Maria (M.): Fala-nos um pouco do teu curso, em que consiste e quais são as suas saídas profissionais.

Bárbara Taveira (B.V.): O curso consiste em 4 anos de ensino teórico e prático, sem mestrado integrado. É um bastante prático, já que existe estágio (não remunerado) todos os anos, sendo que a componente prática representa mais de metade da duração do curso. Este curso permite-te formares-te como enfermeiro e também crescer como ser humano. No ramo da Enfermagem podes vir a trabalhar em hospitais, centros de saúde, lares de idosos, centros de dia, entre outras opções. É um curso que te vai levar a estar constantemente em contacto com pessoas diferentes, sendo a capacidade de comunicação e de estabelecer empatia muito importantes.

Catarina Leite (C.L.): O meu curso baseia-se no saber cuidar do outro com tudo o que isso envolve. Podemos vir a trabalhar na área comunitária (centros de saúde), na área hospitalar, lares de idosos, seguir a vertente da investigação, etc.

 

Joana Pires (J.P.): A Enfermagem define-se como a “arte do cuidar”, numa visão holística de prestação de cuidados de saúde com base na qualidade e segurança.

Ser enfermeiro é ser um profissional altamente qualificado, com competência que extravasa não só as técnicas, mas como as relacionais, éticas e culturais. Saber exercer o seu papel de uma forma autónoma, bem como interdependente com toda a equipa multidisciplinar.

Relação humana com os utentes, qualificada e suportada por valores muito rígidos de uma profissão que carece de muita ética e moral. É assumir a responsabilidade na gestão da saúde dos utentes, com um olhar diferenciador da maioria e cuidador, no fundo de base da profissão, tanto em processos de doença, como em processos de saúde, em todas as etapas de vida de um ser humano.

As saídas profissionais de um enfermeiro podem ser: contexto hospitalar, existindo uma diversidade de serviços, como, cirurgia, medicina, especialidades médicas, unidade de dor; cuidados de saúde primários, existindo, centros de saúde, unidade de cuidados à comunidade, unidades de saúde personalizadas, unidade de saúde familiar.

É óbvio que os enfermeiros também podem agir em ações de educação para a saúde, trabalhar em escolas, pese embora sejam áreas em que o nosso país não aposta tanto, embora sejam muito importantes, enquanto pensamento de um paradigma de saúde numa base de profilaxia, centrada na saúde, e não enquanto paradigma de doença, centrada no hospital.



 

M.: O que te levou a escolher o teu curso e que factores tiveste em conta? Foi a tua primeira escolha?

B. T.: Há um ano atrás eu não sabia que curso escolher. Estava muito dividida entre Enfermagem e Fisioterapia, mas tinha também muitas outras opções em aberto como Psicologia ou Terapia da Fala. Depois de muito refletir e de me informar sobre os cursos decidi (ainda que um pouco a medo), que Enfermagem era aquilo que queria seguir. Assim, acabei por entrar na minha primeira opção: Enfermagem em Vila Real.

C. L.: Foi sempre a primeira escolha e orgulho-me imenso disso. Foram vários os fatores que me influenciarem principalmente o facto de ser um sonho desde criança e também o facto de já ter a experiência do pré-hospitalar que vinha da corporação de bombeiros da qual já faço parte há vários anos.

J. P.: A escolha do curso foi baseada na área que já tinha definido como uma área que gostaria de trabalhar, a saúde. Tudo se desenvolveu perante esta ideia. Para além disso, também tinha influência familiar para seguir esta área, visto que tinha uma pessoa na família que era enfermeiro.

Foi a minha primeira e única escolha.

 

M.: O que é que te surpreendeu pela positiva e pela negativa no curso?

B. T.: O que me surpreendeu pela negativa neste curso foi a quantidade de matéria teórica (que, na minha opinião, não apresenta grande relevância para a futura vida profissional) que é lecionada no primeiro semestre do primeiro ano. No entanto, as surpresas positivas superaram muito as negativas. Fui recebida de braços abertos, aprendi muita coisa, e sem dúvida estou a gostar mais do curso do que esperava.

C. L.: Surpreende-me imenso pela positiva a parte da evolução dos cuidados em Portugal e no Mundo e pela negativa a posição laboral desta profissão principalmente em Portugal… o facto de sermos mal remunerados e de sermos poucos, acabando por prejudicar a qualidade dos cuidados.

J. P.: No curso o que me surpreendeu pela positiva foi sem dúvida a panóplia de competências que um enfermeiro tem de desenvolver, e isso é positivo, porque dá-nos uma perspetiva sobre o que é a profissão, e sobre os profissionais que seremos. Também acho que no curso a prática clínica e o contacto com os utentes é a coisa que mais fica patente. Traduzindo numa frase, a parte mais positiva do meu curso, é que “Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.

Existe pontos muito negativos no curso, um deles, principalmente no meu Politécnico, em Setúbal, a carga horária é muito pesada. Também sendo um curso com uma grande componente prática, avaliando os locais de estágio por onde passamos, também há realidades de contextos, com enfermeiros que trabalham sem condições ou com condições precárias, enfermeiros em burnout.

 

M.: Como tem sido a experiência de estudar nesse curso? O que é que te marcou mais?

B. T.: Este primeiro ano da universidade, posso dizer sem dúvida que foi o melhor ano da minha vida. A praxe deste curso marcou-me muito, fiz grandes amizades, o facto de estagiarmos desde o primeiro ano (ainda que seja um estágio mais relacionado com a observação) faz-nos crescer muito e dá-nos de certa forma um “choque de realidade”.

C. L.: Tem sido espetacular, cada vez tenho mais a certeza de que escolhi o curso certo. Como já estagio há bastante tempo já tenho uma outra perspetiva da realidade e adoro.

J. P.: Deslindar a porta do estereótipo da sociedade foi a melhor experiência de estudar neste curso. Para a maioria trata-se de um profissional de saúde que “faz pensos e dá picas”, e tudo gira em volta deste pré conceito formulado por muitos.

É uma profissão que se traduz numa frase: “ (….) é gente que cuida de gente.” E sim o cuidar implica muitas aprendizagens, estudos, conceitos, competências. É a vida das pessoas que está em causa.



 

M.: Como descreverias a tua adaptação ao ensino superior? Quais foram os teus principais desafios?

B. T.: A minha adaptação ao ensino superior dificilmente poderia ter sido melhor. Eu vinha de um grupo muito fechado e unido de amigos e pensava que dificilmente iria arranjar novas amizades, no entanto não poderia estar mais enganada, posso dizer que já fiz amigos que espero guardar para a vida. A minha maior dificuldade foi sem dúvida adaptar-me a um ritmo completamente diferente: estudar o dobro e tirar piores notas, para além da grande carga horária.

C. L.: O principal desafio foi sem dúvida estar a 250 km de casa e saber conviver com isso mas é certo que a adaptação surgiu de imediato e agora não trocaria por nada.

J. P.: Foi uma adaptação normal, pese embora tenha ido estudar para uma cidade diferente. Acho que os maiores desafios foi a adaptação, numa perspetiva de localização, de transporte diário, de mudança de rotinas, de uma carga horária enorme. Mas não foram desafios muito relacionados com o curso, mas sim com a logística da tua vida enquanto estudante.

 

M.: Achas que o teu curso te prepara para o exercício da profissão, isto é, que adquires as principais competências que um profissional dessa área deve ter?

B. T.: Logo no primeiro ano aprendemos grande parte das técnicas que vamos utilizar na vida profissional já que o segundo semestre é ocupado essencialmente com aulas práticas. Além do mais, o facto de neste curso haver estágio todos os anos prepara-nos para o nosso futuro profissional.

C. L.: Sem dúvida alguma, prepara-me em tudo.

J. P.: Completamente. O nosso curso prepara-nos com uma componente teórica forte, e depois com uma componente prática. É claro que os nossos estágios/ensinos clínicos, alguns que começam logo no primeiro ano de faculdade (mediante plano curricular do curso de licenciatura e da escola em que é lecionado) nos fazem preparar para o exercício futuro da profissão. Acho que é bastante diferenciador da maioria, porque nos faz andar no espaço concreto e real em que a profissão se traduz, e neste sentido dá-nos a competência real para o que é a profissão.

 

M.: Consideras o teu curso difícil? Porquê?

B. T.: Dizer que Enfermagem é um curso fácil seria mentir. Não, não é difícil passares a todas as cadeiras (mesmo que não vás a algumas aulas) mas tirar ótimas notas é, pelo menos no primeiro ano. É desgastante, principalmente a nível psicológico. Estou só no primeiro ano, pelo que não vivencio ainda muito essa dureza do curso, no entanto no meu primeiro ensino clínico passo oito horas num lar de idosos todos os dias e, apesar de ainda não pormos em prática a grande maioria das técnicas que aprendemos, é cansativo. São oito horas de muita paciência e dedicação (se decidires levar o primeiro estágio com a seriedade com que deve ser levado) a lidar com situações que nem sempre são fáceis, no entanto, futuro caloiro, se for mesmo isto que queres vais ver que vale muito a pena, por cada sorriso e agradecimento que te dão, por cada momento em que sabes que estás a fazer algo que dificilmente poderia ser mais nobre: cuidar de alguém.

C. L.: Sim, principalmente porque a nossa “matéria-prima” não são papéis, leis ou desenhos… são pessoas e é óbvio que só por isto já exige uma maior complexidade e responsabilidade porque temos nas mãos vidas que dependem de nós muitas das vezes para tudo, até para comer.

J. P.: Sim, considero. Não é fácil, adquirir tantas competências não só ligadas à enfermagem, como também de um ponto de vista ético e moral. É com outras pessoas que lidamos, com outras crenças, convicções, sujeições, e isso chama-se a individualidade do outro. É com esta individualidade que temos de saber lidar, não só de um ponto de vista relacional, mas também de um ponto de vista holístico na pessoa. Aquilo que eu considero melhor, com uma “boa prestação de cuidados de saúde”, nem sempre é aquilo que a pessoa acha melhor para si, e cabe-nos a nós respeitar.

Depois conhece-mos e lidamos com todo o tipo de pessoas, com histórias de vida complicadas, com pontos de vista muito diferentes, que nos desafiam imenso enquanto estudantes para saber-mos, mais uma vez, lidar com o outro.

 

M.: Quais são as tuas expectativas no que toca à entrada no mercado de trabalho? Que perspectivas tens?

B. T.: O mercado de trabalho para Enfermagem em Portugal como todos sabemos não está fácil, mas em três anos muita coisa muda e, se não mudar, há todo um mundo lá fora.

C. L.: Infelizmente não são as melhores, pelo menos dentro de Portugal. São cada vez mais os desempregados nesta área porque apesar de haver necessidade de mais profissionais os mesmos não são empregados o que nos faz procurar oportunidades fora do nosso país.

J. P.: Esta é a pergunta mais complicada. Embora, o meu Politécnico de Setúbal tenha uma taxa de emprego elevada, e pese embora se diga ultimamente que os enfermeiros têm emprego, não está fácil.

Acho sinceramente uma profissão que trás consigo “um bilhete de avião”, infelizmente para o decaído Serviço Nacional de Saúde que temos. É claramente uma questão política, baseada num mau investimento, com recurso a financiamento a privados (PPP´s, IPSS) que faz com que o panorama do mercado de trabalho, principalmente nos enfermeiros, esteja tão mal.

Os números não mentem, e são muitos os profissionais que emigraram nos últimos anos, em contradição, pois somos dos países da União Europeia com um número mais baixo de profissionais per capita.

A nível de perspetiva pessoal não a consigo definir. São muitas as ambições, mas também é muita a precariedade, os baixos salários, os horários desregulados de trabalho.



M.: Pensas em continuar a estudar para um mestrados/doutoramentos ou pós-graduações?

B. T.: Ainda não pensei muito sobre o que fazer depois da licenciatura, mas um mestrado é uma opção.

C. L.: Por enquanto não. Nesta profissão interessa-me mais, após dois anos de experiência profissional, tirar especialidade numa área mais específica e não propriamente um mestrado, porque é dinheiro investido que muitas das vezes acaba por não ter retorno uma vez que continuamos a ser remunerados como licenciados.

J. P.: Sim gostaria de tirar, mal acabe o curso, um mestrado em Economia e Gestão da Saúde. E sim no futuro penso num doutoramento, também dentro da área de Economia e Gestão.

 

M.: Se soubesses o que sabes hoje, candidatavas-te para o mesmo curso novamente? Porque?

B. T.: Tenho pensado muito nesta pergunta nos últimos tempos: e se pudesse voltar atrás? A resposta não poderia ser mais simples: não hesitava nem um segundo em candidatar-me a este curso.

C. L.: Sim, sem dúvida, porque sempre foi e continua a ser o meu sonho.

J. P.: Não! Depois disto tudo parece contraditório, mas não o faria. Quando se ganha consciência política e social do que se passa no Serviço Nacional de Saúde, na Ordem dos Enfermeiros, percebe-se que existem muita coisa virada do avesso. Não escolheria este curso, porque muita da experiência prática que tive, em contexto de ensinos clínicos/estágios, pois dá uma visão negativista da profissão, que contribuí para o estereótipo da profissão, para o desinteresse e para a falta de brio profissional.

 

M.: Que recomendações deixas aos candidatos ao ensino superior deste ano?

B. T.: Caro candidato ao ensino superior, futuro caloiro, se és como eu, certamente estás muito assustado e nervoso com o que se aproxima (normalmente ficamos assim antes de grandes mudanças). O meu conselho para ti é que sigas o teu coração, ninguém quer trabalhar num emprego que detesta para o resto da vida. Este é o momento para fazer uma escolha de grande responsabilidade mas mantem a calma e tudo vai correr bem. E se te estiveres a sentir corajoso e com a vontade de seguir um curso que te vai encher o coração de orgulho, então vemo-nos para o ano.

C. L.: Empenho e dedicação e que vão para este curso com a certeza de que é realmente o que querem porque é um curso exigente e que requer muito “amor à camisola”.

J. P.: Na vida vai sempre existir uma dualidade. Primeiro, aquela de escolher um curso, pressionada pelo contexto familiar, que dê emprego, com um fim de base sempre nesta ideia. Segundo, escolher um curso que nos dê prazer, que nos complemente.

Eu sou apologista da segunda, escolher com base naquilo que vai ser a nossa vida no futuro. Vamos ser pessoas muito mais felizes, se seguirmos aquilo que nos preenche. Não vale a pena inventarmos sonhos dentro de uma profissão com emprego e com grande estatuto social, se aquilo que nós queríamos e desejamos, os nossos sonhos, está atrás de uma profissão menos valorizada, com taxas de desemprego maior.

 

M.: O que dizem… as tuas notas?

B. T.: Quanto às minhas notas não se pode dizer que tenham sido extraordinárias, no entanto não deixei nenhuma cadeira para trás nem tive que ir a nenhum exame.

C. L.: Dizem que sou esforçada e que consigo cumprir todos os objetivos aos quais me proponho.

J. P.: Dizem que sou uma pessoa que se esforça para alcançar um objetivo de acima de tudo ser um bom profissional.

Eu não foco o curso com base nas notas, as notas são um parâmetro quantitativo, por vezes em nada representativo da qualidade dos cuidados.

Eu tenho boas notas, mas não é isso que me torno uma melhor profissional, em casos específicos é que se vê o que vale o enfermeiro, e por vezes em muitos passa-lhes ao lado a especificidade dos momentos, é o tal olhar crítico e diferenciador, que só alguns vão adquirir.

 

Bárbara Taveira é aluna da Escola Superior de Enfermagem de Vila Real, Catarina Leite da Escola Superior de Saúde da Guarda e Joana Pires é estudante na Escola Superior de Saúde de Setúbal.