Degradação do edifício levou alunos da Escola Superior de Dança a convocar greve para hoje. A secretária de Estado com a tutela também não gostou do que viu.

Um espaço para aquecimento e treino numa espécie de garagem com paredes húmidas e a cair; um estúdio para aulas em que um balde e toalhas amparam a chuva, cortinas a servir de portas na casa de banho, um refeitório com os micro-ondas num canto insalubre, teto a desfazer-se, salas com rachas e humidade. Falamos da Escola Superior de Dança, em Lisboa, em que “as condições básicas de segurança e higiene não estão asseguradas”, protestam os alunos. Hoje fizeram para exigir condições.

“Pedaços de teto caem frequentemente, há constantes inundações, ratos e baratas (inclusive nos locais de refeição); nos estúdios de dança não há regulação da temperatura ambiente, as janelas não fecham e o sistema de aquecimento está avariado, existem fungos que afetam a respiração e a limpeza não é devidamente realizada; o quadro elétrico do átrio-sala corre o risco de ter uma explosão”, denunciam ao Diário de Notícias.

A degradação das instalações impressionam, sobretudo em dia de chuva como foi o da passada sexta-feira. É este o cenário nesta antiga fábrica, na Rua da Academia das Ciências (Lisboa), que foi convertida em 1995 num estabelecimento de ensino superior, com a redefinição do estudo artístico do Conservatório Nacional. A Escola Superior de Teatro e Cinema passou a funcionar em novas instalações na Amadora e a Escola Superior de Música no Instituto Politécnico de Lisboa (IPL), em Benfica, onde existe um terreno para a Escola Superior de Dança (ESD), mas o edifício não está iniciado. “A última greve foi em 2008, o que tem existido são remendos e o que pretendemos é resolver os problemas atuais, há uma altura em que o remendo vai explodir e pode ser a qualquer momento”, protesta Beatriz Dias, da direção da Associação de Estudantes da ESD.

E explodiu para os alunos no final do primeiro período quando foi anulado o espetáculo com os seus trabalho por problemas elétricos.

A Associação de Estudantes da ESD e a Federação Académica de Lisboa protestaram junto da tutela: o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. E, sexta-feira, a secretária de Estado Fernanda Rollo visitou as instalações, no mesmo dia em que foi convocada a greve: “Estava lá quando recebi no telemóvel a convocatória. Soube pelos estudantes que as condições não eram as adequadas e quis ver o que se passava, não conhecia a escola.”

A secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior também não gostou do que viu. “Aquilo a que assisti suscita a nossa atenção, como não podia deixar de ser. É da nossa responsabilidade, com o IPL, que é uma instituição autónoma, encontrar respostas. Foi esse o compromisso que tive do presidente do IPL. Conversámos com os estudantes e comprometemo-nos a fazer uma rápida avaliação para se encontrar uma solução que esteja ao nível do que deve ser a qualidade de ensino de uma escola desta natureza. A formação em dança do IPL é uma referência”, promete Fernanda Rollo, elogiando o empenho dos alunos.

O Instituto Politécnico de Lisboa (IPL) desmentiu hoje o Governo, afirmando que em 2017 pediu autorizações para avançar com a construção do novo edifício da Escola Superior de Dança (ESD), incluindo à Secretaria Geral de Educação e Ciência.

“Em junho de 2017, foi apresentado ao gabinete do secretário de Estado do Tesouro, um pedido no sentido de isentar o IPL em 50% da receita, de modo a poder avançar com a construção do novo edifício. Esta intenção foi comunicada, de igual modo, à secretaria Geral da Educação e Ciência, que, entretanto, solicitou autorização da venda do atual edifício da ESD ao Conselho Geral do IPL. A decisão do Conselho Geral de autorizar a venda do imóvel foi comunicada à Secretaria Geral da Educação e Ciência, estando a aguardar resposta”, lê-se num esclarecimento do IPL hoje enviado ao Uniarea.

A nota do IPL acrescenta ainda que “nesta data está em curso o processo de avaliação do edifício da ESD, por parte da Direção Geral do Tesouro e Finanças, para efeitos da sua futura alienação”.

O esclarecimento do IPL surge na sequência de declarações do gabinete da secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Fernanda Rollo, que pediu ao presidente do IPL uma “solução urgente” para a ESD e afirmou que desde que o Governo tomou posse nunca chegou ao gabinete da secretária de Estado “nenhum pedido do IPL sobre o assunto das instalações desta escola”.

Em declarações à Lusa, a presidente da direção da ESD, Vanda Nascimento, disse hoje que a solução para os problemas da ESD “está nas mãos do Governo”, a quem cabe autorizar a venda do edifício que permitiria transferir a escola para um novo espaço a construir de raiz nos terrenos do Campus de Benfica.

A direção da Escola Superior de Dança diz que é desejo do IPL vender o degradado edifício no Bairro Alto, onde funciona a escola, e com esse dinheiro construir um novo espaço no Campus de Benfica.

“Existe terreno disponível no Campus de Benfica do IPL para a construção do novo edifício da ESD. O calendário da obra depende das autorizações governamentais referentes à execução da mesma. O Politécnico de Lisboa está a preparar o lançamento do concurso de arquitetura do futuro edifício destinado à ESD”, explica a nota do IPL.

O IPL conclui a nota afirmando que “entende as exigências dos alunos da ESD” e “reafirma o seu compromisso de continuar a desenvolver todas as diligências ao seu alcance junto das entidades competentes para encontrar a solução por todos desejada”.

A ESD conta atualmente com quase 200 alunos, entre estudantes de licenciatura e de mestrado.