Um país de brandos costumes. É esta a desculpa que muitas vezes se dá para o conservadorismo social que vigora na mentalidade dos portugueses. E a escola? Será o Ensino também uma instituição tradicionalista?

A escola tem um currículo. Um só. Talvez seja essa a sua maior fraqueza. Quem se afasta do programa previsto, não tem uma vida fácil, uma vez que a escola não está, de qualquer modo, preparada para receber e perceber a diferença entre os alunos. Existe, assim, apenas um molde e modelo para o que o aluno deve ser. Se não nos adaptarmos, não temos direito ao conforto e somos obrigados a fazer o mesmo que todos os outros que como nós são diferentes para lutar contra essa dificuldade- existir e tentar não quebrar, um dia de cada vez.



Para tentar aliviar o problema, o Ministério criou aulas de Educação Sexual. Na minha visão pessoal, olho para a Educação Sexual nas escolas como olho para a ciência dependendo do seu obreiro, ela pode servir para fins bons e maus. Como tal, ao invés de colocar uma equipa médica multidisciplinar capaz de falar sobre sexualidade e com formação apropriada, o Ministério seguiu o caminho mais fácil e barato: atribuir essas aulas a um professor qualquer. Na minha turma de 12o ano (único do secundário no qual sequer ouvimos falar sobre sexualidade), o fardo caiu sobre a minha antiga professora de Educação Física. A Geringonça que nos governa aprovou então que uma Senhora que acha que a homossexualidade é apenas uma moda e que os bebés deveriam ser circuncidados à nascença deveria dar aulas sobre sexualidade. Como, é claro, uma desgraça nunca vem só, tive também o luxo de ouvir de uma professora de História que um casal homossexual nunca poderia, em caso algum, dar uma educação normal a uma criança, comprovando assim a superioridade da criação por pais heterossexuais.

Falo, apenas, de comentários infelizes que vieram de uma instância superior. Não pretendo nem lembrar-me das conversas que vieram de pessoas iguais a mim e que não foram, de maneira alguma, refreadas pelos professores ou pelo pessoal não-docente.

Ainda assim, a escola não é feita apenas de coisas más. Vejo nesta instituição algumas coisas úteis para a sociedade. Por exemplo, se há algo que gosto na escola é que ela nos prepara para o futuro e para a vida real. E os alunos LGBTQ+, pela primeira vez, não são excluídos! Ela desde cedo prepara-nos para que nos habituemos a ser os cidadãos de segunda categoria que nos vamos tornar e para que aprendamos a não responder quando algum superior nos olha com desdém e desaprovação sobre algo que não lhe compete minimamente.

A título de conclusão, quero só dizer que o ensino falhou para connosco. Falhou em proteger-nos e falhou em habituar os outros à nossa presença e a mentalizá-los que nós também temos direitos. Ainda assim, não é do meu intuito que olhem para nós como algum tipo de vítimas ou coitadinhos da sociedade. Afinal de contas, ela condena-nos, todos os dias, a ter um risco oito vezes maior de cometer suicídio, um risco seis vezes maior de ter depressão, um risco três vezes maior de cair no vício das drogas até aos nossos 20 anos de idade. Logo, prefiro olhar para esta comunidade não como um bando de oprimidos, mas como um grupo de sobreviventes.

Deixo, assim, apenas os meus votos de mudança e protesto sobre o ensino, sociedade e mentalidades atuais.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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