Área da Investigação

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6 Maio 2018
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Percebo o que estás a dizer, mas parece-me (e desculpa se estou a interpretar mal) que estás a pôr um ênfase muito grande na investigação aplicada, com ligações às empresas. Nem toda a gente tem de estar ligado ao mundo empresarial, tal como nem toda a gente tem de estar ligada ao mundo académico. Concordo com o que dizes sobre as questões mais burocráticas e de pressão para publicação do mundo académico, mas a solução não tem de passar necessariamente por direccionar a investigação para as necessidades das empresas. Então e as áreas mais puras de ciência básica ou de matemática pura ou de filosofia e outras humanidades?
Claro que devem existir algumas vagas nessas áreas, até porque geralmente são áreas que até nem têm muita gente e aqueles que enveredam por investigação são grandes mentes e precisamos de continuar a formar professores.
Mas o que temos agora é que a maioria dos projectos de investigação tem 0 de aplicabilidade e ligação a empresas. Portugal não se pode dar ao luxo de gastar recursos escassos SÓ em projectos assim. Temos milhões de € de financiamento europeu que tem de ser investidos em projectos que ajudem a criar emprego: indústrias, startups, etc e que ajudem a dinamizar a região.

Um dos critérios mais usados pela FCT para decidir se financia ou não um grupo de investigação é a sua produção de artigos científicos, para mim o critério principal deveria ser o número de parcerias estabelecidas, por exemplo.

De qualquer dos modos até um projecto de filosofia ou matemática pode ter aplicação prática. Ex: investigar as razões que estão por trás da cultura de corrupção no nosso país e que tanto prejudica o nosso desenvolvimento seria um bom tópico de investigação em filosofia; ou analisar que métodos poderiam ser interessantes para estimular o raciocínio lógico nas crianças e usar os resultados do estudo como base de políticas e reformas educativas. Em matemática, o desenvolvimento de novos modelos preditivos de alterações climáticas, por exemplo. Apenas exemplos.
 

Alfa

E o Ómega
Equipa Uniarea
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2 Agosto 2015
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Curso
Matemática
Instituição
FCUL
Um dos critérios mais usados pela FCT para decidir se financia ou não um grupo de investigação é a sua produção de artigos científicos, para mim o critério principal deveria ser o número de parcerias estabelecidas, por exemplo.
Mais uma vez, então e a Matemática pura, por exemplo? Ou outras das áreas que citei. Pode ser um critério razoável para algumas áreas, mas não para todas. A investigação pura é importante, e não apenas para formar professores, como disseste.



De qualquer dos modos até um projecto de filosofia ou matemática pode ter aplicação prática. Ex: investigar as razões que estão por trás da cultura de corrupção no nosso país e que tanto prejudica o nosso desenvolvimento seria um bom tópico de investigação em filosofia; ou analisar que métodos poderiam ser interessantes para estimular o raciocínio lógico nas crianças e usar os resultados do estudo como base de políticas e reformas educativas. Em matemática, o desenvolvimento de novos modelos preditivos de alterações climáticas, por exemplo.
Ok, mas isso não serve para doutoramentos em áreas de investigação básica/pura. O primeiro exemplo pertence mais à sociologia, o segundo à psicologia/ciências cognitivas e da aprendizagem e o terceiro é de matemática aplicada.

Uma vez mais, é claro que deve haver espaço para estas coisas e elas podem ser feitas em articulação com as empresas. Mas há áreas importantes nas quais este modelo não faz sentido e que têm inclusivamente sofrido com o facto de se ter começado a embarcar nesta ideia de que tem forçosamente de haver, o mais possível, um entrosamento entre a academia e as empresas. Pode haver, mas as áreas em que intrinsecamente não há não são menos importantes ou merecedoras de investimento.
 
Gostos: Alterado
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6 Maio 2018
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Mais uma vez, então e a Matemática pura, por exemplo? Ou outras das áreas que citei. Pode ser um critério razoável para algumas áreas, mas não para todas. A investigação pura é importante, e não apenas para formar professores, como disseste.





Ok, mas isso não serve para doutoramentos em áreas de investigação básica/pura. O primeiro exemplo pertence mais à sociologia, o segundo à psicologia/ciências cognitivas e da aprendizagem e o terceiro é de matemática aplicada.

Uma vez mais, é claro que deve haver espaço para estas coisas e elas podem ser feitas em articulação com as empresas. Mas há áreas importantes nas quais este modelo não faz sentido e que têm inclusivamente sofrido com o facto de se ter começado a embarcar nesta ideia de que tem forçosamente de haver, o mais possível, um entrosamento entre a academia e as empresas. Pode haver, mas as áreas em que intrinsecamente não há não são menos importantes ou merecedoras de investimento.

Mas essas áreas são um pequeno nicho. Não precisas de ter centenas de pessoas a fazer investigação nessas áreas. Algumas vagas chegam.
Temos que ser pragmáticos, Portugal é um país pobre e corrupto (provavelmente se não fossemos tão corruptos com o pouco dinheiro que temos conseguíamos fazer mais mas pronto isso já é outro tópico), incapaz de ter rendimentos próprios e completamente dependente de fundos europeus. A maioria dos projectos de investigação ocorre devido a fundos europeus. Sendo assim, não usar esse dinheiro para investir de forma estratégica e de forma a contribuir para o crescimento do país é pura burrice.

Sem dinheiro não há investigação nenhuma, basta haver mais uma crise para o financiamento da investigação ser cortado. Já, por outro lado, se forem estabelecidas parcerias com empresas privadas isso pode ser uma forma alternativa de financiamento de projectos que aliás é muito comum noutros países que são bem mais fortes em investigação.
 
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29 Junho 2015
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Curso
Ciências Biomédicas
Instituição
Universidade de Aveiro
De facto há uma romantização do mundo da investigação biomédica e química (da investigação de matemática, das línguas e filosofia quase não se houve falar, pois devem ser aquelas áreas onde basta um lápis e papel para "investigar", tal como o Alpha disse). Vemos como aqueles cientistas conseguiram aqueles resultados e teorias fantásticos quase de imediato e julgamos que é um trabalho quase tão criativo e dinâmico como o ato de escrever uma história ou fazer um filme! Na verdade, como já foi dito, a parte criativa está na conceção do estudo, no pensar o que é que está em causa, mas a partir daí entra-se numa jiga joga de monotonia, repetição, frustrações e aborrecimentos, até se chegar ao resultado pretendido, que pode ser tanto como uma gota de água no oceano. Reparo também que a investigação costuma "chamar" mais aos alunos mais tímidos e introvertidos do secundário. Muita gente diz-lhes "tu és caladinho, serias um ótimo cientista", o que constitiu outro mito. Não é de todo um "emprego de tímidos" em que se trabalha sozinho com as próprias regras, é sim algo altamente multidisciplinar, com equipas enormes sempre a comunicar e com muitas apresentações orais. O tempo em que Newton trabalhava totalmente sozinho já acabou.
Mesmo! Esse mito não faz sentido nenhum. A nossa vida é uma discussão constante com n pessoas e quer seja no laboratório ou na indústria andamos sempre em reuniões, apresentações, formações, congressos, etc. Eu próprio tinha essa ideia quando entrei para a universidade e tive de me habituar ao facto que ia ter de falar com pessoas de todo o mundo todos os dias.

Posso ainda acrescentar outra noção, que não passa de uma opinião, se calhar discordarão, mas cá vai: acho que o emprego em investigação biomédica combina mais com pessoas de "cabeça fria", talvez um bocado céticas (à falta de melhor palavra, acho que este não é o melhor termo), no fundo mais "thinking" do que "feeling". Não acho que, pelo menos a básica, seja adequada para pessoas mais sensíveis, que se emocionam facilmente. Isto é uma clara referência aos testes em animais, e a outras coisas que poderão acontecer no seio de uma investigação onde se envolva mais "racionalismo" que "sentimento". Por isso é que acho crucial a regulação ética deste tipo de investigação, pois há sempre um número considerável de cientistas que por vezes se esquece do que é ou não incorreto, só pensando nos resultados. Isto parte do relato de uma médica com quem uma vez conversei, que já observou o trabalho de inúmeros investigadores. Acho que, talvez, a investigação clínica do snarky_puppy já será mais adequada a pessoas mais sensíveis. E claro que esta vertente não se aplica de todo a pessoas como o alfa, que fazem investigação em áreas que são totalmente abstratas e construções humanas, como a matemática, que apenas estão a testar as suas hipóteses abstratas no papel ou computador ou o que seja, sem chatear nem magoar terceiros, pelo que percebi da descrição do alfa xD.
A pré-clínica não é a minha área mas sei que precisas de ter uma certificação específica para experimentares com animais e existem imensas guidelines e regras de experimentação ética para diminuir ao máximo o número de animais necessários e o seu sofrimento, para além de tudo o que fazes a um animal terá de estar planeado, justificado, aprovado e reportado. Na minha área, depende: se trabalhares no hospital terás de lidar com pessoas muitas vezes muito doentes, e terás de aguentar isso como qualquer outro profissional de saúde. Trabalhando fora do hospital o que vemos das pessoas são os seus parâmetros clínicos principalmente, e como não temos interação direta, podemos correr o risco de nos esquecermos que aqueles números são de seres humanos, é muito importante lembrarmo-nos disso regularmente, por uma questão principalmente de respeito para com os outros, mas também para evitar desvios de transparência e ética.
 
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