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10 Anos de CTeSP: falham na transição direta para o emprego e tornaram-se o principal trampolim para a licenciatura

Criados em 2014 com o objetivo de aproximar o ensino superior às necessidades do tecido empresarial, atrair novos públicos e qualificar quadros intermédios, os Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTeSP) completaram dez anos de existência.

O estudo independente coordenado pelo CIPES (Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior) — intitulado “CTeSP: Avaliação de uma Década de Cursos Técnicos Superiores Profissionais” — traça agora o balanço mais exaustivo de sempre sobre esta formação de ciclo curto (nível 5 do QEQ / ISCED 5).

Entre a rápida expansão da oferta, os números da empregabilidade, o fenómeno do prosseguimento para licenciaturas e desafios estruturais no abandono escolar e na remuneração, resumimos os pontos essenciais que qualquer estudante precisa de conhecer.

1. Crescimento acelerado e peso no Ensino Superior

Na última década, os CTeSP afirmaram-se como uma porta de entrada regular no ensino superior politécnico

 
  • 13% dos novos estudantes: Em 2024/25, 12 688 estudantes entraram no 1.º ano pela 1.ª vez (1A1V) num CTeSP, representando 13% do total de novos alunos do ciclo inicial do ensino superior nacional.
  • Capacidade vs. Ocupação: Embora o número de inscritos totais tenha atingido os 23 184 em 2024/25, a taxa de ocupação fixou-se em pouco mais de metade das cerca de 21 000 vagas disponíveis, coexistindo oferta excedentária em algumas áreas/instituições com forte procura noutras.
  • Público vs. Privado: O subsistema público concentra a maioria da oferta (63% das vagas e 71% dos novos inscritos em 2024/25), embora o peso das instituições privadas tenha subido de 17% (em 2015/16) para 29% (em 2024/25).
  • Áreas dominantes: As Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) (22%), as Ciências Empresariais (22%) e as Engenharias/Indústrias (16%) representam a maioria das escolhas dos novos estudantes.

2. Quem são os estudantes de CTeSP?

Apesar de terem sido idealizados também para a requalificação e atração de adultos trabalhadores, o perfil dominante continua a ser marcadamente jovem:

  • Origem escolar: Em 2024/25, 33% dos novos alunos vieram do ensino profissional e 27% do ensino secundário científico-humanístico (com tendência de subida nesta última via).
  • Idade jovem: Cerca de 67% dos novos estudantes têm 20 anos ou menos, fixando a idade média nos 21,5 anos. Apenas 18% têm 25 ou mais anos, contrariando a média europeia para ciclos curtos (cerca de 26 anos).
  • Sub-representação feminina: Apenas 36% dos inscritos em 2024/25 eram mulheres (contra 56%–57% nas licenciaturas), reflexo da grande concentração de oferta em engenharias e tecnologias.
  • Regime de frequência diurno: Cerca de 80% dos cursos funcionam em horário diurno, dificultando a frequência a quem já trabalha a tempo inteiro.

3. A grande reviravolta: De via profissional a “trampolim” para a Licenciatura

Originalmente desenhados para a inserção direta no mercado de trabalho, os dados revelam que os CTeSP funcionam largamente como uma rampa de acesso à universidade ou ao politécnico:

 
  • 62% dos atuais estudantes declaram que pretendem prosseguir estudos para a licenciatura após terminar o CTeSP (apenas 17,5% apontam à entrada imediata no mercado de trabalho).
  • 54% dos diplomados prosseguem efetivamente estudos no ensino superior, segundo os dados administrativos.
  • Fidelização: Dos diplomados que continuam a estudar, a esmagadora maioria (91%) mantém-se na mesma instituição de ensino e 67% na mesma área de formação.
  • Porquê esta via? Os testemunhos revelam que muitos estudantes usam o CTeSP para contornar os exames nacionais do Concurso Nacional de Acesso (CNA) e aproveitar as creditações de ECTS que reduzem a duração da licenciatura.

4. O Desafio Académico: Abandono Escolar e Sucesso

O estudo identifica sinais de alerta no percurso escolar dos estudantes:

 
  • Quebra na taxa de conclusão: A taxa de conclusão acumulada desceu de 60% (para quem entrou em 2015/16) para 43% (para a coorte de 2022/23). A conclusão estrita no tempo esperado (2 anos) situa-se igualmente nos 43%.
  • Subida do abandono no 1.º ano: A taxa de abandono ao final do 1.º ano subiu de 19% para 29% entre 2015/16 e 2022/23.
  • Fatores de risco: O abandono é significativamente mais alto entre estudantes internacionais (taxa de abandono de 69%), adultos com mais de 25 anos (~47% a 50% de abandono total) e alunos deslocados que enfrentam barreiras nos custos de alojamento e transporte.

5. Inserção Profissional: Salários, Estágios e Empregabilidade

No mercado de trabalho, os diplomados registam taxas sólidas de atividade, mas enfrentam desafios de valorização salarial e enquadramento das funções:

IndicadorSituação Observada no Estudo
Situação Laboral dos Diplomados70,4% empregados com remuneração, 22,9% a estudar e taxa de desemprego de 7,2%.
Oportunidade pós-Estágio~50% dos diplomados receberam proposta de contratação na entidade de acolhimento do estágio.
Remuneração Média Bruta1 360 €/mês para quem detém apenas o CTeSP (vs. 1 672 € para quem concluiu licenciatura posterior).
Prémio Salarial Real (Econometria)Controlando características individuais e contratuais nos Quadros de Pessoal, o CTeSP confere um prémio salarial de +22,4% face ao ensino secundário.
Sobrequalificação / Desalinhamento56,8% dos que só têm CTeSP consideram exercer funções abaixo das suas qualificações, e apenas 30% constam na categoria de técnicos de nível intermédio (ISCO 3).

6. O que dizem as Empresas e o que Falta no Terreno

A articulação com o tecido empresarial é apontada como a grande virtude e, simultaneamente, a fragilidade do sistema:

  • Participação limitada: Enquanto as direções de curso reportam um envolvimento amplo, as empresas parceiras revelam que o seu papel quase se esgota no acolhimento do estágio curricular, tendo pouca ou nenhuma voz na definição dos planos de estudos ou perfis de saída.
  • Críticas aos estágios: Embora globalmente positivos, diplomados e parceiros queixam-se de falta de acompanhamento próximo pelos docentes da instituição, bem como de estágios com tarefas indiferenciadas ou burocráticas.
  • Corpo docente: Na criação dos cursos, mais de 80% dos docentes propostos tinham perfil puramente académico e eram doutorados. Apesar de terem sido contratados especialistas externos ao longo dos anos, as baixas remunerações oferecidas dificultam a atração continuada de profissionais do mercado.

Principais Recomendações do Estudo

O relatório do CIPES deixa à tutela 11 recomendações estratégicas para a próxima década dos CTeSP, destacando-se:

  1. Acreditação externa periódica pela A3ES, assegurando que os cursos cumprem a matriz prática e não replicam licenciaturas.
  2. Reconhecimento formal nas carreiras da Função Pública, criando um nível de carreira compatível com a qualificação de nível 5 (atualmente inexistente entre assistente técnico e técnico superior).
  3. Repositório e portal nacional de CTeSP e estágios, centralizando candidaturas, vagas, bolsas e ofertas de trabalho.
  4. Flexibilidade para contratar especialistas, ajustando a tabela remuneratória para captar docentes com experiência de mercado.
  5. Aposta estratégica no regime pós-laboral, respondendo verdadeiramente à requalificação de adultos trabalhadores.
  6. Transparência total nas creditações e prosseguimento de estudos, para que quem pretenda seguir para uma licenciatura conheça antecipadamente as regras de acesso e equivalências.