Maria (M.): Fala-nos um pouco do teu curso, em que consiste e quais são as suas saídas profissionais.

Gonçalo Madureira (G. M.): O Ciclo de Estudos Integrado do Mestrado em Medicina da confere o grau de Mestre em Medicina. É um curso que com o Tratado de Bolonha se tornou num Mestrado Integrado o que significa que após a conclusão dos 6 anos (isto é 360 ECTS) é conferido o grau de mestre e após a conclusão de 3 anos (isto é 180 ECTS) é conferida uma licenciatura em ciências básicas da saúde. Tradicionalmente, o curso de medicina, com duração de 6 anos é dividido em 3 etapas. Os três primeiros anos são habitualmente designados de “anos básicos” uma vez que é aqui que são lançados os alicerces teóricos que irão fundamentar posteriormente a prática clínica. Ao longo dos anos básicos, os estudantes contactam com áreas pré-clínicas, habitualmente de caráter mais teórico tais como a Bioquímica, Anatomia, Fisiologia, Biologia Celular e Molecular, Genética, Histologia, Embriologia, Imunologia, Microbiologia, Epidemiologia, Bioestatística… Os três últimos anos são chamados de “anos clínicos”. Nos anos clínicos, os alunos contactam com diversas áreas clínicas (médicas e cirúrgicas) e não clínicas. Em termos de saídas profissionais estas são: carreira Médica, investigação Médica, consultadoria na indústria farmacêutica e ensino médico.

Inês Hermenegildo (I. H.): Estou no curso de Medicina, na NMS|FCM. Em termos de saídas profissionais, a maior parte dos alunos segue a carreira clínica, no entanto, podemos também enveredar pela carreira da Investigação.

Marta Ferreira (M. F.): Como ainda me encontro no 1º ano do meu curso, dizer em que é que ele consiste é ainda muito complicado, pois todas as faculdades têm um programa diferente, embora tenha realizado alguma pesquisa antes de me candidatar, claro. Mas como é óbvio, irei adquirir competências que me permitirão cuidar de diversos pacientes, entrar em contacto com diversos tipos de patologias, etc. O curso de Medicina dar-me-á diferentes oportunidades consoante a especialização que escolher.

 

M.: O que te levou a escolher o teu curso e que factores tiveste em conta? Foi a tua primeira escolha?

G. M.: Não refleti aprofundadamente acerca da escolha do curso. Não obstante, esta foi uma decisão racional baseada em critérios de índole diversa. O fator mais preponderante na minha escolha foi o fascínio que tinha pela biologia humana e pela sua complexidade. Uma vez que sempre me senti muito interessado pelo estudo do funcionamento e da forma do corpo humano, Medicina foi desde cedo uma hipótese forte. Por outro lado, o facto de ser uma área em constante evolução e que por isso requer uma atualização constante dos conhecimentos, foi outro fator com elevada influência na escolha do curso. Acrescem ainda outros fatores, também relevantes tais como a amplitude do âmbito das saídas profissionais e as boas perspetivas de emprego (não obstante a detioração inerente ao aumento do número de formados na área). Assim, medicina foi a minha primeira escolha embora tenha considerado outras hipóteses, nomeadamente Matemática (que seria a minha “zona de conforto”).

I. H.: Sempre gostei bastante de hospitais, ao contrário da maior parte das crianças, e sempre tive o fascínio de um dia vir a trabalhar num. No decorrer da minha adolescência foi-me diagnosticado um problema de malformação óssea e, por esse motivo, as idas aos hospitais tornaram-se frequentes, o que me fez encarar os profissionais de saúde de uma nova forma. Durante o secundário esforcei-me para ter notas que me permitissem entrar neste curso e acabei por entrar na minha 1ª opção.

M. F.: Sempre gostei de ajudar as pessoas, e qualquer disciplina de Medicina, toda a anatomia do corpo humano, fascina-me. Desde que me lembro que gosto de Medicina. Durante uns tempos andei indecisa entre Medicina Veterinária e o curso que escolhi, mas não me arrependo da escolha.

 

M.: O que é que te surpreendeu pela positiva e pela negativa no curso?

G. M.: A idealização que tinha do curso a priori revelou-se pouco exata e correspondeu pouco àquilo que é a realidade desta área. Pela positiva, surpreendeu-me a vastidão que o mundo da saúde apresenta, algo cuja dimensão apenas é verdadeiramente compreendida quando se contacta com esta realidade. Por outro lado, a pouca estimulação do raciocínio lógico e dedutivo em detrimento da valorização exacerbada da memorização pura, surpreendeu-me muito pela negativa. Apesar de tudo, ainda é precoce afirmar que conheço plenamente o curso pelo que é expectável que este ainda me venha a surpreender no futuro.

I. H.: Sem dúvida que o ambiente entre todos os alunos da minha faculdade me surpreendeu, pois Medicina têm a “fama” de ter alunos bastante competitivos. Esse espírito de competição não corresponde em nada ao que senti, desde início, em Santana. Somos bastante unidos e o companheirismo é transversal aos alunos dos mais diversos anos.

M. F.: Pela positiva, penso que todo o companheirismo dos meus colegas de curso, do meu ano e de todos os outros. Assim que cheguei, foram eles que me integraram no ambiente de faculdade e me forneceram todo o material de anos anteriores. Os alunos de segundo ano criaram inclusive uma pasta com todos os documentos, resumos e livros que tinham utilizado para estudar no nosso ano. Pela negativa, penso que o desinteresse dos professores para connosco. Pensei que por estarmos realmente a seguir o curso que nos vai levar a um emprego, que nos vai levar a ter utilidade na sociedade, as aulas seriam mais enriquecedoras e os professores mais preocupados. Mas na realidade, o meu curso baseia-se muito (e na minha opinião, demasiado), na autoaprendizagem. Isso desiludiu-me um pouco.

 

M.: Como tem sido a experiência de estudar nesse curso? O que é que te marcou mais?

G. M.: Concluído agora o primeiro ano do curso, posso afirmar que a minha experiência do curso tem sido marcada por emoções fortes e contrastantes. A carga de trabalho é realmente grande e por vezes é complicado gerir o tempo convenientemente, o que acompanhado pelo medo de falhar gera sentimentos muito negativos relativos ao curso. No entanto, a realização de se estudar aquilo que se gosta e a consciência de que o esforço é recompensado, tornam a experiência de estudar medicina muito mais leve.

I. H.: A minha experiência universitária tem sido fantástica. Em termos curriculares, existem sempre cadeiras que gostamos mais e outras menos, mas de um modo geral correspondem às expectativas que tinha. O que me marcou mais neste 1° ano foi, sem dúvida, a praxe.

M. F.: Não consigo definir algo que me tenha marcado especificamente, penso que a faculdade tem sido um conjunto de surpresas num todo.

 

M.: Como descreverias a tua adaptação ao ensino superior? Quais foram os teus principais desafios?

G. M.: A adaptação ao ensino superior, no meu caso foi acompanhada da adaptação a uma cidade nova, a um microssistema contextual novo, à independência de viver sozinho pelo que foi um desafio muito grande. Por um lado tive que me adaptar a gerir o tempo de uma maneira melhor de modo a conseguir dar conta da carga de trabalho a que fui sujeito. Por outro lado tive que me adaptar a uma faculdade nova, com pessoas novas e com um modus operandi diferente daquilo a que estava habituado. Se por um lado a adaptação ao ensino superior foi um desafio, também foi um impulso para crescer psicologicamente e socialmente, tendo sido um processo muito recompensador.

I. H.: Senti-me, desde logo, muito bem acolhida na minha faculdade, o que foi fundamental para que os primeiros tempos corressem bem. Os meus colegas mais velhos foram incansáveis e ajudaram-nos com tudo, o que tornou a adaptação bem mais fácil.

M. F.: Penso que o maior desafio foi acompanhar o ritmo de aprendizagem. Quando se passa do 3º ciclo para a secundário, sente-se um aumento de pressão, quer pelo facto de estarmos a criar a nossa média para a faculdade, quer pelo facto das disciplinas serem mais exigentes. Mas quando entramos na faculdade, a quantidade de matéria aumenta exponencialmente e é preciso acompanhar o ritmo. Mas penso que consegui lidar bem com isso.

 

M.: Achas que o teu curso te prepara para o exercício da profissão, isto é, que adquires as principais competências que um profissional dessa área deve ter?

G. M.: É difícil responder a esta questão neste momento. De facto, considero que estou ainda num estádio demasiado precoce da minha formação para poder tecer considerações relativas à adequação do curso à vida profissional. No entanto, são vários os estudos realizados no âmbito da educação médica que fundamentam a organização do curso pelo que será de esperar que este transmita as principais competências que permitirão a um mestre em medicina ingressar no internato de modo a tornar-se um médico.

I. H.: Sim, penso que o meu curso está bem estruturado para nos fornecer as competências necessárias para exercer. O curso de Medicina também funciona de forma um pouco diferente, pois, depois de terminar o curso, temos de realizar a prova nacional de seriação (PNS) para podermos concorrer a uma vaga para uma especialidade e aí sim (na especialidade) começamos a ganhar autonomia.

M. F.: Penso que sim, principalmente a parte dos estágios. O primeiro ano é apenas uma introdução aquilo que é a Medicina. Acredito que nos próximos anos, e com a proximidade com os doentes, o curso me irá preparar para a profissão que irei exercer.

 

M.: Consideras o teu curso difícil? Porquê?

G. M.: O grau de dificuldade do curso de medicina reside na dedicação que ele exige e não no desafio que este representa às capacidades lógicas. De facto, como já referi o curso de medicina assenta demasiado na memorização de conhecimento factual e conceptual pelo que o número de horas de estudo que requer é muito grande.

I. H.: Sim, o curso de Medicina é bastante trabalhoso e exige um grande empenho, em qualquer faculdade.

M. F.: A dificuldade do curso depende de muita coisa. Muitas pessoas pensam que Medicina é difícil devido à quantidade de matéria que temos de estudar, mas eu não concordo. Não digo que seja fácil, mas se for estudado com gosto e dedicação, as coisas resultam. Para mim seria impensável tirar um curso de engenharia ou economia. Todos temos a nossa paixão. Só temos de apostar nela.

 

M.: Quais são as tuas expectativas no que toca à entrada no mercado de trabalho? Que perspectivas tens?

G. M.: Medicina não é o Santo Graal da empregabilidade. É ainda o curso com melhores perspetivas de trabalho na área após a conclusão do curso. Não obstante, a crise económica e o elevado número de licenciados criaram um clima de instabilidade uma vez que os colégios de especialidade deixaram de ter capacidade formativa para todos os alunos que concluem o curso. No entanto, estou confiante no que toca ao futuro uma vez que medicina continua a ser uma área muito procurada quer a nível nacional quer a nível internacional.

I. H.: Mais uma vez, o curso de Medicina funciona de uma forma um pouco diferente. Terminados os 6 anos do MIM (Mestrado Integrado em Medicina), os alunos realizam a PNS e, consoante a nota que obtém, concorrem à especialidade. Atualmente, existe ainda um ano entre o término do MIM e o início da especialidade, o ano comum, onde os internos passam por diversas especialidades. A partir da entrada no ano comum, passamos a ser funcionários públicos e a trabalhar no SNS.

M. F.: EAinda não tenho uma ideia bem formada sobre isso, visto que ainda faltam 5 anos, mais a especialidade para entrar realmente na área que quero. Prefiro não criar expetativas por enquanto pois ainda é demasiado cedo.

 

M.: Pensas em continuar a estudar para um mestrados/doutoramentos ou pós-graduações?

G. M.: Concluído o primeiro ano, ainda não estou em condições de responder a esta questão.

I. H.: Como já disse o curso de Medicina, para além de ser Mestrado Integrado em todas as faculdades, funciona de forma um pouco diferente.

M. F.: O meu curso já é com Mestrado Integrado. Talvez mais para a frente pense num Doutoramento, mas ainda é discutível.

 

M.: Se soubesses o que sabes hoje, candidatavas-te para o mesmo curso novamente? Porque?

G. M.: Sabendo o que sei hoje, ter-me-ia candidatado para medicina na mesma.  Não obstante teria expectativas mais modestas em relação às que tinha pelos motivos que referi acima.

I. H.: Sim! Estava com um pouco de receio pelo que ouvia dizer acerca do curso de Medicina (os famosos rumores: “só se estuda”, “o ambiente é muito competitivo”, “deixas de ter tempo para fazer tudo”, etc…), mas os rumores não se revelaram verdadeiros. Claro que é preciso saber fazer uma boa gestão do tempo e de abdicar de certas coisas, mas penso que esta é uma realidade transversal à maior parte dos cursos, e não exclusiva de Medicina. Portanto sim, voltava a escolher este curso!

M. F.: Sem dúvida, Medicina é o curso que eu quero. Se tivesse entrado em Lisboa talvez não me mudasse para a Covilhã, pois o curso na Nova é igualmente bom. Mas como entrei na Covilhã, e gostei quer do ambiente, quer da faculdade, não considerei a hipótese de fazer transferência.

 

M.: Que recomendações deixas aos candidatos ao ensino superior deste ano?

G. M.: A recomendação que deixaria aos candidatos ao ensino superior deste ano é que não encarem a decisão da escolha do curso como algo definitivo e irreversível uma vez que podem sempre mudar de curso se se aperceberem que este não é o mais adequado. Ainda que seja um conselho óbvio, torna esta decisão muito mais leve.

I. H.: Calma! Não vale a pena stressar o verão inteiro com as colocações… O mais importante é não desmotivar. Existem muitos candidatos que não conseguem entrar na 1ª fase ou no 1° ano em que concorrem, mas existem mais tentativas. Não desistam de Medicina se é mesmo este o vosso sonho! (penso que ainda muita gente não sabe, mas existe 3ª fase, portanto, tentem todas as opções!)

M. F.: Que não se conformem com os primeiros resultados, que tentem a 2ª e 3ª fases, porque muitas vezes vale a pena.

 

M.: O que dizem… as tuas notas?

G. M.: Dizem que o esforço e o sofrimento (bem como o défice de horas de sono adquirido) foram recompensados convenientemente.

I. H.: As minhas notas dizem que mesmo estando em Medicina é possível dormir, ter vida social e estudar! Com uma boa gestão do tempo, tudo é possível!

M. F.: Esta pergunta é complicada. Este ano não tive maus resultados, portanto assumo que dizem que o curso me está a correr bem. Claro que boas notas me deixam motivada, mas mesmo que estivessem um pouco mais baixas, não iria desistir nem duvidar da escolha que fiz.

 

Gonçalo Madureira é aluno da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Inês Hermenegildo da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e Marta Ferreira da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior.