Todos sabemos que ir para a universidade é sinónimo de muita despesa. São cerca de 1000€ de propinas (numa licenciatura duma universidade pública) por ano, mais as deslocações casa-universidade para os estudantes deslocados, mais um quarto na cidade onde se estuda, mais uma série de despesas extras muito variáveis (fotocópias, livros, traje, fitas, etc.). Contas feitas, é muito fácil chegar a um valor de 4000€ anuais, fora a alimentação – mas essa existe sempre, afinal, na universidade ou não, todos temos de comer! Além de se gastar esse valor anualmente (que pode ser muito maior – caso a universidade seja privada, por exemplo; ou muito mais pequeno – caso não se estude longe de casa ou se tenha bolsa, por exemplo), ainda há a somar o custo de oportunidade (perdoem-me ser da área de economia) – afinal, podíamos ter passado o tempo de estudo a trabalhar! Assumindo que se receberia o rendimento mínimo mensal garantido, em 12 meses (excluindo, portanto, subsídios de férias e de Natal) isso dá uma perda de 6960€. Então quem é o tolo que perde cerca de 11.000€ por ano para estudar?



Bem, somos umas centenas de milhares. Porquê? Será que não conhecemos aquela história do primo afastado que é licenciado e trabalha numa caixa de supermercado ou da filha da vizinha que até é mestre e o melhor que conseguiu arranjar foi ser operária fabril? Na verdade, todos já ouvimos estas histórias e muitas outras, já muitas pessoas nos disseram que andar na universidade era desperdiçar dinheiro e que “o canudo” não passa dum papel. O que nos motiva, então, a continuar? Vou deixar de parte toda uma análise à parte mais social, das amizades para a vida, que, apesar de muito importante, é menos objetiva, pelo que deixo para uma próxima oportunidade. Vou tentar basear-me em dados concretos e mostrar que estudar compensa, e muito!

Primeiro, importa perceber que um caso não são casos, e que apesar de muitas vezes acontecer ter um curso superior e trabalhar em áreas indiferenciadas, a probabilidade de isso acontecer tendo uma formação universitária é muito inferior à de quando não se tem. Isso também se vê no desemprego: o desemprego, no 4º trimestre de 2017, em Portugal, era de 8,1%; no entanto, o desemprego da população com habilitação superior era de 5,9% (dados do INE). Além disto, a remuneração média dos trabalhadores, em 2016, com ensino superior é de 17.557€/ano, ao passo que a dos trabalhadores com ensino secundário ou pós-secundário é de 11.398€/ano; a dos que apenas têm o ensino básico fica-se pelos 8.596€/ano (dados da PORDATA). Facilmente se conclui, portanto, que, tendo formação superior, é mais fácil encontrar emprego e a receber melhor (neste caso, a diferença é mesmo substancial) – mais ou menos rapidamente, o investimento é recuperado. Há ainda a acrescentar um dado importante relativo ao emprego: segundo dados do European Social Survey, pessoas com formação superior revelam maior satisfação quanto ao seu trabalho.

Se isto não for suficiente (e não é), ter um curso superior não representa só uma maior probabilidade de um melhor emprego. Também segundo a European Social survey, os licenciados revelam também maior satisfação em relação à vida em geral; por norma, são mais saudáveis, mais tolerantes, mais confiantes e participam mais enquanto cidadãos. Estudar é mesmo isto: é alargar horizontes, é aprender mais sobre o mundo em geral e sobre nós mesmos. Na universidade, temos contacto com pessoas muito diferentes de nós e com percursos de vida também diferentes, especialmente quando estas vêm de outro país. Esta interação torna-nos mais conhecedores e mais abertos em relação a diferentes culturas.

Assim, ingressar no ensino superior leva a mais e melhor emprego e dá-nos outra visão do mundo, mais abrangente e tolerante. Não oiçam os Velhos do Restelo!