Vejo muitas testemunhas da praxe a falar do quanto foi bom, do quanto aprenderam, do quão duro foi mas que tanto valeu a pena. Então, para todos aqueles que são anti-praxe sem nunca lá terem estado, aqui está o MEU testemunho.

A partir do momento em que entrei lá percebi que não iria ser nada do que eu estava à espera. Num local onde “se criam amizades para a vida” e “se entende a importância do respeito mútuo”, a primeira coisa que fizeram foi gritar comigo, insultar-me e fazer-me entender que eu estava em baixo e eles – trajados – em cima. Eu era lixo e eles eram grandes. Fizeram-me entender que um dia eu iria estar no lugar deles, a gritar, insultar e rebaixar outros, mas que primeiro teria que me acontecer a mim.



Éramos obrigados a estar lá das 8 da manhã às 5 da tarde mesmo que não houvesse nada para fazer – e 70% do tempo não havia – sendo grande parte desse tempo ocupado com repetições. “Estão-me a ouvir?” “Sim caro doutor!” “De certeza?” “Sim caro doutor!” “Não ouvi bem” “Sim caro doutor!” “Vão fazer o que mando?” “Sim caro doutor!” “Já perceberam quem manda aqui e quem é que é uma merda?” “Sim caro doutor!” “DE CERTEZA?” “Sim caro doutor!” Sim caro doutor, sim caro doutor, sim caro doutor. Deu-me a sensação que se alimentavam daquele sentimento de superioridade que lhes estávamos a proporcionar, e só o queriam continuar a ouvir. Pessoas da minha idade e até mais novas, com 19, 20, 21 anos, responsáveis por nada nem por ninguém que lhes trouxesse este sentimento tinham aqui a oportunidade perfeita de se aproveitar de outros que estavam a entrar pela primeira vez num sítio onde não conheciam ninguém e procuravam a aceitação e a criação de laços (e temos que admitir que é mais fácil ser outro a combinar uma reunião de grupo de curso para nos conhecermos do que ir eu combinar um café com 50 pessoas que não conheço, que provavelmente nem adeririam.) Para além das repetições, também éramos obrigados a estar horas seguidas de pé, a fazer pulos de galo e a estar em prancha também por um período de tempo ridículo. Queria-me levantar e mandá-los para um sítio, mas de facto ninguém me estava a obrigar a estar ali e obedecer-lhes. Achei que fosse valer a pena no final.

Achei piada as primeiras vezes que disseram que eu era “uma merda”. Infelizmente não podia achar piada. Não podia rir e tinha que olhar para o chão. Ensinavam-nos músicas e dois segundos depois do início da nossa tentativa interrompiam-nos porque estava “uma merda”. Não podíamos responder. Ao fim de 500 tentativas, quando já tudo estava na ponta da língua, tínhamos força na voz e se ouvia o coro no Campo Grande inteiro, continuava a estar “uma merda”. Comecei a ficar frustrada. Obviamente estava pior ao início, mas mesmo ao melhorar não eram capazes, nem digo de admitir que estava bem mas que já não estava assim tão mau. Fiquei, na mesma, queria escolher os meus padrinhos, ser amiga deles, trajar um dia e ser amiga dos meus futuros afilhados.

É verdade que fiz amizades com caloiros (não diferentes das que teria feito se não tivesse ido à praxe, mas fiz)  no entanto no que toca a todos os que não estavam lá pela primeira vez, não havia qualquer contacto. Tanto dentro da praxe como fora, não olhavam para nós, não falavam connosco, depois da primeira semana de praxe nunca nos ajudaram com o que quer que fosse na faculdade antes de escolhermos os padrinhos porque “não podiam influenciar a nossa escolha” (portanto é suposto escolhermos dois mentores sem qualquer opinião formada acerca da pessoa deles). Olhavam-nos com ar de desprezo, arrogância, como se fossem melhores que nós (e eram, não é verdade?)

Quando finalmente escolhi o meu padrinho e a minha madrinha, tudo aquilo que importa na praxe como a união, o respeito, a solidariedade, a amizade, a igualdade, a lealdade, o orgulho desapareceram. A minha madrinha aparentemente não gostava de mim – e há que ter em conta que até à data nunca tínhamos tido qualquer tipo de contacto visto que os caloiros não podiam falar com trajados – e pediu-me que não a envergonhasse, por causa da pessoa que eu sou. O meu padrinho já tinha mais interesse em mim, não o interesse que eu pretendia, o que resultou numa alcunha – contraditória ao que ele queria e que eu não dei – muito pouco amigável que rapidamente se espalhou por todos os trajados e caloiros de todos os cursos. Neste momento a razão pela qual eu queria continuar na praxe era exatamente para dar uma experiência diferente a quem viesse no futuro.

Todas as semanas tínhamos reunião de praxe, 1 hora no campo grande em que gritavam connosco, chamavam-nos nomes, rebaixavam-nos, faziam-nos ficar de prancha e fazer flexões e pulos de galo… e todas as semanas todos os que lá estavam eram castigados desta maneira por todos os que não estavam, porque “éramos um todo”. Chegaram a haver reuniões de praxe em que apenas fomos lá ser castigados pelos que não foram nesse próprio dia (ou seja, se não tivesse havido reunião ninguém tinha de ser castigado e o propósito daquela reunião em particular não existia, ou então se todos tivessem ido a essa reunião não tínhamos tido nada para fazer). Eu queria trajar, queria estar do outro lado, e continuei.

Quando finalmente chegou o meu ano de trajar as coisas não foram como eu estava à espera. Os que lá estavam há mais de 2 anos continuaram a ser os grandes, e os que estavam a trajar pelo primeiro ano tinham um grande peso em cima. Continuámos a encher, a fazer prancha, pulos de galo, continuaram a gritar connosco. Depois de um ano inteiro sem faltar à praxe, já trajada assumi uma atitude mais descontraída, se não me apetecia ir não ia. Metade deles só começou a ir mais no final do meu primeiro ano mesmo, qual seria o problema? Aqui a união voltou a ser um fator muito importante, porque desta vez já ninguém queria ser castigado por eu ter saído uma hora mais cedo, quando eu fui constantemente castigada pelas faltas dos outros. Aqui já ninguém pensava em união.

A postura e o estar bem trajado é uma das coisas mais importantes na praxe, pelo que assim que o meu pé saía do meu sapato por um segundo para aliviar um pouco, alguém da minha hierarquia tinha o cuidado de o comunicar ao orgão mais superior, para que todos fôssemos castigados pela minha atitude. No final queixavam-se porque estavam a ser castigados por minha causa, quando nunca se dirigiram a mim diretamente para corrigir o meu erro. Isto faz sentido?

Ao fim de um ano como caloira e UM dia como trajada, finalmente percebi que não, não valia a pena. As pessoas não eram minhas amigas, tratavam-me mal, achavam-se melhores que eu e agiam como tal, nunca me senti apoiada, nunca senti a união, o respeito, a lealdade. Senti exatamente o oposto. A praxe é uma oportunidade de fazerem algo que não podem fazer em mais nenhum lugar e circunstância, que é mandarem nos outros e superiorizarem-se, porque provavelmente lhes dá um gosto doce no ego.

Atenção: Nem todas as praxes são iguais, tal como nem todas as pessoas são iguais. As praxes diferem de curso para curso, de faculdade para faculdade, e não há regra sem exceção. Esta foi a praxe que eu vivi.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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