivo. Eu estou cá por algum motivo”. E assim me tento convencer; repito isto até à exaustão, até o sono me vencer. Mas aquelas ideias personificam-se e os pesadelos assombram-me, até uma voz aguda,  mas doce interromper ” Vá lá filha, já não são horas para estares a dormir “.

E é aí que acordo. Não para a vida, mas para o isolamento que eu própria criei. Aquela tentativa de segurar o mundo sozinha para que ele não desabe sobre mim. Mas o peso é tão grande que parece que tal já aconteceu. Por vezes,  dou por mim dias inteiros de pijama a  olhar para o branco da parede, envolvida por uma manta cor de rosa. Sozinha, vazia, apenas submersa nos pensamentos negativos e derrotistas. Absorta numa doentia (ir)responsabilidade e na excessiva preocupação para alguém que tem somente 21 anos.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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