“Cativar Portugal através da Educação, do Desporto e da Saúde” é o lema da Faculdade de Motricidade Humana (FMH) da Universidade de Lisboa. Com 78 anos de existência, a instituição que sempre pretendeu “expandir a sua oferta para além das ciências do desporto” tem vindo a comprometer essa missão.

Como há sempre dois lados em todas as histórias, o Uniarea decidiu explorá-los: o de quem está “por Dança, por Ergonomia, pela FMH” e o de quem acredita que “vão-se os anéis, ficam-se os dedos”.

“Estou no 3º ano da licenciatura, em fase de conclusão”, rematou Mafalda Pereira, finalista de Ergonomia. O curso, que resulta de uma fusão de várias áreas do conhecimento, como biomecânica, engenharia, fisiologia e psicologia, encontra-se ameaçado pela falta de recursos financeiros da FMH. Para a finalista, a licenciatura “não está muito bem estruturada”, na medida em que o ano final é o mais específico de todos: “As unidades curriculares do primeiro são semelhantes às dos cursos que a faculdade oferece”, acrescentou.



O que é a Ergonomia? Acima de tudo, uma disciplina científica que visa a eficácia e o conforto no local de trabalho mas também nas coisas mais simples do nosso quotidiano, tal como a finalista explicou: “Está em tudo o que nos rodeia, como nos telemóveis, que foram desenvolvidos de forma a que sejam mais agradáveis e fáceis de utilizar. No fundo, é facilitar a vida ao ser humano: quer seja por tornar um ambiente de trabalho ou um documento mais acessível a todas as pessoas (com e sem deficiência)”.

O Uniarea entrou em contacto via e-mail com Ana Santos, Presidente do Conselho Pedagógico da FMH. A docente informou-nos de que representa “um órgão colegial que tem igual número de estudantes e de docentes” e que já se haviam reunido. Quanto a José Pereira, Presidente do Conselho de Escola, sugeriu que falássemos com José Alves Diniz, Presidente da FMH. E foi isso que fizemos.

Alunos da FMH contra a extinção dos cursos de Dança e Ergonomia

Começámos por questionar se a possível extinção das licenciaturas em Dança e Ergonomia contribuiria para a perda de identidade da faculdade, ao que Alves Diniz respondeu: “A FMH é herdeira do Instituto Nacional de Educação Física (1940-1975) e do Instituto Superior de Educação Física (1975-1989). A sua identidade tem evoluído e é dinâmica, tentando responder aos desafios da sociedade, às condições contextuais e adaptando-se também à capacidade internamente instalada. Não temos em relação à nossa identidade uma visão conservadora e estamos abertos à mudança. A identidade vai-se construindo, não é imutável”.

O que acontecerá ao espaço de formação, investigação e apoio à comunidade proporcionado pelas licenciaturas anteriormente referidas? O Presidente afirmou que “mesmo no contexto da revisão da oferta formativa que está em curso, seja decidido terminar com os atuais primeiros ciclos de Dança e Ergonomia, isso não quer dizer que as competências e o conhecimento nestas áreas seja desperdiçado. Antes pelo contrário, o que se pretende é canalizar o potencial instalado na FMH nestas áreas para formações que possam ser mais atrativas e possam ser melhor sustentáveis do ponto de vista financeiro”.

Na mensagem que escreveu aos estudantes, Alves Diniz deixou claro: “Na FMH centramos a nossa atividade nos Estudantes – são eles o alvo primordial da nossa ação”. No entanto, colocar um fim a estes dois cursos únicos ao nível do Ensino Superior Público português não prejudicará os atuais e futuros alunos? Para o Presidente, “os estudantes que já terminaram e os que entretanto terminarem estes curso terão sempre a sua formação reconhecida e os futuros estudantes terão acesso a uma formação mais adequada para responderem às necessidades sociais. É mais confortável para os órgãos da faculdade e para os docentes em geral deixar tudo na mesma. É exatamente a pensar nos estudantes que pretendemos rever a nossa oferta formativa, não é a pensar seguramente nos docentes ou trabalhadores técnicos e administrativos”.

Pedro Fidalgo Marques, que terminou a licenciatura em Dança em 2012 e hoje é sócio-gerente na Oeiras Dance Academy, defende a reflexão dos órgãos internos da faculdade e não a eliminação de um curso que, a par da FMH, existe apenas na Escola Superior de Dança do Instituto Politécnico de Lisboa: “A licenciatura em dança, como qualquer licenciatura necessita de, periodicamente, ser avaliada e potencialmente ajustada e atualizada. Esse processo de atualização curricular já foi feito recentemente e a próxima etapa deverá ser uma reflexão interna de forma a poder corrigir potenciais lacunas, melhorando e potenciando cada mais o curso”, clarificando: “Seguramente existirão aspetos a melhorar como em qualquer curso do país. Temos é de os identificar e trabalhar para os corrigir”.

Joana Torcato, recém-licenciada em Dança, iniciou o seu percurso em criança, tendo decidido aprofundar os seus conhecimentos ao nível desta arte performativa no Ensino Superior. Deste modo, segue a linha de pensamento de Pedro: “Na faculdade não aprendi tudo, mas ganhei bases sólidas e consistentes para iniciar o meu percurso profissional. Adaptei o que aprendi neste curso às áreas da Dança com que mais me identifico e tenho consciência de que as experiências que vivi no curso me enriqueceram”. Quanto aos desafios do curso, Joana transmite a sua opinião sem papas na língua: “Dança tem um ensino de metodologias de ensino excelentes, o que nos leva a estar preparados para sermos profissionais de excelência. Todos os professores com quem me cruzei enquanto aluna transmitiram-me conteúdos importantes, e no meu caso, fizeram a diferença” mas não descura os pontos menos fortes: “Senti que, por vezes, as disciplinas teóricas não estão adaptadas aos conteúdos de Dança, como é o caso de Fisiologia do Exercício (disciplina teórica do 2°ano da licenciatura)”.



Em declarações à TSF, Alves Diniz enunciou: “Vão-se os anéis, ficam-se os dedos”. Ergonomia e Dança serão os únicos anéis a desaparecer dos dedos da FMH ou a extinção de outros cursos surgirá num futuro próximo? Na opinião do Presidente, a sua mensagem foi mal interpretada: “Com essa expressão quis transmitir que a medida me parece imprescindível neste momento para a própria sobrevivência da FMH. Insisto que o que está em causa é a extinção dos cursos dos primeiros ciclos destas áreas de conhecimento”, acrescentando que a instituição analisou financeiramente os restantes cursos, concluindo que são sustentáveis.

“Não entrando em discussões mais artísticas ou filosóficas, no meu entender, a dança representa uma arte e um desporto, sendo uma das atividades mais completas que faz bem ao corpo e à mente – tanto tem uma forte componente artística e cultural como tem as componentes física e social também importantes” disse Pedro Fidalgo Marques, esclarecendo que no panorama da dança podemos tanto encontrar espetáculos profissionais como quem a procure como forma de expressão, de atividade física ou mesmo como terapia.

Para Pedro, que expressa com convicção “dança é vida!”, toda a sociedade tem de estar solidária com Ergonomia, principalmente, os estudantes das outras licenciaturas da instituição: “Ergonomia faz parte do ADN da FMH e é um curso único e necessário ao país. Aguardo, por isso, os próximos desenvolvimentos com expectativa mas serenidade, pois acredito que o bom senso irá imperar”.

“No que diz respeito à decisão tomada hoje no Conselho de Escola, sinto um misto de sentimentos. Feliz porque a minha licenciatura continua mas triste porque a de Ergonomia foi extinta” – Joana não é tão positiva quanto Pedro, lamentando o “desperdício de Ergonomia, um curso com elevada empregabilidade”, todavia, espera que “as mudanças passem pela adaptação dos conteúdos teóricos à Dança”.

“No caso de Dança, o problema situa-se mais na escassez da procura e no caso da Ergonomia situa-se mais em manter os alunos no curso – muitos abandonam-no ou pedem mudança de curso. Há, portanto, problemas de atratividade destes cursos que importa resolver” – para Alves Diniz, as palavras-chave parecem ser a atratividade e a sustentabilidade.

À conversa com um aluno de Dança

Já na perspetiva dos estudantes, um dos elementos mais significativos é a perda da componente da motricidade humana, tal como referiu Mafalda Pereira, ao abordar a possível transferência da licenciatura em Ergonomia e dos docentes que a lecionam para a Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, processo que terá de estar finalizado dentro de três anos para que não seja extinta: “Se realmente existir esta transferência, perdemos a componente do movimento humano, sendo esta a base dos nossos estudos. A transferência não vai afetar os licenciados e atuais estudantes, porque a União Europeia ‘obriga’ as médias-grandes empresas a contratar pelo menos um ergonomista, contudo, quem pensava em seguir esta área vê-se agora confrontado com a temática da sua continuidade, que é muito complexa”.

A Comissão Motricitária, encarregue da organização das ações de manifestação contra o encerramento das licenciaturas em questão, apela diariamente aos atuais e antigos estudantes que se façam ouvir, tendo iniciado “luto académico por período indeterminado” no dia 24 de março.

Para além destas iniciativas, a comissão criou uma petição online intitulada Contra a extinção das licenciaturas em Dança e Ergonomia na FMH-UL (Faculdade de Motricidade Humana – Universidade de Lisboa), apoiando-se no manifesto “Progresso ou Retrocesso?”, pois os seus membros julgam que não estão “reunidas as condições necessárias a uma tomada de decisão informada, inequívoca e que respeite os princípios democráticos de participação”. Aquando do fecho deste artigo, a petição já havia sido assinada por 4866 pessoas.

Qual será o futuro das licenciaturas em Dança e Ergonomia na FMH? Os seus contornos ainda são dúbios, mas indiscutivelmente algo permanece intocado: a força da voz dos motricitários e a sua união.