A Licenciatura em Reabilitação do Património abriu na Universidade de Aveiro no ano letivo de 2015/2016. Passaram 3 anos e estão agora a terminar, pela primeira vez, os primeiros alunos deste curso. A pouco dias de terminar o ano letivo, e sem dar a oportunidade dos alunos mostrarem o que valem no mercado de trabalho, a reitoria decidiu fechar o curso.

Era anunciado com grande destaque na comunicação social há 3 anos a abertura do curso de Reabilitação do Património na Universidade de Aveiro. Referia-se na altura que segundo os número do Instituto Nacional de Estatística existam em Portugal quase 100 mil edifícios a precisarem de grandes reparações e cerca de 60 mil muito degradados. Portanto, sendo um curso único no país, emprego não lhes haveria de faltar.



“A criação da licenciatura em Reabilitação do Património responde a uma necessidade atual de promover a formação de técnicos para exercer atividade na área da salvaguarda, manutenção, conservação, e reabilitação do património”, explicava na altura Aníbal Costa, o diretor desta nova licenciatura.

O especialista em reabilitação e conservação de edifícios, acrescentaria também que o curso “enquadra-se numa estratégia para o desenvolvimento sustentável do país procurando contribuir para a revitalização da economia, através de uma aposta forte na economia e cultura ao nível das regiões, através do uso de materiais, recursos e de técnicas desses locais, que poderão sustentar a aposta no turismo como meio de promoção do património reabilitado”.

O que é certo é que ainda os alunos não tiveram oportunidade de mostrar o que aprenderam ao mercado de trabalho e a instituição decidiu encerrá-lo.

A aluna Renata Dias da Silva, uma das decidiu investir nesta nova formação, e nos enviou este alerta, sente-se injustiçada pela medida tomada pela universidade, tendo-nos dado conhecimento de uma carta que enviou à reitoria e que reproduzimos em baixo:

 

Excelentíssimo Senhor Reitor da Universidade de Aveiro,

Sou finalista da licenciatura em Reabilitação do Património e, depois de três anos a lutar, junto dos meus colegas e professores, para que este curso fosse em frente da melhor forma, não podia deixar passar o que aconteceu sem exprimir o quanto me sinto injustiçada.

“Foram 3 anos de luta. 3 anos em que nos tentámos afirmar, fizemos ouvir a voz dos alunos! 3 anos a lutar pelo nosso futuro… que continua incerto” – Palavras que eu mesma li na cerimónia da bênção de finalistas – aquele dia em que, junto das nossas famílias, festejamos o facto de estarmos a terminar um curso, o NOSSO CURSO! O dia em que festejamos ser os primeiros. O dia em que olhamos para trás e vimos tudo o que passamos aqui e o quão valeu a pena. E passado pouco mais de um mês daquele dia de festa e alegria, o Senhor destruiu-nos os sonhos, tirou-nos os alicerces e deixou-nos ruir, tal e qual um edifício abandonado, sobre o qual ninguém teve interesse ou preocupação.

“Reabilitação do Património (…) Uma inovação da Universidade de Aveiro, um curso novo a nível nacional. Será o futuro?” Eu acreditava que sim. E passo a explicar-lhe porquê: no nosso curso, aprendemos coisas que mais ninguém aprende, temos valências que mais ninguém tem. Este curso estava a formar profissionais em Reabilitação para colmatar uma falha (real!) que existe nesta área no nosso país. Posso garantir-lhe que me sentia mais que preparada para partir para o mercado de trabalho e começar a participar em equipas de reabilitação, tentando sempre dar o meu contributo para que esta fosse feita da melhor forma. E sim, falo no passado. Falo no passado porque o Senhor fez questão de acabar com tudo! Ora, se a própria reitoria da universidade onde estudamos não acredita em nós, quem vai acreditar?
Sinto-me um rato de laboratório. A Universidade de Aveiro lançou um curso em 2015, ao qual me candidatei e entrei. Ao longo de três anos cumpri todos os meus deveres como aluna e mais alguns: além de ter concluído sempre com sucesso todas as unidades curriculares, fui, ao longo destes três anos, representante do meu curso, fiz parte do Conselho Pedagógico durante dois anos letivos e estive também envolvida num Núcleo de Estudantes. Nós lutámos por nós, pelo nosso curso, por nos afirmar no meio de tudo e todos; sentimos na pele outra responsabilidade, a responsabilidade de fazer este curso melhor e levá-lo em frente da melhor forma; estávamos prontos para sair dele e ir mostrar ao mundo o que nós valemos. MAS, afinal de contas, a Universidade de Aveiro andou a brincar connosco. A Universidade de Aveiro, durante 3 anos abriu 20 vagas para este curso (vagas essas que encheram em todos os 3 anos), manteve-nos cá a brincar às aulas, aos exames e às apresentações, cobrou-nos 3 332,20€ e agora diz-nos que isto não passou de um jogo, que o curso vai fechar e que nós vamos ser licenciados num curso que não existe.

A uns dias de entregar o meu projeto final de licenciatura dizem-me que o meu curso vai fechar… Um cursoque está agora a chegar ao fim para os primeiros alunos. Um curso que ainda não tem formados, que ainda não “lançou” ninguém para o mundo e que ainda não viu realmente no que dá… Porquê? Porque é que não acreditam em nós? Somos poucos, mas posso garantir-lhe que somos bons! Acho que só depois de saírem os primeiros licenciados em Reabilitação do Património se podem fazer juízos e julgar se valeria a pena, ou não, dar continuidade a este curso. Mas não assim, não agora, não desta forma! A uns dias de entregar o meu projeto final, estou assim, triste, desiludida, preocupada, revoltada e desmotivada para acabar um curso no qual você e a sua equipa não acredita…

Resta-me, agora, fazer-lhe um último apelo… Um apelo para que pense nas vidas e nos futuros dos mais de 40 jovens adultos que frequentam este curso. Um apelo para que nos dê (pelo menos) uma oportunidade de provar o que valemos… Eu acredito em nós, finalistas que em breve sairão para o mercado de trabalho, e também nos restantes alunos que continuarão a lutar pelo futuro do curso. Eu acredito que seremos excelentes profissionais e que, um dia, faremos a diferença. Acredite também.

Atenciosamente,
Renata Dias da Silva