Todos nós já ouvimos desde pequenos algum discurso sobre o respeito à diferença. Pois acontece que nem todas as “diferenças” são visíveis, levando algumas pessoas a erradamente presumir coisas sobre outras…

Estou no 12º ano de Artes Visuais e tenho Asperger, agora integrado no PEA (Perturbação do Espectro do Autismo). Gosto de pensar nisto como se o meu cérebro estivesse “formatado” de outra maneira.

Às vezes não compreendo as pessoas, tenho muita sensibilidade a certos barulhos, problemas motores, e é-me difícil olhar os outros nos olhos durante muito tempo, mas cada um é uma pessoa a menos que seja como Pessoa. Nem todos temos as mesmas características ou experiências, e os “diferentes” não são todos “iguais” entre si.



Ao longo da vida tive dificuldade em saber como me comportar em certas situações, e a escola é um grande desafio que continuará na faculdade. Sempre fui a miúda estranha da turma. Sinto-me constantemente no mundo dos “outros” e que muitas coisas não estão feitas para mim. Na primária, era a menina distraída. Chamavam-me muito isto. Lembro-me de uma situação em ginástica em que me distraí, estava confusa, e mandaram-me para um canto porque não estava a perceber nada. A mãe chegou mais cedo e teve de explicar que eu era “diferente”.

A mãe “ralhar” com professores por não saberem lidar comigo foi algo bastante comum, principalmente no 2º ciclo. Nesta altura, comecei a ser vítima de bullying verbal e físico. É comum sermos vistos como vulneráveis por pessoas mal intencionadas, e a escola não lidava bem com estas situações. Comecei a odiar-me. Numa auto-avaliação de HGP, a professora disse que me dava mesmo 3 e não 4 só porque não tinha confiança em mim. Razão estúpida, mas infelizmente verdadeira.

Não sabia agir como uma criança normal. No 8º ano chamavam-me “estátua” por ficar muito tempo sozinha sem fazer um único movimento. Aqui comecei a prestar atenção aos gestos dos outros para os copiar, como bater o pé ou olhar para o lado como se estivesse à espera de alguém. Punha-me no meu cantinho, evitava os outros, e tinha poucos interesses (desenho…). De amigos mais chegados, tive uns dois na escola mais alguns que fui conhecendo em video-jogos.

Em Educação Física, era sempre a ultima a ser escolhida, ou nem o era e ficava no banco. O mesmo acontecia com trabalhos de “grupo”. Normalmente fazia-os sozinha, mas não chegava a apresentar para não me expor. Nas avaliações de fim de período, era sempre chamada à atenção da minha participação negativa e mais ou menos erradamente chamada de tímida. Isto não é nada comparado às vezes em que tanto professores como colegas meus me repreendiam por não perceber que estava a ser mal educada. Uma vez uns colegas fizeram cábulas e no teste seguinte disse-lhes: “Desta vez não façam respostas iguais uns aos outros”. Estava a tentar ajudar, mas eles pensaram que foi uma indirecta. Olhando para trás percebo porque foi ofensivo…

Alguns professores não me compreendiam, e alguns não pareciam fazer qualquer esforço para tal. É uma questão complicada. Por vezes nem é por mal – eles simplesmente não sabem lidar com todos os “tipos” de alunos. Outras vezes não querem saber.

No secundário, fui primeiro para humanidades. Comecei a ter medo de me expor de qualquer maneira. Depois do primeiro teste de Português, a professora disse à turma que o meu texto foi o melhor, o que me deixou bastante ansiosa. Até ao fim desse ano, nunca mais fiz a parte da produção escrita, o que me prejudicou a nota… mas aqui está um!

Mudei para uma cidade para frequentar AV. E quão bem fizeram-me os novos ares (poluídos)! Tenho os melhores colegas do mundo, e eles ajudam-me no que for preciso, como em EF porque enfim, sou um desastre! Comecei a perceber-me melhor, assim como a reconhecer as injustiças pelas quais passei e infelizmente muitos ainda passam.

Não que as outras situações tivessem parado. Uma vez em Inglês senti-me “saturada” com o barulho e comecei a ouvir musica com auriculares. Depois da professora ralhar comigo duas vezes disse-lhe a chorar “Eu não consigo estar nesta sala!”. Gritou “Oiiiiii!” e não me ligou mais. Fiquei mais ou menos 1 hora em crise de choro até ganhar coragem e pedir ajuda a uma colega. Comecei a ter ansiedade nos intervalos anteriores até à ultima aula. Em Geometria, tentei fazer uma piada sobre ter demorado 1 ano a memorizar os nomes dos meus colegas porque quando amigos são chegados fazem piadas ofensivas sobre cada um. Sou assim com algumas amigas, mas julguei mal o contexto daquela vez. O professor disse que fui má, mas não me lembro das palavras exactas.

Mesmo assim, sentia-me pela primeira vez aceite numa escola. Sentia-me confortável. Até comecei a pensar que se calhar antes estava só numa fase má. Isto, até a Directora de Turma vir falar comigo, mencionar que os professores me achavam nervosa, e perguntar se preferia fazer os exames nacionais à parte. Nesse momento, percebi que estar “melhor” não significa estar “bem” e disse-lhe “Tenho Asperger”.

Comecei a ter consultas de psicologia e finalmente tive o diagnostico de que antes só tinha suspeita. Evolui tanto desde então que alguns colegas já expressaram o quão orgulhosos de mim estão!

As vezes ainda sinto que faço o quadruplo do esforço mental normal para coisas básicas como simplesmente estar na sala. Sou a primeira a sair porta fora! E Educação Física, nem se fala… então dançar e fazer contacto… o décuplo!

Apesar disto, apenas agora no 12º é que lhes contei sobre a minha condição. E que diferença! Sinto-me mais livre! Já não tenho de colocar a “máscara” todos os dias, não me importo de parecer estranha! Porque eu SOU estranha!

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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