Uma retrospetiva universitária é muito mais do que isso, é a interpretação dos melhores anos da tua vida, aqueles que se constituíram como um pilar dos teus ideais. Tudo começa com um enorme medo do começo, do desconhecido, da construção da nova reputação e um percurso de estudo mais sério e direcionado para o nosso futuro. É realmente assustadora a fase antes da mudança e todo o percurso durante o primeiro ano, porque existem desafios todos os dias, desde o novo professor que veio dar x aulas e se esse professor dá slides ou a que horas costuma colocar as fotocópias na papelaria, desde aquela cara nova pela faculdade ou o trabalhador estudante que resolveu aparecer na aula, desde as festas académicas de toda a ordem e feitio às praxes marcadas à última da hora, desde as personalidades dos colegas de casa àquelas noites em que todo o prédio está em festa e não nos deixa dormir, desde as saudades de casa ao medo da solidão. E no meio disto tudo ainda temos o maior dos nossos problemas e aquilo que é mais importante saber dominar e domesticar: o nosso psicológico. No meio de toda a azáfama o maior desafio está dentro de nós próprios, está em controlarmos a nossa mente, em mantermo-nos fiéis aos nossos princípios, saber dizer que não quando o nosso instinto assim o disser, controlar os ânimos e o entusiasmo face a festas e pessoas porque ambas são igualmente voláteis e tanto uma festa na véspera de uma avaliação não é o melhor a fazer, como amizades para a vida são apenas uma minoria, é importante saber receber as más energias com um abraço e conseguir emitir boas energias, retirar sempre um ensinamento construtivo de tudo, mesmo daquela praxe em que chorámos ou daquele almoço em que ficamos sozinhos numa mesa da cantina, porque afinal nada disso é relevante ao lado do nosso crescimento pessoal. Mas lembremo-nos que acolher esse conhecimento não é apenas absorver o que nos rodeia, temos também de fazer parte dessa história e intervir, temos de agir! Devemos puxar pela nossa vertente social, ainda que não seja muito aguçada, porque a verdade é que ser sociável não é darmo-nos com todo o tipo de gente, isso é ser moldável, podemos encontrar pessoas semelhantes a nós ou que nos façam criar uma zona de conforto em torno delas e confiar nelas, criar laços fortes e deixar soltar a pessoa extrovertida que mora dentro de nós, isso é ser sociável, mas é ainda mais do que isso, é saber viver. Lembremo-nos que se alguém nos vira costas mesmo sem nos conhecer o erro está nessa pessoa e não em nós e se por um lado devemos entender que uma pessoa não se resume aos seus erros por outro devemos saber que perante erros alheios a melhor resposta está na nossa não reação, porque agir com indiferença é efetivamente o primeiro passo para termos também o sentimento de indiferença. Falo de sociabilidade porque ela é a chave para quase tudo, para que assentes amizades, que troques apontamentos, que te desenrasques numa rua desconhecida, que te safes numa apresentação oral, que consigas perguntar na aula todas aquelas dúvidas que te inquietam e, claro, para que na reta final tenhas um bom estofo para apresentares a tua tese. Mesmo que não se trate de sociabilidade propriamente dita, então falemos de descontração em público, de um bom manejo verbal. Questionarmo-nos sobre coisas simples é fundamental, sobre se estás a gostar da nova etapa, se houvesse uma nova candidatura se escolherias o mesmo rumo, se confiarias um segredo teu a algum amigo de faculdade, se passasses um fim de semana na tua cidade se te causaria algum tipo de pânico, se mudarias alguma coisa caso tivesses esse poder, tudo questões que te oferecem respostas que te fazem perceber se estás feliz ou se estás a caminhar na direção certa. Falar com os pais sobre isso é das melhores formas de o fazer, mas aprende também a fazê-lo sozinho. Com a mente resolvida é bem mais fácil encarar o resto. Por outro lado, é claro que o facto do ano letivo ser dividido por semestres, e existir a constante troca de professores, conteúdos e dinâmicas, implanta-nos um ritmo alucinante de stress e responsabilidade. Até poderia dizer que estudando aquilo de que se gosta tudo se torna mais fácil, mas não creio que seja verdade, porque a rotina, o empenho e a independência que é exigida de nós rema com mais força e adquire mais destaque do que o nosso gosto pelo curso. Até porque estar na universidade não é apenas e somente um canudo, é experiência de vida, onde todo o meio envolvente nos direciona para um sonho que nos leva ao auto-conhecimento. A verdade é que estamos numa cidade nova e o edifício da faculdade provavelmente será aquele que menos pisamos e todo o pormenor, por mais pequeno que seja, irá fazer parte de ti e da tua caminhada. A universidade é, acima de tudo, uma jornada desafiante que te é oferecida para que conheças o valor da vida. E mais uma vez sublinho que esta jornada faz mais sentido quando cuidares do teu psicológico e aprenderes a ter uma mente livre, curiosa, mas sempre focada no objetivo. E é em torno de tudo isto que os anos vão passando, como uma jangada lenta mas que rapidamente chega à margem da ilha mais próxima. Tudo termina com um enorme medo do fim, do desconhecido, da construção da nova reputação e um percurso de vida ainda mais sério e de portas abertas para o nosso futuro. A nostalgia e o peso dos anos é tremenda! Não importa a idade ou a vontade em ser-se independente monetariamente, no momento da despedida só importa a saudade e quase todos voltariam a repetir cada segundo da sua vida académica. É por essa saudade antecipada que eu e muitos estudantes navegam, ao pensar que falta tão pouco, e queremos acolher essa saudade como nossa, porque sentir saudade é sentirmo-nos mais próximos daquilo que foram os melhores anos da nossa vida. Recordar é admitir que algo aconteceu e nos fez felizes.