Maria (M.): Fala-nos um pouco do teu curso, em que consiste e quais são as suas saídas profissionais.

Catarina Branquinho (C. B.): Reabilitação Psicomotora é um curso que faz de nós Psicomotricistas, ou seja, a nossa ‘terapia’ é a Psicomotricidade, que é uma técnica não farmacológica e de medicação corporal. No fundo usamos a atividade lúdica, a consciencialização corporal, a atividade intencional e as atividades expressivas para trabalhar que a nível preventivo, quer a nível terapêutico. Estamos essencialmente na vertente da saúde e da educação, com todas as idades, pessoas com desenvolvimento típico ou não.

Filipe Carvalho (F. C.): A licenciatura em Reabilitação Psicomotora permite formar profissionais capazes para a saúde e para a educação, sendo estes profissionais conhecidos como Psicomotricistas. Todo o nosso estudo, para além de nos serem dadas todas as bases científicas sobre a área da medicina, das neurociências e da psicologia, é sobre a Psicomotricidade. Esta “neurociência” tem por base o estudo do ser humano, encarado no seu todo através do corpo em movimento, e as relações com o meio interno e externo. Trocando isto por miúdos, estudámos as funções psíquicas, motoras e emocionais do ser humano atuando num campo multidisciplinar a fim de contribuir para o desenvolvimento do indivíduo e promoção da sua saúde e qualidade vida.

A nível de saídas profissionais assumimos o nosso compromisso junto de vários setores da sociedade como serviços hospitalares nas áreas de pediatria, psiquiatria e pedopsiquiatria, creches, jardins de infância, escolas, lares de acolhimento, centros de dia e apoio social, entre outras.

Maria (M.): O curso de reabilitação psicomotora não consiste apenas na aprendizagem de uma terapia que vai ser usada numa determinada pessoa. A reabilitação psicomotora, ou a psicomotricidade, é uma terapia de mediação corporal que nos permite ajudar o outro quer seja na área da saúde quer na educacional.

A psicomotricidade destina-se a toda a população independentemente se têm oito meses ou oitenta anos. Neste curso aprendemos um pouco de tudo. Aprendemos a brincar e a comunicar com o outro, mas o mais valioso de todos os conhecimentos é a versatilidade com que transformamos uma simples bola no melhor transporte de conhecimentos.



 

M.: O que te levou a escolher o teu curso e que factores tiveste em conta? Foi a tua primeira escolha?

C. B.: Quando escolhi o curso sabia que queria trabalhar com pessoas, tendencialmente na área da saúde, depois passou por perceber onde é que encaixava a minha média. Não foi a minha primeira escolha, devia ter uns cinco cursos diferentes, no fundo foi um acaso feliz.

F. C.: Infelizmente este curso não foi a minha primeira opção. Sempre me vi em Fisioterapia, mas não consegui entrar por 0,5 valores na universidade onde queria. Entretanto no meu boletim de candidatura tinha a opção da licenciatura em Reabilitação Psicomotora, na qual eu entrei. Conheci o curso através das listagens da DGES, que me pareceu muito interessante, e fui procurar o que era. De facto, pareceu-me deveras interessante por aquilo que apresentava ser e pelas saídas profissionais e, assim, decidi concorrer.

M.: Tanto o curso como a faculdade foram a minha primeira e única escolha. Inicialmente, tinha ideia que o mesmo estaria mais próximo da fisioterapia e/ou do desporto adaptado. Agora vejo que está num outro polo. Nunca pensei muito no motivo que o me fez escolher mas sei que a área da saúde sempre puxou um pouco o meu interesse, bem como o brincar, o escutar, o ser presente para alguém.

 

M.: O que é que te surpreendeu pela positiva e pela negativa no curso?

C. B.: Pela positiva o espírito de curso e a proximidade entre toda a gente, é bom ter professores que não têm aquele distanciamento das clássicas aulas de anfiteatro. Pela negativa talvez a confusão de cadeiras do primeiro ano, ainda nada fazia sentido.

F. C.: De certa forma, tudo surpreendeu pela positiva, e até superou as minhas expetativas desde a boa relação que os professores têm com os alunos e a sua disponibilidade demonstrada, a cidade e as pessoas extremamente acolhedoras, o ambiente académico… Aquilo que, de facto, está a surpreender pela negativa são algumas unidades curriculares, mas que não é nada demais em relação aos pontos positivos.

M.: O curso, bem como a faculdade, surpreenderam-me pela positiva ao nível das relações interpessoais, i.e., os professores não são meros professores, são futuros colegas de profissão, são amigos que estão sempre dispostos a ajudar-nos. Os colegas depressa tornam-se amigos e a entreajuda é constante seja entre colegas do mesmo ano ou colegas de outros anos da licenciatura/ mestrado. O curso de reabilitação psicomotora também surpreende pela oferta de estágios que nos disponibiliza quando chegamos ao terceiro ano.

Já nos aspetos negativos, acho que o ponto mais saliente é a componente prática que nos prepara para o mundo exterior. Temos aulas práticas e são muito boas, mas poderíamos ter mais carga horária nesse aspeto, uma vez que a prática faz-nos aprender e melhorar e, só assim, é que nos tornamos os melhores profissionais possíveis.



 

M.: Como tem sido a experiência de estudar nesse curso? O que é que te marcou mais?

C. B.: Maravilhosa, já não conseguia trocar o curso e a faculdade por nada. Como experiência mais marcante, sem dúvida, o ano de estágio: é um crescimento incrível com o maior apoio.

F. C.: A experiência tem sido fantástica! Todo o ambiente na universidade é muito bom e vê-se a união. Como já referi anteriormente, todo o espírito académico é vivido e é contínuo. Mas, sem dúvida, o que marca são as pessoas!

M.: A experiência tem sido incrível. As pessoas é o que mais marca no curso e na faculdade. Na FMH, as paredes chegam a ser uma casa e os colegas de curso ou de instituição começam a ser uma pequena família de amigos que levamos connosco ao longo dos curtos anos de licenciatura.

 

M.: Como descreverias a tua adaptação ao ensino superior? Quais foram os teus principais desafios?

C. B.: O primeiro foi o mais difícil, as rotinas eram todas novas e a maior dificuldade era mesmo essa. Agora, quatro anos depois, já há uma total adaptação

F. C.: Inicialmente tive muito receio, mas depois de ter passado o meu primeiro dia fiquei muito entusiasmado em continuar, e senti que a minha adaptação foi muito rápida. Posso dizer que foi fácil sair de casa e da minha zona de conforto para viver grandes tempos enquanto universitário.

M.: A adaptação não foi fácil mas também não foi críica, foi um desafio. Os desafios de ser um estudante universitário são muitos e, para mim, o maior foi conciliar os prazos das diferentes disciplinas, as diferentes propostas de avaliação, os conteúdos tão diferentes que no primeiro ano não faziam qualquer sentido, foi conhecer-me a mim e conhecer os outros que trabalhavam comigo todos os dias, foi uma aprendizagem constante, trabalhosa e gratificante.

 

M.: Achas que o teu curso te prepara para o exercício da profissão, isto é, que adquires as principais competências que um profissional dessa área deve ter?

C. B.: Sim, principalmente o ano de estágio que não só nos prepara mas como nos faz perceber que há muitas competências que nós temos que procurar autonomamente.

F. C.: Durante o curso, recebemos toda a informação essencial para o nosso exercício profissional, mas torna-se importante chegar a casa e procurar mais informação sobre os vários tópicos e temas que foram falados nesse dia nas aulas e, além do mais, na minha área é importante procurarmos formações e workshops complementares.

M.: No meu ver, o curso incide sobre quase todas as nossas possibilidades de saída profissional embora alguns conteúdos pudessem ser mais explorados. Quanto às competências, o estágio é o verdadeiro complemento e junção dos três anos que nos faz avaliar as nossas fraquezas e as nossas forças, bem como ver quais as competências que têm de ser desenvolvidas no futuro.



 

M.: Consideras o teu curso difícil? Porquê?

C. B.: Difícil não, trabalhoso muito. A profissão em si é mais difícil do que o curso.

F. C.: Não considero que o meu curso seja difícil, mas sim trabalhoso. Apesar de ser uma área recente, todas as bases para se ser um bom profissional são importantes e estudiosas antes de se entender o verdadeiro sentido da Psicomotricidade. Mas com um pouco de vontade tudo se faz num instante e ficamos com tempo para fazermos outras coisas que muito gostamos.

M.: Não creio que o curso seja díficil. O curso é trabalhoso desde o primeiro ao último dia com algumas folgas durante o verão. Esta licenciatura não nos exige que estudemos para uma tonelada de exames, esta licenciatura propõe-nos várias horas de estudo para frequências e outra imensidão de horas para a pesquisa de bilbiografia, a composição de trabalhos, a elabolração de projetos infinitamente criativos.

O curso de reabilitação psicomotora põe à prova os seus alunos e as suas competências, de modo a que no fim tenham dobrado as suas aptidões.

 

M.: Quais são as tuas expectativas no que toca à entrada no mercado de trabalho? Que perspectivas tens?

C. B.: Resposta nada criativa, mas continuar na área.

F. C.: De facto, por ser uma área recente e pouco conhecida, o mercado de trabalho é escasso. É importante ter-se um bom currículo, mas, acima de tudo, o importante é ser-se um bom profissional que esteja preparado para enfrentar qualquer tipo de situação.

A minha perspetiva é exercer a minha atividade profissional num serviço hospitalar, num lar de idosos ou em meio aquático. São as vertentes que mais me chamam à atenção e nas quais eu sinto-me mais capaz para fazer um bom e rigoroso exercício profissional.

M.: As minhas expectativas ainda se baseiam na perceção do grupo populacional que mais se enquadra comigo. Contudo, vejo que o mercado de trabalho é uma realidade assustadora porque o curso ainda é pouco conhecido e cabe a nós, futuros licenciados, dar a conhecer o nosso mundo psicomotor e o valor que ele tem.

Acho que a entrada no mercado de trabalho vai ser uma luta, mas não vou desistir na primeira queda que a vida me apresente.

 

M.: Pensas em continuar a estudar para um mestrados/doutoramentos ou pós-graduações?

C. B.: Logo depois da licenciatura continuei para o mestrado.

F. C.: Sim. Neste momento a expetativa é entrar em Mestrado e, se tiver oportunidade, prosseguir para Doutoramento.

M.: Gostava muito de prosseguir os estudos. Acho que não devemos ficar por uma licenciatura mas também não quero tirar um mestrado em reabilitação psicomotora. Quero divergir, i.e., quero especializar-me no ensino especial ou noutro ramo. Acho que à há uma diversidade tão grande, porquê seguir os caminhos dos outros?!



 

M.: Se soubesses o que sabes hoje, candidatavas-te para o mesmo curso novamente? Porque?

C. B.: Colocava o meu curso em primeiro opção, sem dúvida. Porque descobri que adoro isto e que, hoje, não me via em nenhuma das outras opções.

F. C.: Sim! Apenas teria colocado Reabilitação Psicomotora como primeira opção. Sem dúvida é aquilo que eu sinto-me bem a fazer e é a área na qual eu tenho mesmo vontade de investir o meu tempo e fazer aquilo que gosto.

M.: Sem qualquer dúvida! Aprendi imenso desde que entrei na faculdade, compreendi umas outras tantas situações com pessoas no meu passado e o porquê de tais situações se terem desenrolado de uma determinada maneira. Aprendi que o conhecimento não está apenas nos livros, mas na forma como nós lemos o livro. Em suma, a psicomotricidade fez-me evoluir enquanto pessoa.

 

M.: Que recomendações deixas aos futuros candidatos ao ensino superior?

C. B.: Façam tudo, o curso, as formações complementares, vão a todas as atividades, conheçam as pessoas. Vale tudo muito a pena! 

F. C.: É importante pensar com clarividência e terem a noção do grande passo que estão a dar. Façam aquilo que gostam e escolham o curso que vos irá dar mais prazer. Afastem as pressões da sociedade que “têm que tirar um curso que tenham logo trabalho e que ganhem muito dinheiro”, irão perceber ao fim de algum tempo que não é isso que vos irá dar a plena felicidade. Pensem com a cabeça mas também com o coração.

M.: Aos candidatos… Aos futuros psicomotricistas! Recomendo que aproveitem tudo! Aproveitem os vossos colegas, os vossos professores, as aulas, os workshops. Aproveitem quem e o que está à vossa volta. Na psicomotricidade, tudo é um recurso para o sucesso e o único senão é o nosso ponto de vista.

 

M.: O que dizem… as tuas notas?

C. B.: Neste curso, nada.

F. C.: Penso que as minhas notas dizem que sou um aluno esforçado e dedicado. Dou o meu máximo sempre no mínimo que faço, como recomenda Fernando Pessoa, e estou a viver a melhor experiência da minha vida. Estou completamente satisfeito!

M.: As notas não definem o valor do profissional.

 

Catarina Branquinho e a Maria são alunas da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, e o Filipe Carvalho da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.