Ser estudante açoriano e estudante deslocado é mais complexo do que aquilo que se pensa. Ainda antes das candidaturas ao ensino superior começa o dilema se vale a pena ir estudar para fora ou se devemos simplesmente apostar na Universidade dos Açores, mesmo que não seja o nosso objetivo. Será que deixar tudo será a melhor hipótese? Será que vamos arranjar emprego neste meio tão pequeno como o nosso? Será que nos vamos habituar a esta nova realidade? E as saudades? Viver sozinho?…

Depois chegam as colocações… e é a partir daí que começa a contagem decrescente para aquele que será um dos dias mais importantes da nossa vida. É o fim de uma etapa e o início de uma grande mudança. Muitos dizem que os 18 anos não mudam nada nas nossas vidas, mas é aí que se enganam. Quando se exige a um jovem de 18 anos abandonar a terra que o viu nascer tudo muda. Nunca se está preparado. Saímos de casa nesta altura, mas não sabemos se tudo voltará a ser como antes, nem sequer sabemos se iremos voltar a viver na nossa casa sem ser a passar férias. Porém, de malas feitas seguimos outro rumo à procura da realização do nosso sonho e de um futuro melhor que não nos é permitido aqui.

Um misto de sentimentos invade-nos a alma. A alegria e concretização de um sonho nesta nova aventura misturam-se com a tristeza, o medo, a ansiedade e a saudade.

Fui colocada em Coimbra, mas não era a universidade que queria. Porém, sempre me disseram que tudo acontece por um motivo e, embora muitas vezes me questione qual será, já entendi que não poderia estar em melhor cidade, na cidade dos estudantes. Mantemos uma relação de amor-ódio. Aprendi a amar Coimbra, as suas ruas e as suas tradições, a Queima, o batismo, mas, por outro lado, mantêm-se o ódio por tudo o que me foi roubado e por estar afastada de tudo o que mais gosto. Fui forçada a crescer.

Quando cais em ti, sozinha, noutra realidade, o mundo desaba. Parece que tudo está errado contigo e o sentimento de solidão preenche-nos. Não queremos saber de nada. Só queremos voltar para o conforto do nosso lar, junto de quem mais amamos. Eu, pessoalmente, não tive uma adaptação fácil. Comecei bem, mas a certa altura, numa má fase desta nova etapa, afastei-me de tudo e de todos, porque só queria ir embora e desistir. Ninguém me compreendia. Tinha saudades até das brigas de casa e do irmão a chatear. Da falta de atenção dos pais que iam trabalhar, mas que mesmo assim estavam sempre presentes. Do sofá que estava ocupado com o pai a descansar do trabalho. Das guerras pelo comando da televisão. Dos jantares juntos, onde a mãe era sempre a última a sentar-se na mesa para que nada faltasse. Das saídas com os amigos. Dos momentos com o namorado. Cada música, cada fotografia. Queria ver-me rodeada de verde, desta nossa natureza, queria sentir o cheiro a mar, falar com todos os que passavam na rua porque lá todos nos conheciam, queria a comida da minha mãe, queria acordar com o barulho de casa e ver que estava perto de quem mais gostava. Queria estar nos braços dos que me querem bem e abraçada pelo meu paraíso, pelo meu grande pedacinho de terra. Depois chegava o fim de semana. Todos iam para as suas casas e nós, eu e a minha colega de casa que também é açoriana, contávamos naquela aplicação do telemóvel (bastante útil) os dias que restavam para ir para a ilha. As lágrimas caíam quando nos perguntavam quando regressávamos a casa e nós dizíamos “Só daqui a 3 meses, está quase!”, mas este quase demorava tanto a passar. Chegavam os aniversários e outros dias lembrados e lá se acompanhava os acontecimentos aos soluços de tanto chorar através de uma vídeo chamada. E fora as outras chamadas todas vezes sem conta durante o dia para teres companhia e matares saudades. Falar com os amigos e com a família preenchiam a alma e ninguém podia destruir o sorriso que se tinha na cara nesses momentos.

Porém, apesar de tudo, eu e tantos outros tivemos coragem. E tu, estudante açoriano, vais ver o mundo desabar várias vezes, mas terás de te erguer muitas mais. No final, tudo irá valer a pena. Já és um corajoso por seguir um rumo diferente de bagagens na mão e deixares para trás tudo o que te faz feliz e a ilha que te viu nascer. Vais sentir vontade de largar tudo, mas não penses que algo está errado contigo, eu também senti essa vontade, nós todos sentimos. Mas, um dia vais perceber que esta foi a melhor escolha da tua vida e que tudo acaba por se recompor. Há sempre alguém que mete conversa contigo e quando dás por ti estás inserido. Os teus padrinhos de curso também vão colaborar contigo e, além disso, mesmo que estejas distante todos esperam por ti de braços abertos na ilha. Não há melhor sentimento do que se sentir realizado com o nosso curso e chegar à nossa terra e estarem todos de sorriso na cara, cheios de saudades tuas, a apoiar-te como sempre. O coração fica cheio e são nestes momentos que percebes que valeu a pena o esforço e que ainda bem que não desististe.

Agarra-te às oportunidades, junta-te às pessoas que passam pelo mesmo que tu. Quando estás longe e cruzas-te com alguém da ilha, mesmo que não falassem antes, quase que se tornam melhores amigos. Depois do teu primeiro ano e de todas as lágrimas derramadas (especialmente até ao Natal) vais perceber que esta é uma boa experiência e que te tornaste numa pessoa melhor. Vais ser um exemplo. Relembra-te que ser açoriano é partir, mas nunca por completo, metade de ti fica atrás, outra parte levas contigo. Levas a água salgada, a gaivota que voa, os verdes pastos, o basalto, os sabores, as gentes, o céu estrelado, o orvalho e a humidade. Porém, trazes contigo um sentimento de ser-se açoriano ainda mais acentuado e um sonho realizado. Luta, orgulha-te da tua ilha e nunca te esqueças de quem és e acima de tudo… sê forte… sê corajoso!

P.S Vão perguntar-te se és de ERASMUS, quantas ilhas têm os Açores e vão pedir-te para falares a língua açoriana (para não falar que vão confundir as ilhas todas com São Miguel). Boa Sorte!