O meu caso é, segundo os “especialistas da sociedade”, algo de que não se ouve falar todos os dias e que, segundo eles, nem se deveria sequer ouvir falar.

Terminara o secundário e chegava a hora de decidir a que curso e a que faculdade me iria candidatar. Sabia que me atraíam as áreas das ciências da saúde e também da tecnologia, mas não sabia qual a decisão a tomar. Talvez por ter uma boa média e devido a um “empurrãozinho da sociedade” tenha tomado a decisão que tomei. Decidi candidatar-me a Medicina e acabei por ser colocado na Universidade de Coimbra. Estava feliz e animado com o resultado. Ia estudar o que queria, numa cidade que já adorava, apesar de pouco conhecer. O que poderia correr mal?

Pois bem, o ano começou e cedo começaram a surgir as dúvidas e incertezas. Pouco tempo depois, as incertezas deram lugar às certezas, certezas de que estava no curso errado. Não podia, então, continuar num curso que exige tanta entrega e, por vezes, tanto sacrifício sabendo que não conseguiria dar nada disso da forma que devia. Mas, como ia eu dizer a toda a gente que queria mudar de curso e, pior, que ia desistir do curso de Medicina?



Decidido a fazê-lo, comuniquei a decisão à minha família. De início foi complicado perceberem e aceitarem, mas acabaram por perceber que não podia continuar num curso do qual não gostava e que não me fazia feliz, perceberam que não podia passar a vida a fazer uma coisa que não me deixaria realizado.

Começaram, depois, a manifestar-se os tais “especialistas da sociedade”, aqueles que mesmo estando de fora da situação acham sempre por bem dar (leia-se “impor”) a sua opinião, sem por vezes pensar bem no que estão a dizer e na maneira como o dizem. Foi, principalmente, nesta altura que ouvi frases como “Não podes ser bom da cabeça… Quem é que desiste de Medicina? Só podes estar maluco” ou “Não vês que estás a desiludir toda a gente? Não podes fazer isso, tens que voltar para lá”. De início foi muito complicado conseguir gerir tudo isto, ouvir e ignorar, principalmente porque até os comentários de pessoas que não me eram nada próximas mexiam comigo. A certa altura, estava já cansado de tentar explicar às pessoas o meu ponto de vista e, de ouvir tantas vezes a mesma coisa, começava até a acreditar que talvez as pessoas à minha volta tivessem razão e que eu estivesse errado. Mais tarde percebi que não, a decisão só a mim me dizia respeito, era eu que iria viver com ela o resto da vida, era eu que tinha que decidir o que fazer. E assim foi, no ano seguinte concorri e fui colocado no curso de Genética e Biotecnologia na UTAD. Agora, um ano depois, o balanço não podia ser mais positivo. Estou a adorar o curso, a cidade, as pessoas, o ambiente académico, a praxe, tudo. Continuo a ouvir, às vezes, comentários dos “especialistas”, mas agora sei filtrar a informação e ignorar o que deve ser ignorado.

Se me arrependo de ter concorrido a Medicina e ter “perdido” aquele ano? Não, não me arrependo nada… Na minha curta passagem por Coimbra fiz amizades, passei a adorar ainda mais aquela cidade e graças a esta experiência aprendi muito sobre mim e o que me rodeia, apercebi-me, sobretudo, do poder que a nossa sociedade pode ter sobre nós se nos deixarmos influenciar por ela.

Por isso, se estão numa situação parecida, se estão num curso que não corresponde àquilo que querem para vós e tiverem oportunidade de mudar, façam-no. Não deixem que a sociedade vos influencie e faça de vós, no futuro, profissionais frustrados e infelizes com aquilo que fazem todos os dias. Façam as vossas próprias escolhas e saibam dizer “não”…

Eu disse “não” e agora sou feliz!