Dia 3 de Junho. Terminaram as caminhadas matinais para o liceu, a diária convivência com os senhores professores e a espera incessante pelos pequenos intervalos ao longo do dia. O que havia para aprender de novo, (supostamente) está aprendido. Chegou a altura de o senhor ministro nos testar.

O ultimo dia de aulas para os estudantes que realizam exames é sempre antecipado. É a forma que o sistema arranjou de nos dizer: “Já tens dezoito anos, vamos lá começar a estudar sozinho!”. E por esse motivo, a semana que antecede a “época das festas” é-nos oferecida para que possamos rever toda a matéria, isoladamente, sem docentes, no conforto do nosso lar.

O primeiro dia é dedicado à programação e ao planeamento. É o dia em que, olhando para as informações de exame e dando uma vista de olhos nos livros, tomamos consciência da pesada e infindável quantidade de conteúdos que temos de dominar para possivelmente serem testados no dia D. Eis que somos, subitamente, abatidos por um primário desespero: eu costumo, contudo, classifica-lo como um “mini-desespero”, visto que se manifesta com pequena intensidade (ou seja, sem provocar grandes choros ou depressões).



Tem calma, a gente consegue fazer isto. E lá se esmorece aquela primeira impressão aterrorizadora. De seguida, planeamos o nosso estudo até ao mais ínfimo pormenor: tópico por tópico, exercício por exercício, das horas x às horas y, intervalos de cinco ou dez minutos para comer um chocolatinho. Naquela altura, estamos tão inspirados que, numa semana, prevemos fazer cinco exames de cada disciplina. Cinco! Por este andar, o vinte está no papo.

Plano elaborado, livros de apoio comprados, apontamentos organizados, vamos dar inicio à jornada. Estamos nos primórdios da época de estudos, e os prognósticos parecem positivos. Se cumprirmos o plano à risca, o exame vai ser “pinners”, como diz o Jorge Jesus.

É quando toca o telefone. Aquele sacana que, segundo as regras estabelecidas no programa de estudos, deveria estar desligado ou em silêncio, mas em vez disso nos alerta para a necessidade de alguém comunicar connosco. Tenho que atender, é má educação não o fazer. Constato que se trata de um convite para ir surfar. Ao que parece, está ganda tempo e estão altas ondas… Não! Hoje está estabelecido que é dia de rever as sínteses sobre Os Maias! Não falhemos ao plano logo no primeiro dia, caramba!

Vinte minutos depois estava dentro de água. Mas calma, está tudo sob controlo: amanhã, em vez de dedicar só meia hora a Português, encaixo também os intervalos. Assim não me atraso nas revisões. Rumo ao 18.

Chegamos a meio da semana, e só com muita bondade é que se pode dizer que o balanço do estudo é positivo. De três, fiz dois exames que tinha planeado, ainda que não os tenha feito até ao fim (vistas bem as coisas, talvez não seja preciso estar a fazer todos os grupos III dos exames de Português). Mas, apesar de algumas falhas, penso que ainda me mantenho, mais ou menos, na linha que tracei para o estudo. Há que melhorar alguns aspetos, porém, não sejamos pessimistas: os bons alunos não se querem marrões.

Pensava eu, mas a verdade é que, no final da semana, o plano de estudos já tinha ido à vida. Revisões da matéria, fi-las quase todas, ainda que sem os métodos rigorosos que havia planeado; exercícios práticos, esses é que me davam cabo da cabeça! Cada vez que me preparava para ler um enunciado, algo ou alguém, algures no mundo, chamava pela minha atenção; e eu, fraco e preguiçoso, distraia-me. E como estando distraídos não somos produtivos, acabava sempre por largar o exercício.

Entretanto, aproxima-se o dia do primeiro exame: Português. Estamos no que é equivalente ao minuto oitenta num jogo de futebol. Eu sinto-me a perder um a zero. Lá vem uma nova onda de desespero, porventura, mais intensa do que a anterior. Não estudei nada! E sair isto? E sair aquilo? Estou tramado… com f.

Se estivéssemos num jogo de futsal, estava na altura de colocar o guarda-redes avançado. Porque ainda há esperança de ganhar!

Com pouco tempo para programar uma nova era nos estudos, está na altura de aplicar planos de emergência. E esses consistem em reforços psicológicos:

O pessoal mais velho que eu conheço, de certeza, que estudou tanto ou menos que eu, e tiraram notas razoavelmente boas;

O exame de português é aquele exame que não se estuda na véspera, portanto, o que havia para estudar, eu já o fiz;

Eu tirei sempre boa nota nos testes, este é mais um;

E se não gostar da nota, há sempre a segunda fase…

Vamos lá, rumo ao 14!

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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