A Praxe é provavelmente o tema mais falado quando se trata de discutir assuntos relacionados com a Universidade. A Praxe é, também, o primeiro medo dos futuros estudantes e o primeiro contacto que têm com a vida académica. Todos os futuros caloiros perguntam a si mesmos, antes de serem colocados nos cursos a que concorreram, como será a Praxe. Com essa pergunta, surgem tantas outras: a Praxe é obrigatória? Será integração ou humilhação? E as notícias na televisão de mortes relacionadas com Praxes, será que estão certas?

Não gosto da Praxe. Não sou contra, não sou anti praxe, mas não a aprecio. No entanto, a Praxe não é nada do que os noticiários nos fazem querer ver. A Praxe não é violenta – se houver violência, será fruto de quem praxa e não da Praxe. O conceito de Praxe, quando bem aplicado, é apenas a promoção da integração, da cooperação entre caloiros e da hierarquia que é definida pelo número de matrículas.



Mais uma vez digo que não gosto de Praxe. Não sou adepta daquilo que lá é praticado. Mas também não sou contra. Acredito que a nossa liberdade começa onde termina a do outro e que, por isso, os caloiros devem saber dizer não quando querem dizer não, e os doutores devem aceitar esse não, mesmo que não concordem. Nesse sentido, e porque sempre optei por pensar pela minha própria cabeça, depois de experimentar a Praxe, virei-lhe as costas. Bastou-me participar uma vez para perceber que aquilo não estava de acordo com os meus ideias. Não me trataram mal nem me violentaram fisicamente, mas há coisas que não fazem parte dos meus ideais e o que é feito em Praxe entra nessa lista.

A questão que se levanta acerta da Praxe não deve ser a sua abolição, mas sim a capacidade que os alunos têm de seguir a sua própria cabeça. Não é a Praxe que está errada: quem está errado é quem a frequenta contra vontade. Por isso, e mesmo que a minha posição seja aquela que referi anteriormente, acho que a Praxe não deverá ser abolida – o que deve existir é, por parte dos pais, dos familiares e dos educadores, uma educação do aluno para a ideia de que só devemos participar em alguma coisa se nos sentirmos confortáveis.

Sei que a partir do momento em que lerem isto, muitos pais vão achar que a responsabilidade não é deles. Mas é. Eu fui educada a dizer que sim quando quero, e a dizer que não quando algo me incomoda. Se existem pessoas que gostam realmente de Praxe e que dizem sim por gostarem, também é legítimo existirem pessoas que não gostam e que devem ter a coragem de dizer que não.

Aprender a dizer não é uma tarefa dos pais, na medida em que é com eles que somos educados para este tipo de situações. Ao longo da minha vida tenho procurado fazer apenas aquilo que vai ao encontro dos meus ideais. O que, pelo contrário, não pertence à minha forma de ver o mundo, é rejeitado por mim, se tiver essa liberdade de escolha.

Não culpem a Praxe. Não culpem quem praxa. Não culpem a Universidade ou o ambiente académico. Culpem os vossos filhos, por dizerem sim quando podiam dizer não, por não saberem participar quando gostam e não participar quando não gostam. Culpem vocês próprios, por não terem conseguido incutir nos vossos filhos a ideia de que a liberdade é nossa e de que podemos, a qualquer hora, voltar as costas a algo que achamos que não nos faz bem. A Praxe é inocente no meio de tudo isto – e se eu, que não gosto das atividades praxísticas, consigo ver isso, qualquer pessoa consegue.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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