Caloiro,

Em primeiro lugar, parabéns. Principalmente por estares a tomar decisões de uma importância extrema apesar de há uns meses teres de pedir para ir à casa de banho na escola. Tiveste a coragem de escolher algo para o teu futuro independentemente das condições familiares, escolares e financeiras que te poderiam ter condicionado. Quer vás exercer a profissão para a qual vais começar agora a estudar, acredita que a parte mais difícil está feita. Parabéns, mas o secundário acabou. Agora és universitário.

Acredita em mim quando digo que, se aproveitares este ano da maneira correta, vais ser uma pessoa diferente daqui a uns meses. A mudança nem sempre é fácil e logo nas primeiras semanas vais te aperceber do quão difícil é duvidares de ti próprio a cada passo. Será que escolhi o detergente certo para a roupa? Posso pôr este prato no micro-ondas? Uso cadernos ou um dossier? Será que me vou integrar? Será que escolhi bem o curso? Será que escolhi bem a cidade? E cada vez que algo menos positivo acontecer esses medos vão parecer avassaladores.



De certa maneira voltamos a ser aquela criança à porta da escola primária que não quer de todo largar a mão dos pais. Os barulhos já não são os dos teus vizinhos, nada te é familiar e garanto-te que a certa altura vais querer mandar as malas cheias de tupperwares para o chão da calçada e chorar muito. És universitário e estás sozinho.

Por favor lembra-te que as dificuldades são inevitáveis e que estás no período de adaptação. Liga para casa, para os teus amigos, diz que tens saudades e que parece que nunca vais parar de te sentir assustado. E permite-te retroceder se de facto não estiveres satisfeito, tem novamente a audácia de procurar uma opção de vida que te faça genuinamente feliz. Mas não desistas ainda, dá-lhe mais umas semanas.

Vamos ser honestos, a faculdade nada tem que ver com o ensino secundário, e ainda bem. Nada é preto e branco e normalmente permitem-te sempre explorar todos os tons de cinzento e mais alguns. Aprendes a informação existente e tens a oportunidade de integrá-la nos teus conhecimentos e argumentar quando sentes que não está inteiramente correta. E, respeitosamente, tem sempre o atrevimento de duvidar, de questionar e de formar as tuas opiniões. É algo que determina bastante o tipo de profissional e, mais importante, o tipo de pessoa que te tornas.

Dentro de pouco tempo vais-te sentir em casa nos sítios onde estavas constantemente perdido. Vais ter orgulho em guiar quem te visita por uma cidade que se tornou tão tua como a que onde vivias há uns meses. Passas a conhecer os ambientes, as rotinas da tua faculdade, qual é o sítio que tem o melhor café, onde as fotocopias são mais baratas, onde és mais produtivo a estudar e qual é o método que resulta, agora que tudo o que sabias sobre o ensino mudou.

No entanto, vamos ser também sinceros sobre a parte social. Não esperes uma diferença abismal entre as mentalidades dos teus anteriores colegas e os atuais. Mantem em mente que tanto podes encontrar pessoas recetivas e compatíveis com o teu tipo de personalidade, como podes te deparar com as situações que te faziam sentir desconfortável no secundário. A parte boa da faculdade é que tens muito mais pessoas com as quais te podes e deves relacionar para, algures no teu percurso, estabeleceres ligações com quem te inspira a seres a melhor versão de ti mesmo possível.

Vais conhecer pessoas de todos os pontos do país que têm narrativas completamente diferentes da tua, mas estão contigo. A seu tempo vão apoiar-te quando o chão desabar, em cada decisão, em cada projeto, em cada amor, em cada resultado. Entendem mais do que tudo a falta que faz a comida e a cama de casa, que nunca deixa de ser o sítio onde te sentes seguro e como se nada te pudesse atingir. Mas vais-te sentir invencível doutras maneiras, faz parte.

Vai às aulas, aproveita para perceberes a matéria na hora. Eu sei que a tendência é desorientarmo-nos com isto das presenças não obrigatórias, ainda que varie de faculdade para faculdade, mas um dos meus maiores arrependimentos do primeiro ano foi ter confiado demasiado no meu estudo autónomo. Podes e deves consolidar sozinho a matéria da maneira que para ti melhor resulta, mas não desvalorizes o estar presente quando os assuntos são apresentados pelo docente. Perde um bocadinho das férias que ainda restam, dá uma vista de olhos nos planos curriculares das cadeiras e percebe se vais precisar de material de leitura noutras línguas que não o português. Ainda não é tarde para começares o ano preparado.

Respeita o teu cérebro, encontra uma maneira de estudar consoante o teu horário produtivo, estabelece grupos de trabalho que te complementem e não te sintas culpado se não coincidirem com o teu grupo de amigos. Faz perguntas pertinentes porque vais gostar de te tornar interessado nos assuntos que um dia precisas no mercado de trabalho, participa nas discussões, estrutura os teus argumentos e baseia-os.

Forma a tua posição própria e livre sobre a praxe. Não posso falar por todos os tipos de praxe dado que alguns tipos de “integração” são só abusivos e desnecessários. Mas experimenta, tenta entender a praxe do teu curso ou faculdade, procura porque é que existe nos moldes atuais, porque é que trajamos, porque é que praxamos. Não descartes os teus limites físicos e psicológicos, mas sai da tua zona de conforto.

Por experiência própria, a praxe é muito mais do que alunos com mais matrículas a massajar os egos, cantar músicas brejeiras e chegar a casa todo sujo. O traje que hoje usamos com orgulho sofreu evolução, há uma tradição por trás que foi gradualmente transformada. Aos trajados doem as costas, os braços, a cabeça, a garganta. Têm frio e calor no mesmo dia, não sentem um dedo ou dois, carregam coisas o dia todo, planeiam tudo até ao mais ínfimo detalhe. Valoriza esse esforço porque é só por vocês caloiros. Consoante o formato de praxe em que participaste e se te fizer sentido, a seu tempo simboliza esse esforço tão incompreendido por muitos com o traje.

A maioria das pessoas olha para um trajado com receio, associa imediatamente aos erros cometidos por pessoas que não se podem considerar praxantes e aumentados exponencialmente pelos media. Eu olho e vejo os colegas que gritaram e sentiram comigo, vejo os meus padrinhos e outros tantos que me inspiraram a dar sempre mais de mim, vejo cada momento em praxe, cada sorriso, cada lágrima, cada sacrifício. Podes experienciar tudo isso sem a praxe? Não sei. Digo-te apenas que os meus amigos são os mesmos que foram praxados comigo, que me conhecem e me apoiaram. As saudades que tenho, tantas ou mais do que as que tive no início, são agora da minha vida em Lisboa. A praxe deu-me isso e muito mais.

Tem a coragem de aparecer na tuna ou nas atividades que são menos populares porque vais encontrar pessoas com os teus interesses e com as quais vais formar laços. Faz desporto para rebater toda a massa com atum. Participa nas associações da tua faculdade e nas federações estudantis, informa-te dos teus direitos e do impacto que podes ter. Experimenta fazer voluntariado, vai de Erasmus, vê realidades diferentes da tua e ganha vivências, histórias para contar.

Sim, às vezes dormes pouco para ainda conseguires chegar áquele café com os amigos. Sim, às vezes comes discretamente um almoço improvisado no meio da aula para cumprires horários. Sim, as 24 horas de antes nunca te vão parecer suficientes. Vale tudo a pena. Não te esqueças que o teu objetivo é sair licenciado, mestre ou doutor, mas acredita que se torna quase inútil se o auditório estiver completamente silencioso e fores exatamente a mesma pessoa que és agora. O papel na parede vai saber a pouco.

És universitário, e o que mais quiseres. Digo-te já que agora fazes parte de uma raça dura. Estamos longe de tudo o que antes conhecíamos e temos de nos adaptar já, para ontem quase, passar às cadeiras e pensar no futuro, equilibrar as nossas relações interpessoais e objetivos de carreira e, se tivermos cinco minutos extra, tentar respirar no processo. Atreve-te a sair da tua bolha segura, conhece pessoas, expande o que sabes sobre o mundo e deixa o mundo saber coisas sobre ti. Vai, e bem-vindo. Vais ficar bem, palavra de quem sobreviveu.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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