Maria (M.): Fala-nos um pouco do teu curso, em que consiste e quais são as suas saídas profissionais.

João Sanchez (J. S.): O curso consiste na aprendizagem das ferramentas para se fazer cinema. Considero que o resto esteja muito na força de vontade do aluno e na forma como aproveita o que a escola lhe dá. Saídas profissionais só Deus sabe.

Miguel Canaverde (M. C.): O meu curso consiste numa licenciatura em Vídeo e Cinema Documental na Escola Superior de Tecnologias de Abrantes. Passando sempre um pouco pelo cinema ficção, conseguimos ter uma grande noção do que é o cinema no geral. São várias as suas saídas profissionais, entre as quais: produtores audiovisuais, realizadores, argumentistas, operadores de câmara, operadores de som, editores de imagem, editores de som, diretores de fotografia, designers de som, investigadores, críticos, ensaístas e programadores de eventos culturais.

Rúben Sevivas (R. S.): A licenciatura em Cinema pela Universidade da Beira Interior tem como principais objetivos formar tanto académicos como técnicos nas áreas especificas do cinema. Como universidade que é, foca-se bastante na formação académica, ou seja, na teoria e na investigação em cinema. Contudo, existe uma forte procura dos alunos pelas áreas mais técnicas. Sendo assim, o curso, cada vez mais, permite a elaboração de projetos que incentivam à prática do cinema. Cada aluno terá a oportunidade de experimentar uma das áreas especificas e, se assim o entender, poderá desenvolver e aprofundar o seu estudo.

Nesse seguimento, o curso permite ingressar no mercado de trabalho nas áreas da produção, do som, da fotografia ou da realização. Permitindo também continuar o aprofundamento do cinema como disciplina.

 

M.: O que te levou a escolher o teu curso e que factores tiveste em conta? Foi a tua primeira escolha?

J. S.: Não, não foi a minha primeira escolha. Pensei na Católica no Porto, porém, eu tinha perfeita noção de que era apenas por querer sair de Lisboa. Após não ponderar assim tanto decidi ficar por Lisboa e inscrever-me na ESTC. Não só por ser em Lisboa, mas principalmente por ser a escola de Cinema com maior nome em Portugal.

M. C.: Após concluir o meu curso de técnico de multimédia na escola Dr. Ginestal Machado em Santarém tive a oportunidade de frequentar um curso de cinema na London Film Academy, onde a arte de fazer cinema despertou cada vez mais o meu interesse.

Decidi candidatar-me como primeira opção. Embora não conhecesse ninguém que tivesse estudado nesta escola, que me pudesse contar as suas experiências, a organização e saídas profissionais transmitiram-me a ideia de uma licenciatura bastante completa, que me levou a optar por este.

R. S.: Não posso dizer que tenha sido a minha primeira escolha porque já tinha ingressado no ensino superior um ano antes. Estava na FBAUL em Arte e Multimédia. Contudo, o curso não correspondeu às minhas expetativas e decidi candidatar-me à UBI. Dessa vez, foi a primeira e única opção. Por um lado, tinha a certeza que entraria e, por outro, tinha a garantia de já estar num curso.

O que me levou a escolher a UBI foi, sem dúvida, o facto de ser a única universidade a estudar cinema. Não audiovisual ou som e imagem. Eu sabia que queria aprofundar conhecimentos teóricos acerca do cinema apreendidos, ainda que por alto, durante o ano na FBAUL. Não me interessava a parte da comunicação ou do audiovisual, mas sim a especificidade do cinema, principalmente como disciplina. Depois, um estudo no politécnico não me interessava pela parte mais técnica, apesar de achar muito importante. Naquele momento, queria enveredar por um estudo académico do cinema em vez de aprofundar conhecimentos técnicos. Hoje, depois de licenciado e com as bases teóricas, pretendo seguir para uma escola mais técnica.

 

M.: O que é que te surpreendeu pela positiva e pela negativa no curso?

J. S.: Ainda estou a descobrir se o que acho negativo virá a tornar-se positivo e vice-versa. Mas acima de tudo destaco o fraco processo de selecção da Escola, a falta de organização e compreensão por parte dos professores em algumas situações. Porém, sinto que o facto de termos tão poucos meios, financiamento, dá-nos um bom treino para o que podemos esperar lá fora.

M. C.: Claro que cada curso tem os seus altos e baixos, mas tenho poucas coisas negativas a apontar a este curso. A teoria e a prática são exploradas de igual forma.

No geral conseguimos realizar projetos extra curriculares, o que é bastante favorável para conseguirmos ter mais de experiência em campo.

A nível de aspetos negativos não tenho nada a apontar. Somos poucos alunos e a cidade de Abrantes é perfeita para podermos trabalhar em comunidade e explorar as suas histórias, o que é perfeito para aprendermos cinema documental!

R. S.: Surpreendeu-me pela positiva o espirito da Universidade. De todos os alunos. Bem como dos professores. A acessibilidade que encontrei na UBI não se compara com a FBAUL, por exemplo. A relação professor/aluno é ótima!

Pela negativa, os alunos de cinema especificamente. Muitos dos meus colegas estavam no curso, simplesmente, para se dizerem licenciados, sem gosto, portanto. E cinema é uma prática que se faz em conjunto, em grupo; e o facto de sermos obrigados a trabalhar com pessoas completamente alheias ao cinema é desmotivante. Acredito ser necessário algum tipo de pré-requisito, por mais mínimo que seja.

 

M.: Como tem sido a experiência de estudar nesse curso? O que é que te marcou mais?

J. S.: Razoável apenas. Costumo dizer que se não tivesse o meu Colectivo Pagárrenda, não aguentava estar ali nem mais um dia. Não porque é difícil, mas sim sufocante. Nada me marcou ali. E se marcou, foi uma nódoa negra.

M. C.: O que me marcou mais foi sem dúvida a proximidade com os professores. Sempre que tínhamos alguma dúvida, ou até apenas para conversar sobre a questão do “O que é esta arte de fazer cinema?“, havia sempre liberdade de expressão.

R. S.: Costumo dizer que ingressar na UBI foi a melhor decisão que tomei na vida. Tanto a nível pessoal como académico. Sei hoje o que quero fazer e o que quero estudar. Dou graças a todo o grupo docente e a todos os que o proporcionaram. Se acima referi que existem alguns alunos que andam no curso só por andar, também é certo que há alunos cheios de garra e de vontade de aprender. Na UBI, vi projetos com pouquíssimos recursos a serem levados para a frente através do espírito de união e de vontade de pequenos grupos de trabalho. A união e a força de trabalho na UBI excedeu as minhas expetativas e ainda não encontrei igual em outros sítios por onde já passei.

 

M.: Como descreverias a tua adaptação ao ensino superior? Quais foram os teus principais desafios?

J. S.: Tem sido boa. Vim da Escola Artística António Arroio onde tinha uma carga horária bem mais pesada, por isso, aqui até sinto um certo alivio. Desafios? Ainda não senti que tivesse tido principais desafios.

M. C.: Quando frequentei esta licenciatura quis estar bastante focado em aprender a fazer cinema ao invés de o praticar imediatamente. Além disso, ter a possibilidade de alugar equipamento por fases de ano para ano deu-nos a oportunidade de nos focarmos numa área de cada vez.

R. S.: Adaptei-me bem. Sempre fui bom aluno e sempre fui uma pessoa muito independente. Antes da universidade tirei um ano para trabalhar em Inglaterra. Depois, quando as coisas não me agradavam, tentava fazer com que melhorassem. Por isso, deixei a FBAUL e, por isso, criei grupos culturais fora da universidade para me manter mais ativo. O ensino superior é conciliável com atividade extracurriculares e com trabalho. Foi o que fiz durante os anos na UBI e, apesar de se tornar difícil, foi recompensante. Sendo assim, o maior desafio é mantermo-nos motivados!

 

M.: Achas que o teu curso te prepara para o exercício da profissão, isto é, que adquires as principais competências que um profissional dessa área deve ter?

J. S.: Não te consigo responder a isto. Não terminei o curso, nem conheço ninguém que o tenha terminado.

M. C.: Atualmente estou a trabalhar como freelancer, mas invertendo a questão e olhando para trás, penso que este curso nos deu as bases de como fazer cinema. Depois disso temos muitas variantes por onde pegar e o mundo do trabalho é o que nos prepara devidamente para um melhor futuro. Apenas com a prática conseguimos aperfeiçoar o nosso trabalho cada vez mais. Por isso com a oportunidade de realizar trabalhos extra curriculares esta é, sem dúvida, uma das melhores formas que este curso tem para preparar os seus alunos.

R. S.: Sim. Claro que não chega para sermos excelentes profissionais. Isso só depois de muita prática. Mas a bagagem dos diversos projetos é ótima. A nível teórico, acho que saímos efetivamente muito bem preparados.

 

M.: Consideras o teu curso difícil? Porquê?

J. S.: Necessita empenho, mas isso todos necessitam. Mas todos costumamos dizer “ao menos não estamos a decorar o Código Civil”. Por isso não, não é dificil.

M. C.: Este curso é bastante acessível. A proximidade aluno-professor facilita bastante as coisas e muitas vezes podemos trabalhar como uma equipa, o que torna o curso bastante agradável de frequentar, criando contactos e colegas de trabalho para um futuro próximo.

R. S.: Não o acho difícil. Acho trabalhoso em diversas alturas. Alturas em que se tem de conciliar exames e frequências com rodagens e entregas de projetos. Contudo, nada que uma boa gestão do tempo não ajude.

 

M.: Quais são as tuas expectativas no que toca à entrada no mercado de trabalho? Que perspectivas tens?

J. S.: Reconheço que o cinema em Portugal é como é. Na maneira do possível, ir criando algo novo.

M. C.: Como já estou envolvido no mercado de trabalho, as minhas perspetivas futuras passam por cada vez fazer mais filmes. Com a oportunidade que tivemos de fazer um projeto final, que consistia na produção por inteiro de uma curta-metragem, onde no ano letivo de 2014/2015 a nossa escola foi premiada com uma bolsa da incentivo ao cinema por parte do ICA – Instituto de Cinema e Audiovisual, o que deu a possibilidade de cada grupo ter um orçamento para produzir a sua primeira obra. Desde a ideia até à sua distribuição este curso tentou sempre levar os projetos dos alunos a irem mais longe e serem submetidos em festivais de cinema, tais como: Encontros de Viana do Castelo, Fest – Trainning ground, Porto Postdoc, MotelX, Primavera do ciné em Vigo, Lisbon and Estoril Film Festival, Doc Lisboa e IndieLisboa, onde tive o prazer de estrear a minha curta-metragem “Borda d’Água”. Isto tudo dá-nos um grande incentivo de querer continuar a fazer cinema.

Atualmente como base de sustento faço institucionais, videoclips, aftermovies, promocionais, etc. Tento sempre continuar a fazer os meus projetos pessoais, no que toca a continuar a produzir curtas-metragens.

R. S.: Pretendo continuar a estudar. Isso é certo. Não sei se logo a seguir à licenciatura, mas pretendo. Em relação ao mercado de trabalho, vejo-me a enveredar pela realização e pela escrita de argumentos (isto deixando de fora a investigação). Contudo, num contexto de mercado, sei que terei melhores possibilidades, por agora, de trabalhar em produção, mesmo não sendo exclusivamente de cinema, pois foi uma área que exerci paralelamente ao curso.

 

M.: Pensas em continuar a estudar para um mestrados/doutoramentos ou pós-graduações?

J. S.: Gostava sim. Estudar dá-me sempre imenso prazer.

M. C.: Por enquanto estou a pensar continuar no mercado de trabalho, mas a possibilidade de fazer um mestrado em cinema Documental ainda não me saiu da cabeça.

R. S.: Já respondi a este pergunta anteriormente, antecipei-me 🙂 . Sim. Pretendo fazer mestrado e, mais tarde, doutoramento.

 

M.: Se soubesses o que sabes hoje, candidatavas-te para o mesmo curso novamente? Porque?

J. S.: Penso que sim. Se estivesse neste momento numa aula provavelmente diria que não, mas a verdade é que afastando-me um pouco, respirando fundo, não havia outro caminho que gostasse de tomar. Por agora.

M. C.: Sim faria, nunca tive como opção própria querer ir estudar para cidades grandes, penso que esta opção de ter frequentado uma licenciatura em vídeo e cinema documental numa cidade com uma população de 40 mil pessoas pareceu-me ideal para a aprendizagem da arte de fazer cinema.

R. S.: Sim. Porque só sei o que sei hoje graças ao curso que escolhi. E sei que quero continuar a fazer e a estudar cinema. Sei, inclusive, que tipo de estudo e que tipo de cinema pretendo fazer. Não saberia tal se tivesse seguido um outro rumo.

 

M.: Que recomendações deixas aos futuros candidatos ao ensino superior?

J. S.: Estudem!

M. C.: Que tenham em consideração a sua verdadeira paixão e que não se deixem levar por más decisões. Cada pessoa tem dentro de si a sua verdadeira vocação e deviam-se deixar levar pelo que sabem fazer melhor.

R. S.: Não se limitem. Escolham as vossas opções por vocês próprios. Sejam fieis a vocês mesmos e não deixem que sejam outros a escolher o que irão fazer da vossa vida. Depois, motivem-se! Sempre. E lembrem-se que mudar de curso, ou de opção, não é desistir. Não têm de se sentir derrotados. Procurem soluções. Reinventem-se se for preciso, mas não se permitam a estagnar.

 

M.: O que dizem… as tuas notas?

J. S.: Não dizem nada. O que importa é se sei fazer as coisas. O resto é completamente supérfluo.

M. C.: Felizmente consegui acabar o curso com média de 15, o que até hoje não influenciou em nada a minha introdução no mercado de trabalho. Talvez futuramente se pretender ingressar num mestrado essa nota venha a ser posta em consideração.

R. S.: Não acredito nas notas, apesar de as respeitar e achar essenciais. Mas são um número que, talvez sim, talvez não, representa o meu conhecimento. Neste momento dizem que posso continuar a estudar e que fiz um bom percurso.

 

João Sanchez é aluno de Cinema da Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa, Miguel Canaverde de Vídeo e Cinema Documental da Escola Superior de Tecnologias de Abrantes do Instituto Politécnico de Tomar e Rúben Sevivas frequenta a licenciatura em Cinema da Universidade da Beira Interior.