Costumo chamar de “heróis” aos que ainda se aventuram no universo da cultura e da união. Infelizmente, o percurso é turbulento e, na grande maioria das vezes, impiedoso. Mas porquê? É importante esclarecer, desde já, que a culpa não está nas letras, mas disso falaremos mais à frente.

Para muitas famílias, é um orgulho enorme ver um dos seus membros a ingressar num curso de ciências exatas. Ora, é aí que a influência começa. Ainda o adolescente se sente inseguro e já se ouvem os tios a recriar, na grande maioria das vezes de forma hipotética, o grande engenheiro, ou médico, que dali irá surgir. Posso perfeitamente dizer-vos que o medo de falhar e de desiludir os que nos rodeiam é bem real.



Não censuro quem assim pensa, não é rude pensar assim. Quem quer criar uma vida mais sólida, e agora falando em números, as letras não são, de todo, a fonte mais viável. Vivemos no auge do capitalismo e é isso que, rudemente, nos faz esquecer de quem somos e de onde viemos. De que nos vale sermos detentores de um conhecimento cultural, perfeitamente humanístico? De que nos vale sermos conscientes do mundo, e do que nos rodeia? Pois bem, digam ao mundo que o atraso cultural em que nos encontramos vem desse menosprezo pela área das humanidades.

Sou aluna de Línguas, Literaturas e Culturas: sim, eu sou de letras. Pertenço ao restrito grupo dos que ainda sente “amor à camisola” e sim, também pertenço ao restrito grupo que ouve sempre o mesmo: “Coitada, vai para o desemprego.”. Carregamos o peso do mundo aos ombros e poucos são os que ainda se mantém em pé, firmes e convictos, não os julgo, já tive momentos de fraqueza ou acham que é fácil aguentar uma carreira linguística e
humanística carregada de negativismo?

Iniciei este desabafo com o conceito de “herói”, na minha opinião, é o que somos. E não, os Doutores das letras não estão ultrapassados, ou acham que a sociedade vive sem eles?

Não se assustem quando os vossos filhos vos disserem que querem seguir a área das humanidades, não fiquem a contar os dias e a remoer na taxa de empregabilidade. Orgulhem-se. Orgulhem-se por quererem olhar o mundo com olhos de ver, por quererem fazer do mundo um lugar melhor para viver, mais unido e sem barreiras linguísticas e culturais. Orgulhem-se por quererem deixar a sua marca e por quererem perceber onde é que falhamos para não cometermos os mesmos erros.

Eu vivo com as línguas e elas vivem em mim. As culturas ajudam a construir a minha identidade e eu, e vocês, somos parte delas. Não fujam do que de mais importante temos, seja o nosso património civilizacional, o nosso património genético ou a identidade que as circunstâncias nos deram. Eu acredito, que negar as letras é negarmo-nos a nós próprios, é fecharmo-nos ao mundo e fecharmos os olhos ao que de melhor temos. Não fosse isto o que faz de nós humanos com espirito crítico.

José Gil, defende que é um erro “acreditar que o conhecimento é resultado apenas de uma ciência positiva. Há uma espécie de positivismo ou neopositivismo que leva a que só se dê crédito às ciências duras: a matemática, a
biologia, pensando que se pode pôr de lado, como uma inutilidade, as humanidades (…) é um erro que se paga caro. (…) reduzir o homem e a sua inquietação, o seu desassossego, a duas ou três funções elementares. Como se fosse possível isso fazê-lo aprender a pensar. (…) (Sobretudo) quando derrubar barreiras disciplinares é uma exigência dos tempos de hoje.”

Iniciei, do mesmo modo, este desabafo referindo que o problema não são as letras, não é essa a verdade? Talvez sejamos nós, civilização, o problema. A minha tese prende-se na nossa capacidade de influenciar e de  menosprezar a identidade, não fossemos nós uma estranha incógnita civilizacional. Ser humano, é ser humanista.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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