Maria (M.): Fala-nos um pouco do teu curso, em que consiste e quais são as suas saídas profissionais.

Adriana Caldas (A. C.): Estou no curso de Administração Pública no ISCSP, licenciatura que teoricamente, engloba tudo quanto é área de atuação do estado, podendo os licenciados exercer diferentes funções em repartições dos ministérios. Relativamente às saídas profissionais do curso, temos um vasto leque de opções nomeadamente os organismos públicos, as ONGs e o setor bancário.

Alexandra Lobão (A. L.): O curso de Administração Pública (AP) consiste muito nos temas políticos e económicos da atualidade e dá-nos ideias de como tentar resolver esses problemas. Tem muitas saídas profissionais, tais como, exercer funções nos institutos e Fundações Públicas, nas empresas municipais, nas instituições de solidariedade social, na investigação, no ensino, entre muitas outras saídas profissionais que abrangem esta área.

Joana Raquel (J. R.): Estou no curso de Administração Pública na Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria. O meu curso é mais vocacionado para uma gestão pública, isto é, para atividades administrativas nos serviços públicos, contudo também podemos ingressar no setor privado. É um curso muito abrangente que vai desde a área de Gestão a Direito, de Contabilidade para Economia, entre outras. Por isso mesmo, as saídas profissionais baseiam-se nessas áreas.

 

M.: O que te levou a escolher o teu curso e que factores tiveste em conta? Foi a tua primeira escolha?

A. C.: Para ser sincera, Administração Pública foi a minha segunda opção. Quando soube que entrei em AP, passei a noite a chorar pois o que realmente queria era Gestão de Recursos Humanos. Não queria ir, mas a verdade é que em menos de três dias de aulas em Administração Pública, disse logo que já não queria mudar. É um curso que nos abre imensas portas e onde temos a possibilidade de seguir várias saídas, para não falar que o curso acaba por ter cadeiras que são abrangentes a outros cursos da faculdade o que facilita imenso a entrada num mestrado noutra área de especialização.

A. L.: Foi a minha primeira escolha. Eu quando cheguei ao 12º ano não tinha a mínima ideia para que curso seguir, depois de saber que tinha passado nos exames e tinha nota de ingresso é que procurei cursos. Sempre achei muito interessante a área da política e a área do direito e quando descobri que este curso tinha um pouco dos dois e ainda abrangia a área do território, foi logo o curso que pus como primeira opção. As minhas restantes opções não abrangiam tantas áreas como este.

J. R.: Nunca soube bem o que queria seguir e, quando chegou a altura para decidir, confesso que foi muito complicado, pois não tinha uma área especifica que gostasse e, por isso, estava muito indecisa.

Estudei Ciências e Tecnologias no secundário, no entanto, biologias, físicas e químicas não eram o meu forte. Com isto, a minha escolha só se tornou ainda mais difícil. Na altura de me candidatar pesquisei cursos que me poderiam interessar e ver no que se baseavam. Não pesquisei muito, mas Administração Pública tinha alguns pontos que me agradaram e foi por isso que foi a minha primeira opção.

 

M.: O que é que te surpreendeu pela positiva e pela negativa no curso?

A. C.: É um curso muito teórico, apesar de ter algumas cadeiras práticas como as Contabilidades e a Microeconomia, faz com que não me sinta 100% preparada para exercer uma função na área. Acho que o curso deveria ter estágio integrado para que podermos ter alguma componente prática onde aplicar a teoria que tanto estudamos.
Estudamos imensas áreas – finanças, economias, gestão, contabilidade, administração, comportamentos nas organizações – o que faz com que tenhamos imensos conhecimentos relativamente a diversos temas. Quando entrei julguei que seria um curso muito ligado para a parte Administrativa de algo, mas na verdade estudamos várias competentes super interessantes.

A. L.: Pela positiva, surpreendeu me o facto de realmente abranger muitas áreas e cada uma delas dar-me a conhecer matérias e assuntos que sempre ouvi na televisão, nos jornais, mas nunca entendia do que se tratava e agora já consigo entender e perceber mais acerca do que se passa com a politica e com a economia do país e mundial.

Pela negativa, o facto de muitas unidades curriculares serem muito teóricas e pouco práticas o que por vezes é um pouco aborrecido e desmotivante.

J. R.: Podemos admitir que se trata de um curso muito vasto no que toca ao plano curricular, e, a meu ver, isso é bom porque ganhamos uma visão de diversas áreas nas quais, mais tarde, podemos especializar-nos, escolhendo uma da nossa preferência.
De outro modo, obviamente que, pelo mesmo facto de se tratar de um curso muito abrangente, não nos dedicamos a uma área em concreto, o que nos faz andar muito dispersos ao longo dos 3 anos. A falta de empregabilidade, infelizmente existente nesta área, é, sem dúvida, um fator desmotivador, mas creio que poderá ser combatida ao longo do tempo.

 

M.: Como tem sido a experiência de estudar nesse curso? O que é que te marcou mais?

A. C.: Tem sido uma experiência super positiva. Como disse anteriormente passei a noite a chorar quando soube que entrei em Administração Pública, mas agora dois anos depois posso dizer “Ainda bem que entrei em Administração Pública”. É claro que existem muitos altos e baixos, já tive vezes em que saí de aulas e de exames a chorar e a pensar “Porque que estou metida nisto?”, mas são fases. Como trabalhadora-estudante por vezes torna-se complicado conjugar “os dois trabalhos”.

Desde que ingressei neste curso, vivi momentos marcantes. Sinceramente não consigo selecionar apenas um. Posso dizer que muitos deles foram vividos na praxe. Sim, a praxe que tantos veem como sendo má. Para mim foi e é dos melhores momentos que o percurso académico me proporciona. Sou uma pessoa extrovertida, sei que mesmo que não tivesse frequentado a praxe ter-me-ia dado bem com praticamente toda a minha turma, mas sem dúvida a praxe foi um momento marcante de integração. Foi nela que conheci pessoas que ainda hoje me são bastante próximas e que já fizeram muito por mim.

A. L.: Tem sido uma experiência com muitos altos e baixos, mas no geral tem sido positiva, é um curso em que não se fala sempre das mesmas coisas e acompanha muito os temas da atualidade. O que me marcou mais foi os amigos que fiz e as pessoas que conheci e o facto de ter conseguido passar sempre a todas as cadeiras, isso deixou me muito orgulhosa de mim mesma.

J. R.: A experiência tem sido ótima e, com o passar do tempo, tenho cada vez mais a certeza de que esta etapa é mesmo das melhores da vida de uma pessoa. É nesta altura que crescemos muito enquanto pessoas, é nesta altura que estamos empenhados em aprender porque estamos a estudar aquilo que verdadeiramente gostamos, é nesta altura que nos preparamos para o futuro, para o mercado de trabalho.

O que me está a marcar nesta fase da minha vida é, sem qualquer dúvida, as pessoas que conheci. Dizem que os amigos para a vida fazem-se na faculdade e eu sou testemunha de tal.

 

M.: Como descreverias a tua adaptação ao ensino superior? Quais foram os teus principais desafios?

A. C.:  Relativamente ao impacto “Meu Deus! Vou para Lisboa, e agora? Não conheço ninguém”, foi uma adaptação muito favorável. Talvez por ter entrado mais tarde na faculdade e por trabalhar, sentia-me responsável e independente o suficiente para enfrentar o medo de estar numa cidade enorme sem conhecer ninguém.
Por outro lado, até hoje ainda existe a instabilidade – até agora já mudei de quarto quatro vezes, e ainda vou no 3º ano de faculdade – mas a mesma instabilidade torna-se um desafio.

Também faço parte de algumas atividades extra curriculares da faculdade, como o Núcleo de Estudantes de Administração Pública o que me faz ter contacto com praticamente todos os alunos do curso, bem como novos alunos.

A. L.: Eu tive uma boa adaptação ao ensino superior, apesar de no inicio, por ser muito tímida não me conseguir dar com muita gente mas isso foi melhorando ao longo do tempo. Os meus principais desafios têm sido, o facto de vir dos Açores e ter que estar muito tempo longe da minha família e o ter que estudar muito mais daquilo que estudava no Secundário.

J. R.: O facto de mudar para uma cidade completamente desconhecida foi, sem dúvida, o maior desafio que enfrentei, todavia posso dizer que a praxe foi muito importante para a minha integração e acredito que todos os estudantes deveriam pelo menos experimentar. Esta é uma fase que só se vive uma vez, visto a integração ser o seu objetivo é admito que vale muito a pena.

Quanto à mudança do secundário para o ensino superior, tenho de reconhecer que o nível de exigência aumentou bastante e a gestão de tempo é uma das grandes dificuldades, se não a maior.

 

M.: Achas que o teu curso te prepara para o exercício da profissão, isto é, que adquires as principais competências que um profissional dessa área deve ter?

A. C.:  Como já referi, acredito que do ponto de vista teórico, o nosso plano de estudos é bastante completo, e que os nossos professores são altamente coerentes com a teoria e a prática, tentando sempre encontrar um meio termo. Posto isto, respondo positivamente a esta questão, ressalvando que o verdadeiro trabalho aprende-se fazendo, embora seja necessário a vertente empírica que sustente cientificamente a execução do nosso trabalho.

A. L.: Eu ainda estou no segundo ano da licenciatura, por isso não posso entrar em conclusões, mas só por este ano e meio, já consigo perceber que nos ensina muitas coisas úteis para o futuro, não só para a vida profissional mas também social e individual.

J. R.: Estou no segundo ano, a meio caminho do final do curso, e, deste modo, penso que o conteúdo das unidades curriculares nos prepara muito bem para o futuro nesta área, no entanto acredito que, para um bom exercício da profissão, seja ela qual for, temos de fazer um trabalho contínuo ao longo da vida profissional, pois, por exemplo, a legislação muda inúmeras vezes e, como tal, os administradores públicos têm de estar sempre atualizados.

 

M.: Consideras o teu curso difícil? Porquê?

A. C.: Não o considero difícil. Como em todos os cursos, existem os “cadeirões” e as cadeiras que se fazem super bem. Mas com estudo tudo se faz.

A. L.: Todos os cursos têm o seu grau de dificuldade. É obvio que não se pode comparar por exemplo, o grau de dificuldade do curso de Administração Pública com o grau de dificuldade do curso de Medicina ou Engenharias, mas é óbvio que se torna ainda mais difícil se não acompanharmos a matéria e estudarmos apenas antes dos testes.

J. R.: Para mim não há cursos fáceis nem difíceis. A facilidade ou dificuldade é relativa, pois depende do quanto gostamos ou não do curso, depende do esforço, da dedicação e do que fazemos para ter sucesso escolar, bem como a forma como nos empenhamos. Sem trabalho e dedicação, todos os cursos são difíceis.

 

M.: Quais são as tuas expectativas no que toca à entrada no mercado de trabalho? Que perspectivas tens?

A. C.: Estou relativamente à vontade. Sendo, como já disse, o meu curso muito abrangente, consegue conciliar a vertente teórica e prática, tanto temos cadeiras de Direito, como de Finanças e Contabilidade, o que permite equilibrar a oferta formativa. Particularmente, perdendo prosseguir os meus estudos na área da Gestão de Recursos Humanos.

A. L.: Já tive algumas palestras com ex-alunos de administração pública e fiquei com uma boa expectativa em relação à entrada no mercado de trabalho porque todos eles estavam a trabalhar e na sua área. Muito deles fizeram mestrado, o que ajuda mais mas outros fizeram apenas os 3 anos de licenciatura e estão a trabalhar, embora alguns tiveram que ir para fora do país. Devido a tudo isto tenho uma boa perspetiva e acho que por ser um curso muito abrangente torna mais fácil a entrada no mercado de trabalho.

J. R.: A vida faz-se de oportunidades e espero ter a minha quando acabar o curso, no entanto sei que não vai ser nada fácil. A empregabilidade, neste momento, devido à crise do nosso país, está em falta e trata-se de um ponto muito crítico no que toca à entrada dos estudantes de Administração Pública no mercado de trabalho. Apesar de o curso ser direcionado para o setor público, nós, estudantes, somos, também, muito bem preparados para o privado e, como tal, este último seria o que gostaria de seguir.

 

M.: Pensas em continuar a estudar para um mestrados/doutoramentos ou pós-graduações?

A. C.: Como disse anteriormente na altura em que me candidatei ao ensino superior, queria na verdade Gestão de Recursos Humanos, por isso ainda pondero a hipótese de concluir a Licenciatura em Administração Pública e iniciar um mestrado na área dos Recursos Humanos.

A. L.: Sim tenciono seguir para mestrado, não sei ainda em qual, mas terá eventualmente a ver com a área da política.

J. R.: Sim, pois o prosseguimento dos estudos é uma das coisas que nos diferencia de tantas pessoas que estão licenciadas nesta área. A área que seguirei ainda não sei mas ainda tenho algum tempo para decidir.

 

M.: Se soubesses o que sabes hoje, candidatavas-te para o mesmo curso novamente? Porque?

A. C.: Se soubesse o que sei hoje, em vez de Administração Pública ser a segunda opção, teria sido a primeira. Sem qualquer dúvida.

A. L.: Sim faria, sem dúvida. Vim para este curso sem saber exatamente do que se tratava mas desde o 1º ano fiquei logo a saber que este era o curso certo para mim. As pessoas que fui conhecendo também ajudaram muito e o curso em si, surpreendeu me pela positiva.

J. R.: Sim, faria. Confesso que, no início, tive dúvidas se era mesmo isto que queria para o meu futuro, mas é claro que temos sempre essas dúvidas, por mais mínimas que seja, mas a cada dia que passa gosto cada vez mais do curso e de como ele me prepara e estar numa ótima academia também ajuda. A decisão que tomei há um ano foi a acertada. Não me imagino noutro curso, não me imagino noutro sitio.

 

M.: Que recomendações deixas aos futuros candidatos ao ensino superior?

A. C.: Não tenham medo! A entrada na universidade é o início de uma nova etapa das vossas vidas. A melhor etapa das vossas vidas! Quando dizem que são os nossos melhores três anos, são mesmo.

Exige muito estudo, é verdade – vai haver sempre o belo do chumbo a HAPP e aquele 10 a Microeconomia que sabe a 20 – mas nunca vão fazer amizades como as amizades da faculdade, nunca vão ter festas como as festas da faculdade, praxe como na faculdade nem cadeiras como na faculdade.

Aqui vão criar as melhores memórias.

Provavelmente se estiverem a viver longe de casa pela primeira vez vão lidar com muita instabilidade, vão haver mudanças de quartos, bons e maus colegas de casa, no armário só vão ter massa e atum e o frigorífico com alguns tupperwares que a mãe vai enviando com comida feita. Mas não se esqueçam, cada caso é um caso e cada erro é uma lição. Nem sempre vai correr tudo como esperado, mas tentem viver cada momento ao máximo. Aquilo que vos irrita hoje é o motivo de piada amanhã.
Aproveitem!

A. L.: Que se não sabem ainda o que querem fazer, comecem já a pensar e não deixem tudo para a última da hora, ou então esperem mais um ano para pensar realmente o que querem e depois então candidatam-se para o próximo ano e que não é vergonha ou problema algum ficar um ano atrás para pensarem no vosso futuro académico e pessoal. E se alguns estiverem interessados no curso de Administração Pública, vão em “frente” e não se esqueçam que Aveiro tem dos melhores, senão o melhor, programa do país.

J. R.: Sigam um curso de que gostem, sigam uma área n a qual se imaginam a trabalhar no futuro. Vivam esta etapa da melhor forma possível, aproveitem tudo mas não se esqueçam do mais importante: os estudos. No ensino superior, a facilidade de nos desleixarmos é imensa e a prioridade devem ser mesmo as notas. É necessário muito trabalho mas, no fim, todo o esforço compensa.

 

M.: O que dizem… as tuas notas?

A. C.: As minhas notas nem sempre são as melhores. Tenho a perfeita noção de que se não fosse trabalhadora-estudante conseguia gerir muito melhor o tempo e tirar muito melhores notas. Basicamente elas refletem o tempo de estudo e o interesse que tive por cada cadeira – claro que há cadeiras em que estudei imenso e outras que gostava imenso e acabei com 10 – mas se conseguir gerir bem o meu tempo de estudo consigo tirar a nota pretendida.

Aos candidatos a Administração Pública recomendo vivamente que optem pelo ISCSP. Nunca vão encontrar um microclima tão espantoso como o do Pólo Universitário da Ajuda nem uma ISCSPlanada com melhor vista. Aproveitem e boa sorte a todos.

A. L.: As minhas notas dizem que, embora maioritariamente das vezes tenho positivas, não muito altas, nos testes, deveria estudar mais porque apesar de por vezes a matéria parecer mais fácil, nos testes os professores tornam-na sempre difícil.

J. R.: Refletem esforço e empenho, no entanto poderiam ser melhores. Por muito surpreendente que seja, ou não, devido à área ser bastante do meu interesse, tenho melhores notas que no secundário, todavia, a verdade é que no ensino superior a dedicação tem sido de maior grau.

 

Adriana Costa é aluna do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa, Alexandra Lobão da Universidade de Aveiro e Joana Raquel é estudante da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria.