Sou estudante de literatura e durante todo o meu percurso académico tive de redigir os mais variados artigos – de extensão modesta, é certo – o que me preparou, de certa maneira, para o grande passo profissional que é a dissertação de mestrado. E apesar de entender que um novo esforço seria preciso, quando me deparei com a realização do projeto dei logo conta de que escrever uma tese requer umas quantas skills na gerência do nosso tempo. Não escrevo estas linhas por considerar que as universidades não dão tempo suficiente para a tarefa, antes pelo contrário, quero incentivar os estudantes, que como eu, estão em ano de tese e orientar aqueles que, no futuro, pensam ingressar em mestrado, mas têm receio de patinar no último ano.



Dica número 1: Começar a pensar no tópico de investigação logo no início do primeiro ano de mestrado:

Já no final do primeiro ano de mestrado nos temos de decidir num tema geral para a redação da dissertação e sim, pode parecer sobrecarga começar a fazer essa escolha logo no início do curso, mas a verdade é que, quando chegar a hora de preencher os requisitos para a seleção do orientador, optar dentre um rol de um ou dois tópicos fica muito mais fácil do que começar do zero sem ter nenhuma ideia do que se quer fazer, o que contribui para um início atribulado e ansioso. Essa escolha pode não ser definitiva, não há problema em alterar o tema um pouco mais tarde, mas tem de ser tudo feito com antecedência e boa ponderação para evitar perdas de tempo e claro, o tema escolhido não pode ser muito desviado do que será o definitivo.

Dica número 2: Começar a inteirar-se da matéria que se irá estudar durante o verão para consolidar o tema ou decidir um outro a ele relacionado:

Todos gostamos do nosso tempo livre e de férias. Eu, pessoalmente, e apesar de gostar do calor e da energia que este traz, fico aborrecida se não tiver nada para fazer. Acho que qualquer pessoa dá em doida caso não haja nada que sirva de estímulo físico ou mental. Não aproveitei o verão passado para começar a pesquisa e, não podendo dizer que estou arrependida a 100%, também não posso negar que me teria dado algum jeito para os dias de hoje. Quando em setembro se dá o choque de ter de perceber o que de facto queremos com o nosso projeto, só a ideia de ainda não ter nada preparado pode parecer um peso enorme nos ombros, pelo que ter uma confiança extra vai merecer a pena. É óbvio que não é necessário marrar o verão inteiro ou fazer tudo o possível nesses três meses, mas dedicar uma ou outra horinha por dia também não fará mal a ninguém e trará resultados incríveis.

Os estádios iniciais da tese, e que ocuparão a maior parte de todo o processo, serão a definição da metodologia e de uma estrutura. Uma vez passada essa fase o resto é muito mais célere e proveitoso em termos de motivação. Os primeiros momentos serão maioritariamente de muito trabalho e de sensação de não ter saído do sítio. O que é completamente normal e costume em qualquer área.

Dica número 3: Esclareçam as vossas incertezas e dúvidas ao orientador

Como qualquer estudante, senti mais e menos motivação ao longo deste ano. E é com pena que digo que vai haver momentos em que não sentimos confiança em nós próprios nem no orientador. Existe um ambiente – pelo menos eu sinto isso, claro que cada caso é um caso e nem sempre é assim – em que os estudantes e os professores não encaram as aulas como se fosse uma espécie de convívio social e profissional onde a partilha de interesses e histórias é produtiva para o que será a pragmática de quem trabalhará na área. Uma boa relação docente-aluno trará uma maior disponibilidade para a orientação, quer por parte do professor, quer por parte do estudante, sendo que o primeiro terá maior margem para se adaptar às exigências de cada orientando e o último, sentindo-se mais confortável para partilhar certas dúvidas e quês que poderão ser facilmente eliminados, mas que parecem quebra-cabeças sem solução. De entre as dúvidas que podes esclarecer logo na primeira sessão de acompanhamento prendem-se com a metodologia do orientador, já que cada um tem a sua e podem divergir substancialmente a ponto de a dinâmica orientador-orientando não funcionar. Assim preparas-te para a eventualidade de ter de conversar com o professor para adaptar a estrutura de trabalho prático às tuas necessidades e expectativas. Previnam-se para não se sentirem sozinhos e com uma vontade imensa de deixar a tabela dos agradecimentos em branco.

Dica número 4: Quando não conseguirem concentrar-se no projeto, esqueçam-no por momentos:

Nesses altos e baixos que cruzarão o vosso caminho é importante manter a calma e saber distinguir momentos produtivos de instantes de angústia que só paralisam o trabalho todo. Quando a ansiedade e o stress me começam a atacar costumo parar tudo o que estou a fazer e apenas dedicar-me a coisas prazerosas como ver séries ou filmes, ouvir música, passar umas horas com jogos, ler livros muito distantes do objeto que estou a investigar – que no meu caso em especial é Almada Negreiros. Não só me sinto mais motivada para continuar o meu trabalho como aumenta a capacidade de resolução de situações de bloqueio ou, novamente, de dúvida para com todo o projeto. O importante é a dedicação a outras atividades que ajudem a aliviar momentos de “fraqueza” emocional (e digo fraqueza quando na realidade quero dizer inteligência emocional. Mas acho que nos entendemos assim.) Ocupações como um part-time também são bem-vindas para o conhecimento do mundo do trabalho (dentro e fora da área que estudam), motivação financeira extra ou ajuda para o pagamento de propinas, naquele que pode ser um alívio significativo para os vossos pais. Trabalhar por conta de outrem também vos auxilia a manter um horário de sono regulado visto que obriga a deitar e a levantar cedo, algo que, confesso, me é difícil por conta própria e ainda é dos maiores desafios que enfrento.

Ocasionalmente, mudar de lugar e ambiente de trabalho – nem que seja do quarto para a sala ou da sala para a cozinha – também ajuda a manter o foco.

Dica número 5: Mesmo que se sintam incapazes de expor os resultados da investigação, escrevam qualquer coisa:

Ao iniciar a escrita de um novo capítulo tenho sempre em conta que o mais complicado é, precisamente, começar a redigir o texto. Há sempre uma certa relutância em pôr a pesquisa no papel por acharmos que não é o suficiente para uma boa exposição. O que é também verdade, é que assim que temos uma ou outra frase, as restantes vêm por acrescento e fica mais simples explicar os conteúdos quando já temos o pano da manga, nem que esteja todo ratado. É mais eficaz cozer os bocados de texto e eliminar incoerências e frases mal feitas do que adiar constantemente o tecer e acabar por sucumbir à pressão.

Dica número 6: Criem metas e objetivos com regularidade:

Um pouco na sequência da dica anterior, ao redigir um capítulo para a tese tenho sempre metas que cumpro rigorosamente – e até gosto de testar as minhas competências em quebrar os recordes e fazer mais do que peço a mim própria. Como me é pedido um mínimo de 70 páginas e um máximo de 120 (sem bibliografia) o rigor que imponho serve para assegurar que sou célere a expor a pesquisa enquanto ela está fresca, assim como ganhar o máximo de tempo possível para a revisão – que na realidade vai ser mais que muitas revisões, algumas delas no mesmo dia. E muitas vezes, acabo por pensar em escrever 3 páginas por dia e termino por redigir 4 ou 5.



Dica número 7: Mantenham um esquema à parte, em word ou papel, para melhor se guiarem e para também não olvidarem um ou outro ponto importante(s) para a sequência do trabalho

É fácil perdermo-nos em tanta página e em tanto tópico. Para não esquecer matéria ou deixar de fora pontos e esclarecimentos importantes, manter um caderno (digital, físico ou até ambos) sempre atualizado é imprescindível para uma organização coerente na estrutura da investigação e para o resultado final da tese.

Dica número 8: Caso um ou outro objeto de investigação não esteja a surtir efeitos práticos e teóricos para a tese, avancem para outros:

Sempre que um livro e artigos científicos não contribuem para a investigação em curso, o melhor é deixá-los para trás. Assim fiz com uns ou outros, ao longo do meu percurso e posso dizer que motiva o trabalho futuro e deixa de atrapalhar o método presente. Apenas assegurem-se que na bibliografia se mantém sinceros nas obras que divulgam, por que primeiro, mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo e depois, por que se irão sentir culpados por crédito que receberem sem o devido
merecimento.

Dica número 9: Trabalhem ao vosso ritmo:

Pode parecer um pouco paradoxal estar a dizer para quebrarem as vossas próprias metas e depois dizer para respeitarem o vosso ritmo, mas tem o seu sentido. Cada um é como cada qual e o ritmo de uns não é o de outros. Pode-se sempre escrever 4 páginas quando se estipulou inicialmente 2, mas quando sentirem que não vos apetece fazer mais nada durante o resto do dia, sucumbam aos vossos instintos e vão divertir-se. E se virem um colega a terminar a tese primeiro que vocês, não entrem em pânico. Por vezes, rapidez não é sinónimo de um bom trabalho, mas isso é lá com eles. Certifiquem-se de que apresentam uma investigação com rigor e cientificidade in pack na vez de quererem tudo feito num só dia. Caso o orientador proponha prazos – nem todos o fazem – que julgam que não podem cumprir, peçam sem pudor um alargamento.

Dica número 10: Caso não esteja a ser produtivo ou se se sentirem pouco realizados desistam e tentem no próximo ano:

Em casos extremos, ponderar continuar ou parar de escrever a tese provisoriamente pode fazer a diferença. Sei de colegas que não se estavam a sentir realizados com a pesquisa, nem com o tópico de escolha por considerarem que não os engrandece a nível pessoal e/ou profissional e que decidiram tentar novamente para o ano. E está tudo bem com isso. Por vezes, desistir também nos ajuda a encontrar o ritmo de que precisamos e usar o tempo que resta para encontrar a nossa vocação é importante para o nosso caminho académico.

Dica extra: É uma boa experiência assistir a apresentações de teses para se planear com maior eficácia a nossa, até porque como será possível explicar por breves palavras um trabalho que durou o ano inteiro e que tem como extensão 120 páginas de investigação pura e mais de 10 de bibliografia?

Tudo o que aqui fica registado é pura e simplesmente opcional. Cada um faz as suas escolhas, tem os seus métodos e sabe como reagir às situações de maior indecisão. Mas penso que são dicas importantes e que podem surtir efeito. Não tenham medo de patinar, por que patinar faz parte. Ajuda a autoconhecer-nos e a lidar com situações de stress e ansiedade extremos.

O certo é que este texto já vem um pouco atrasado, estamos em finais de Maio e as dissertações neste momento já devem estar bem encaminhadas, mas só poderia falar deste assunto tendo a minha experiência por base. De qualquer dos modos ainda é útil para finalistas e futuros mestrandos. E não se esqueçam que podem entregar as provas até setembro, se não caio em erro e se a lei for geral para qualquer universidade do país. Tudo se resume, portanto, a autoconfiança, adaptação, equilíbrio e autoconhecimento.

Gerência de tempo e gerência emocional não são o mesmo, mas podemos concluir que ambas se inter-relacionam. Boa sorte a todos e espero ter ajudado.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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