Numa tarde soalheira de outubro, conversámos com uma das duas vencedoras do prémio que distingue os mestres e doutores “cuja investigação inovadora sobre biodiversidade conta com dados obtidos através da rede GBIF”. Aos 23 anos, com uma licenciatura e um mestrado completos e um percurso que espelha a sua dedicação, recebeu-nos na Oeiras Hub – Fábrica de Startups. O contexto? A participação no Blue Bio Value, um programa “para acelerar soluções marinhas de base biológica”. Assim, conhecemos Raquel Gaião Silva, a portuguesa que levou as macroalgas aos quatro cantos do mundo.

 

Maria Moreira Rato (MMR): Como surgiu o teu interesse pela Biologia?

Raquel Gaião Silva (RGS): No 9º ano. Estava indecisa entre seguir Artes Visuais e Ciências e Tecnologias no Ensino Secundário, porque gostava imenso de desenhar. No entanto, tive uma professora de Ciências Naturais que me fez despertar para a Biologia. Aí, entendi que estudar as matérias relativas à ciência da vida não era algo entediante para mim, porque realmente gostava disso – dava por mim a estudar, a querer saber mais, a procurar mais informações.

Sempre gostei de muitas coisas, mas a Biologia acabou por se sobrepor ao resto. A verdade é que os documentários também desempenharam um papel fundamental nesta decisão, essencialmente, os do David Attenborough. Primeiro, surgiu a Biologia e depois, a Biologia Marinha.



 

MMR: Quando é que percebeste que a área da Biodiversidade e Conservação Marinha seria o caminho a seguir?

RGS: Comecei a mergulhar quando já estava na universidade, quando me juntei aos Amigos do Mar, uma organização não-governamental de Viana do Castelo que se rege pela defesa do mar. Iniciei os cursos de mergulho e desde o meu batismo, decidi que não desistiria do projeto.

Acabou por ser um processo, até porque tive uma cadeira de Conservação na licenciatura, enquanto estava na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), e ao perceber o potencial de cada espécie e estar inserida no meio aquático através dos Amigos do Mar, percebi que este mestrado poderia ser a minha escolha. Mas a verdade é que também fiz Erasmus na República Checa, no meu último ano de licenciatura, e comecei a falar inglês diariamente e compreendi que um mestrado internacional (Erasmus Mundus) não era uma hipótese a excluir. Quando regressei a Portugal, com todos estes fatores agrupados, pensei “Ok, um mestrado lecionado em inglês, com uma Spring School na Suécia… não me parece nada mal!”. 

 

MMR: Como decidiste compreender o impacto das alterações climáticas na distribuição de macroalgas na costa atlântica da Península Ibérica?

RGS: Gosto muito de Comunicação de Ciência e da interação entre a ciência e a sociedade. Existe um tipo de ciência, a ciência-cidadã, que envolve os cidadãos na procura de dados. Por exemplo, alguém vai à praia, encontra uma alga, fotografa-a e não sabe identificá-la. Se fizer o upload da imagem numa plataforma online, os especialistas que encontrarem essa entrada, por assim dizer, terão a oportunidade de a identificar. Soube que havia um projeto que consistia nisto mesmo, o Marine Forests, que foi criado pela minha professora Ester Serrão.

Quando comecei a refletir acerca do objeto de estudo da minha tese, conversei com ela e a partir daí fizemos um brainstorming e surgiu a ideia de integrar a questão da ciência-cidadã na minha tese. Decidi que queria perceber a distribuição das macroalgas, bem como se essa distribuição está a mudar ao longo do tempo.

 

MMR: E quais foram os primeiros passos que deste?

RGS: Precisava de dados do presente – como os do Marine Forests – e do passado e, aí, recorri à plataforma da Global Biodiversity Information Facility (GBIF) e aos herbários das universidades do Porto, de Aveiro, de Lisboa e do Algarve.

Há estudos que apontam para uma alteração na distribuição das algas devido ao aquecimento global e tentei entender como poderia corroborar isso. A professora Ester apresentou-me àquele que seria o meu coorientador, o professor Jorge Assis, que estudou a temperatura da superfície da água e trabalha em modulação – ou seja, com várias variáveis, tenta prever aquilo que vai acontecer no futuro. E ele ajudou-me a descobrir que temperatura existiu na costa atlântica da Península Ibérica noutras épocas, bem como na atualidade.

 

MMR: A que conclusão chegaste?

RGS: Estudei o limite fisiológico de temperatura das algas, ou seja, a temperatura que conseguem suportar. Isto porque, imaginemos, se num determinado sítio estarão 17ºC no futuro e uma alga só suporta 15ºC, não a encontraremos lá. Foi assim que percebi que espécies de algas estão a desaparecer e o impacto que o aquecimento global está a ter na sua distribuição.



 

MMR: Como te sentiste ao receber a notícia de que tinhas sido uma das duas vencedoras do Global Biodiversity Information Facility Young Researchers Award?

RGS: Sempre estive muito atenta àquilo que acontece e percebi que o GBIF abriu um concurso destinado aos jovens investigadores. A minha tese enquadrava-se, mas pensei “Vou dar o meu melhor e depois vê-se”. Não esperava ganhar porque este concurso insere-se num âmbito mundial.

Há dois meses recebi a notícia de que tinha sido a representante de Portugal e fiquei muito feliz. Há poucas semanas, fiquei ainda mais surpreendida por saber que era uma das duas vencedoras! Não por o projeto ser desinteressante mas sim porque esta é uma distinção muito grande a que não estou habituada e foi, sem dúvida, uma honra!

Na altura, li e reli o e-mail. Estava sozinha em casa, contei aos meus familiares, ao meu namorado e aos meus amigos. Ganhei este concurso mas existem por aí jovens investigadores muito talentosos: a sorte aliou-se à ocasião porque a minha tese enquadrou-se nos critérios de seleção do GBIF’s 2018 Young Researchers’ Award.

 

MMR: Consideras que este prémio consistiu no reconhecimento do teu esforço no segundo ciclo de estudos ou na tua dedicação académica total?

RGS: Quando efetuei a candidatura, enviei um documento de cinco páginas sobre a minha tese mas também o meu currículo, uma carta de recomendação da minha orientadora (a professora Ester Serrão) e um documento comprovativo de frequência do mestrado. Ou seja, não sei qual foi o elemento diferenciador porque não tenho acesso a esses dados, mas sem dúvida que o currículo é extremamente importante.

Sempre fiz muitas coisas. Durante a licenciatura, participei na Universidade Itinerante do Mar – aprendemos elementos técnicos como içar uma vela ou a dar nós mas também questões teóricas ligadas ao empreendedorismo. Por exemplo, eu e dois colegas fizemos um trabalho sobre o uso de insetos para a produção de farinha para a aquacultura, isto é, para substituir a soja e o peixe. Nas férias de verão, entre o primeiro e o segundo anos do mestrado, trabalhei em Comunicação de Ciência na EurOcean. Tudo isto foi de cariz  extracurricular, quis adquirir skills para realizar um trabalho melhor!

A proatividade é o elemento-chave que leva a que as pessoas nos consigam distinguir dos outros. Porque se alguém tirar exatamente a nossa licenciatura e o nosso mestrado, o fator diferenciador será aquilo que fizemos fora da faculdade.

Não posso dizer isto com certeza, porque não sei, mas se calhar a minha proatividade influenciou a escolha. 

 

MMR: És licenciada em Biologia pela FCUP e mestre em Biodiversidade e Conservação Marinha pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade do Algarve. Quais foram os valores e conhecimentos principais que te foram transmitidos em cada uma das instituições?

RGS: Essa é uma pergunta interessante. Nunca refleti acerca disto. Na licenciatura, deixei de viver em casa dos meus pais e aventurei-me sozinha numa cidade quase desconhecida. Ao nível curricular, “tive um gostinho” de variadas áreas da Biologia, como a Molecular, a Celular, dos Vertebrados, dos Invertebrados… havia diferentes áreas e consegui perceber aquilo de que gostava mais. Em suma, houve todo um amadurecimento. No mestrado, obtive conhecimentos mais técnicos na área da Biologia Marinha, como a pesca, a aquacultura, gestão, áreas marinhas protegidas… entendi aquilo que posso ser e fazer, qual será a minha área de impacto.

A licenciatura foi mais geral e o mestrado foi um desafio maior por ser lecionado em inglês e por haver uma alteração no método de estudo. Desenvolvi capacidades distintas.

 

MMR: Quais são os teus objetivos?

RGS: Neste momento, está tudo em aberto. Terminei os meus estudos, comecei a trabalhar ña BlueBio Alliance e para já, pretendo dar o meu melhor e aprender tudo aquilo que tenho para aprender para um dia escolher a carreira mais adequada. Gosto muito de Gestão de Ciência e de Comunicação de Ciência. Quanto à investigação, sinto-me algo reticente porque tenho valências que se adequam a outras vertentes. Por exemplo, um investigador não tem de saber comunicar bem oralmente ou organizar-se de modo exemplar em equipa e estes são os aspetos que mais me agradam. No entanto, não sei que emprego terei no futuro. Sei que quero ter um trabalho que tenha um impacto positivo na sociedade.

 

MMR: Quem é a Raquel fora da academia?

RGS: Sou uma pessoa muito calma, é isso que me define. Não me enervo. Gosto muito de passear, de tocar piano (estudei música durante doze anos na Academia de Música de Viana do Castelo), de realizar atividades ao ar livre, de estar com os meus amigos – embora agora tenha amigos em vários países e seja complicado estar com todos…! Aprecio ter o meu horário de trabalho e umas horas para estar mais relaxada. Acima de tudo, considero-me uma pessoa simples.