Segundo Goffman (1963/2004), o estigma “é um atributo profundamente oneroso cujo portador é reduzido, nas nossas mentes, de uma pessoa completa e normal para uma pessoa maculada e inferior”. É com base no estigma que “exercemos várias formas de discriminação, redutoras das (…) oportunidades de vida” de quem sofre este estigma – como indivíduos diagnosticados com alguma perturbação mental.

O fenómeno de perturbação mental é complexo, havendo diversas definições, e envolve não só perdas de oportunidades, como também um forte impacto na autoestima, autoconceito, qualidade de vida, suporte social e empowerment da pessoa humana (Xavier et al., 2013). Em Portugal, as perturbações mentais afetam mais de um quinto de toda a população, com uma acentuada prevalência das perturbações de ansiedade e depressivas, aliadas a um elevado consumo de psicofármacos. Para além disso, a crise económica que se faz sentir (e.g., na taxa de desemprego, incluindo o desemprego de longa duração e o desemprego jovem) contribui para um aumento de sintomas de ansiedade e depressão.



Na população portuguesa, encontram-se ainda algumas crenças erróneas acerca das perturbações mentais – nomeadamente no que diz respeito à incurabilidade e perigosidade dos indivíduos que delas padeçem. Permanece enraizado um estereótipo que conceptualiza o doente mental como incapaz de reestabelecer a sua saúde e tornar-se novamente funcional, sendo visto com um negativismo determinista que se aproxima da discriminação (Corrigan & Bink, 2016). Este estigma estará associado à dificuldade na integração destas pessoas na comunidade, salientando a importância de medidas que a) atuem diretamente na psicoeducação acerca da saúde mental e das perturbações mentais, b) denunciem práticas discriminativas, e c) promovam o contacto entre o indivíduo com perturbação mental e a sua comunidade.

Por todas estas razões, cabe aos profissionais da área da saúde combater este preconceito existente, sensibilizando a população para a importância dos cuidados face à saúde mental como fundamentais para um bem-estar geral (Corrigan & Bink, 2016), e persistindo na educação dos seus pacientes, das respetivas famílias e/ou outros significativos (Oliveira & Azevedo, 2014). A campanha “Mind the Mind” pretende atuar a este nível, indo ao encontro dos principais objetivos do programa de saúde prioritário proposto pela Direção-Geral de Saúde, no que concerne a “Dinamizar a participação dos utentes e dos cuidadores na reabilitação e integração social das pessoas que sofrem de problemas mentais graves”.

Mas em que consiste, então, esta campanha?

A campanha “Mind the Mind” – Portugal junta-se a outras campanhas ímpares da Federação Europeia de Associações de Estudantes de Psicologia (EFPSA) na União Europeia, tendo como objetivos a desmistificação das doenças mentais, e a redução de crenças negativas e do preconceito associado às doenças mentais. Esta campanha destina-se maioritariamente a estudantes do ensino básico e secundário (dos 11 aos 18 anos), mas também à população em geral (empresas, por exemplo) que se interesse por esta temática.

A campanha irá decorrer em escolas e, potencialmente, noutros locais ao longo do anoletivo 2017/2018. Para isso, contará com a ajuda preciosa de voluntários de todo o país que irão dinamizar workshops psicoeducativos em torno da temática das perturbações mentais, definindo-as e abordando o estigma a elas associado.

Com a dinamização destas sessões, pretende-se contribuir para uma população mais informada, desperta para a saúde mental, e disponível para a integração de indivíduos que sofrem de alguma perturbação mental. Esperamos empoderar a comunidade, dotando a população de ferramentas que lhes permitam integrar estes indivíduos.

Equipa portuguesa da campanha Mind the Mind (Social Impact Initiative | EFPSA):

  • Local Coordinator: Inês Duarte (Lisboa).
  • (Co) Local Coordinators: André Camponês (Lisboa), Daniela Aleixo (Lisboa), Laura Ferreira (Faro), Mafalda Melo (Castelo Branco) e Rita Oliveira (Porto).