A transição de caloiro para doutor pode ser difícil, aterradora até em certos momentos, geradora de expectativas e ilusões que nos podem tolher o discernimento, constrangedora enquanto não percebemos bem qual é o nosso lugar e o nosso papel. E quando nós pensamos que tudo isto por si só já pode ser complicado de gerir nos primeiros momentos dentro de uma realidade distinta, pior ainda será se tivermos um inimigo fortíssimo: o ego.

Há coisas que o tempo nunca pode levar nem apagar, e os ensinamentos e valores fortemente reforçados ao longo do ano de Caloiro são algumas dessas coisas. E aqui irá residir uma das maiores batalhas que as pessoas vão enfrentar se o seu ego se meter no meio desta equação. Podemos ficar tão inebriados com o poder que (julgamos) o traje trás que nos esquecemos de onde viemos, o que passámos, o que enfrentámos e mesmo de coisas que não gostámos. Podemos estar tão cegos com uma ideia de “vingança” e tão sedentos de fazer aos mais novos aquilo que nos fizeram também um dia, que abandonamos a nossa forma de ser, de estar e de pensar. Podemos ser iludidos por uma ideia de superioridade que temos em relação aos mais novos, que nos esquecemos dos limites que não devem ser ultrapassados perante outras pessoas.



Perante tudo isto eu só posso dizer: o preto não nos pode mudar! Não é por se envergar um traje que temos o direito de dizer e fazer tudo o que nos vem à cabeça, simplesmente porque temos gente abaixo de nós e, como tal, têm de levar com os nossos devaneios. Não é por usar uma indumentária diferente e mais pomposa que vamos esquecer as raízes de onde viemos, quem nos ensinou e o que nos ensinou. Não é por se deixar de ser a base da hierarquia que podemos agir como se fossemos os reis deste mundo e do outro. Para mim há 2 regras fundamentais em praxe: “respeita se queres ser respeitado” e “não faças aos outros aquilo que não gostavas que te fizessem a ti”. Regras muito simples, mas ao mesmo tempo difíceis de entender e de cumprir por parte de pessoas que, ao invés de zelarem pelos bons costumes da praxe, olham unicamente para o seu próprio umbigo.

Rompendo um bocado com a opinião de muita gente, para mim o traje não traz poder absolutamente nenhum. Só há uma coisa que o traje traz e que aumenta consoante o número de anos que o envergarmos: a responsabilidade. Envergando o traje, nós temos a responsabilidade de zelar pela continuidade e manutenção dos costumes e das tradições, temos a responsabilidade de acolher e proteger os mais novos, temos a responsabilidade de lhes passar o que já alguém nos passou a nós, temos a responsabilidade de prosseguir o trabalho que vem sendo feito há décadas…temos a responsabilidade de transmitir algo que é superior a nós próprios!

Não, o preto não nos pode mudar! E nós devemos sempre fazer de tudo para o usar digna e honradamente. Nunca fazer de tudo unicamente para que todos saibam o nosso nome e nos conheçam nos corredores…afinal o nosso objetivo não é fazer com que a nossa presença seja notada, mas sim que a nossa ausência seja um dia sentida.

Devemos sempre manter-nos fiéis aos nossos princípios e valores, e não será por usarmos uma veste preta que tudo isso vai mudar! Nós somos o que somos e o traje não deve mudar isso.

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Este texto faz parte de uma nova série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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