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Quando entrei em Direito há dois anos atrás, não conhecia ninguém no curso. Não tinha nenhum irmão, prima, avô, amiga do secundário que tivesse seguido este caminho. Portanto quando entrei na FDUC não foi bungee jumping – foi queda livre. Tudo era novo e a forma de funcionamento da faculdade não tinha absolutamente NADA a ver com o que tinha conhecido até ali. Os truques e as dicas que agora partilho convosco foram aprendidos com o tempo, com as cabeçadas, com os erros. É certo que todos os caloiros de Direito acabam sempre por dar algumas cabeçadas quando entram no curso – é inevitável. Mas digamos que com estas dicas quero que pelo menos em vez de se lançarem de um penhasco em queda livre como vieram ao mundo, levem umas braçadeiras para não se afogarem mal mergulhem no oceano do quid iuris.

O foco principal que vou desenvolver é direcionado para os resultados académicos – quanto à vida académica a experiência ensina-nos sem que sejam precisos guias de sobrevivência desenvolvidos.

Estas dicas que agora partilho foram especialmente pensadas para alunos de Direito da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. No entanto, muitas delas são transversais para qualquer faculdade de Direito e mesmo para qualquer curso. Espero que possam ajudar!  



1. Esboça os teus objetivos.

Vamos começar por aqui: já sabes o que queres fazer com o curso no futuro? Ótimo! Então já terás uma ideia geral de como será a concorrência nessa área. Isso poderá desde já ajudar-te a ter uma ideia das notas que precisas de alcançar para o teu currículo se destacar – ainda que as notas não sejam tudo! Mas já vamos falar disso mais à frente.

Ainda não sabes bem o que queres? Calma! Não é o fim do mundo. Mas não te esqueças que o facto de teres todas as opções em aberto só faz com que os teus objetivos ainda se devam virar mais para as notas altas e não para o 9,5. Afinal seria péssimo decidires no fim do curso que a tua paixão são as organizações internacionais ou a magistratura e concluíres que a tua média está nos 11,23.

2. Agarra-te aos teus objetivos.

Não basta fazeres planos megalómanos de arrasar nas pautas de todos os cadeirões do curso. Não é novidade nenhuma que Direito não é um curso fácil – vai exigir esforço, sacrifício, noites mal dormidas (e não necessariamente porque ficaste a estudar mas antes pela ansiedade brutal de um exame ou oral no dia seguinte), vai exigir que uma vez ou outra tenhas mesmo de abdicar daquela saída com os teus amigos, vai exigir que tenhas a capacidade cair no fundo do poço mas que consigas aproveitar os pés no chão para dar o impulso de regresso à superfície.

3. A faculdade não é o secundário.

Eu sei. Só paleio. Tu acabaste o secundário com 18 quase 19, como é que alguém com uma média dessas poderia ir-se assim tanto abaixo como dizem? Duvidas muito. Ou então só acontece aos outros. 

Em resposta a esse pensamento deixa-me contar-te sobre uma conversa a que assisti o ano passado enquanto esperávamos a nossa vez para a oral de Direito Internacional Público I. Dois rapazes discutiam o quão se tinham arrependido de terem entrado no curso com esse mesmo pensamento. Ambos entraram com médias de 18 – um tinha tido 19 na prova de ingresso! Agora ali estavam, ambos com 10, a tentarem melhorar a nota em oral. Ambos subiram para 12.

Não ficaste convencido/a? E se eu te disser que 90% dos alunos das listas de 3% melhores alunos que entram com as melhores notas no curso, vindas do secundário, desaparecem das listas dos 3% melhores alunos do curso no ano seguinte (o primeiro de faculdade)? Esquece o espírito de estudar na véspera – não vai resultar como resultava. Se persistires nessa lógica, nenhuma destas dicas te vai salvar de caíres de chapa em pleno oceano de quid iuris. 

4. A pauta não acaba no 20.

E não, não é por ir até ao 21. É porque acaba no 15, 16 ou 17 (raro). Isto faz com que tenhas de readaptar os teus conceitos de “boa nota”. Se tinhas um 16 no secundário e ficavas a pensar “queria mesmo era o 18”, agora quando tirares 16 prepara o champanhe e convida toda a freguesia para festejar. 

É que se não fizeres esta readaptação sujeitas-te a sérias desilusões e desmotivação profunda. 

5. Não te contentes com pouco – vai às orais de melhoria!

Há certas cadeiras que, em exame escrito, “bloqueiam” num determinado valor da pauta. Nem sempre significa que a cadeira não vai além daquilo em notas. Significa apenas que alguns professores guardam os 16 ou os 17 naquela cadeira para as orais de melhoria. “As notas fazem-se nas orais”, dizia-nos uma sábia professora no primeiro ano. E isto aplica-se não só para os ambiciosos que querem os 16 e 17 como para quando tiveste 10 ou 11. Lembras-te do pesadelo que te falei que poderá ser chegares ao fim do curso e descobrires que o teu 11 e poucos está a anos luz de te abrir um caminho para a área que queres? Não arrisques.

E por falar em orais…

6. A pior oral é a primeira. 

Já diz o povo que a primeira vez corre quase sempre mal, não é? Com as avaliações orais é a mesma coisa.

Pode soar assustadora a ideia de teres um professor a avaliar cada palavra, cada gesto teu. Pode ser intimidante a forma como te olha. O relógio parecia que tinha parado na minha primeira oral. A professora insistia no silêncio quando eu não sabia alguma pergunta, sem passar à frente. As brancas mentais sucediam-se umas atrás das outras. Felizmente a minha teimosia fez com que não desistisse das orais. O resultado foi que as orais já me chegaram a subir 2 valores na média total de um semestre. Fora os colegas que vi subirem 8 valores numa oral. Acredita: vale a pena. Já para não falar que o sofrimento partilhado por todos os que aguardam para a oral faz desta uma oportunidade ÓTIMA para conhecer pessoas novas. 

7. Não deixes que os teus primeiros resultados definam o teu percurso académico.

Isto se forem maus, claro. Não é porque a tua primeira nota numa frequência da faculdade foi um 11 que esse terá de ser necessariamente o percurso que vais seguir pela licenciatura fora. Quando te digo para não vires de peito feito, tal e qual um pavão emproado saído do secundário, também não quero que venhas com baixo astral. Se entras no espírito de achar que é difícil, que não consegues, que os outros devem ir à bruxa para conseguirem notas altas… aí é garantido que não vais conseguir mudar esse percurso de contentamento básico com o mero 9,5. Mais uma vez: se chegaste ao fundo do poço aproveita os pés no chão para dares o impulso que precisavas para voltar à superfície.

8. Os professores não mordem.

Eu sei, muitos parecem intimidantes. Muitos SÃO intimidantes. Seria irreal dizer que todos os professores são ótimas pessoas para além das aparências – não, não são. É óbvio que há gente com a mania da superioridade em todas as profissões e existem bastantes nessa situação em Direito. MAS não são todos. Muitos ainda se lembram bem dos medos, hesitações, dúvidas e inseguranças que existem do lado de cá. Muitos esforçam-se verdadeiramente por ajudar e por mudar o espírito de distanciamento professor-aluno. Se não te sentes confortável em colocar as tuas dúvidas na aula, pondera seriamente a hipótese de enviar um email. O pior que pode acontecer é ficares sem resposta, mas nunca vi nenhum fim do mundo devido a isso. E mesmo aqueles que parecem mais intimidantes… podem surpreender-te pela positiva. Digo-te por experiência própria.

9. Vai às mostras de prova.

Depois de lançadas as notas, é frequente os professores marcarem uma hora para mostrarem os enunciados dos exames aos interessados. Se és daqueles que acha que vai demorar 5h à espera, estás enganado. Infelizmente a maioria não liga às mostras de prova – o que faz com que de uma turma de 200 pessoas apareçam 4 ou 5 na mostra de provas. Mas a verdade é que é uma excelente oportunidade de falares num 1 para 1 com o professor que corrigiu e partilhares quais as tuas dificuldades nas respostas – às vezes não tiveste uma cotação maior não por não saberes a matéria mas sim por não saberes que era suposto abordar a questão numa outra perspetiva que não a que abordaste. Sobretudo nos primeiros tempos, é fundamental para perceberes COMO responder às perguntas.

Mas…

10. As mostras de prova não servem para o/a professor/a te mudar a nota.

Se tencionas ir chorar por aquelas décimas que faltavam para o 9,5, podes chorar todo um rio paralelo ao Mondego que vais ficar na mesma. O que não significa que uma ida à mostra de prova não te leve a concluir que o/a professor/a se enganou a somar as cotações dos grupos e que afinal tens um valor a mais do que pensavas. Mas isto é raro. A principal utilidade das mostras de provas é a que te disse no número anterior.



11. Opta pelas avaliações repartidas.

Pode ser um conselho polémico para muita gente. A avaliação por exame, como o próprio nome indica, implica um exame no final do semestre com a matéria toda. A matéria é dividida em duas partes e tens uma frequência a meio do semestre com a primeira metade e outra no final com a segunda. A grande desvantagem é o tempo – apenas 1h – para resolver as frequências. Mas acredita que ajuda muito a “aliviar” a época de exames – e se há coisa que ela agradece é tudo o que sejam “alívios”.

Ah, mas nem todas as cadeiras oferecem esta opção – daí que seja importante aproveitar as que o fazem.

12. Organiza um plano de estudo realista.

Vamos ser sinceros: eu até podia recomendar-te que mantivesses sempre a matéria das aulas em dia mas sabemos que é difícil que venhas a pôr isso em prática (ainda que idealmente o devesses fazer!). Portanto o que eu te recomendo é que estudes um pouco todos os dias para no final do semestre não teres todo um universo de matéria para descobrir pela primeira vez. 

13. Vai às aulas.

Acredita: a maior parte delas será útil para a maior parte dos alunos. 

Existem aquelas pessoas que precisam de ouvir a matéria na voz do professor uma primeira vez para depois a compreenderem em casa. Existem outras que sentem que também sabem ler PowerPoints e que portanto certas aulas são inúteis – ainda que possas ter surpresas mesmo nessas aulas, com explicações que envolvem detalhes importantes para o exame. Certo é que não saberás se te enquadras num ou no outro tipo de pessoas indo a apenas uma aula de cada cadeira no início do semestre. Não desistas à primeira: vai a uma, duas, três, quatro. Até porque as aulas também são ótimas para conheceres colegas.

14. Não sejas egoísta – partilha!

Ninguém faz o curso sozinho – não te convenças que não vais precisar de ninguém. Troca apontamentos com colegas, às vezes pode acontecer que tenham apanhado detalhes que não ouviste. E acredita: não há melhor que poderes tirar dúvidas com amigos e trabalharem em equipa para todos melhorarem. O curso oferece-te a oportunidade de criares uma rede de contatos espalhados pelo país e acredita que não é sendo uma batata egoísta e egocêntrica que as pessoas te vão querer incluir nessas redes.

Mas também não sejas demasiado ingénuo – muitos vão-se aproximar de ti por interesse. Desses não precisamos.

15. Não sejas demasiado competitivo.

Sabes aquela sensação de felicidade de “Tive 15!!!!” logo seguida de um “mas o João teve 16… podia ter tido 16 também…”? Esquece, isso só te vai fazer mal. E acredita que a tua saúde mental já tem suficientes ameaças com todo o stress e pressão que o curso te vai pôr em cima.

O que, obviamente, não impede que uma competitividade saudável possa servir de estímulo para melhorares.

16. Dá preferência aos livros.

Provavelmente vais ouvir quem te diga que estudar por sebentas é a melhor opção. Depende.

Voltamos à pergunta com que comecei: quais são os teus objetivos? Se pretendes apenas fazer a cadeira e seguir a tua vida com o 9,5, então a sebenta é uma boa opção e o plano A. Tendem a simplificar a matéria e a esquematizá-la com base no que é mais fundamental. Mas escolhe BEM as sebentas, certifica-te que são confiáveis – algumas chegam mesmo a ser postas a circular com erros propositados. 

Já se o teu objetivo são uns valores acima na pauta, então as sebentas devem ser um complemento e o livro o plano A. Leste alguma coisa que não entendeste no manual? Dá uma vista de olhos em duas ou mais sebentas (para teres vários pontos de vista para comparação) para tentar esclarecer a dúvida. Isto porque as sebentas tendem a ir diretas ao assunto, a ter apenas os básicos. E a verdade é que…

17. Os detalhes são importantes.

Tanto nas orais como nos exames escritos – mas sobretudo nas orais. Acredita que a diferença entre o 16 e o 17 está nos pormenores, naqueles detalhes da matéria aos quais ninguém liga – alguns deles escondidos nas notas de rodapé. Se te passar pela cabeça a pergunta “será que isto é preciso saber?”… se queres uma nota alta, é bem provável que a resposta seja “sim, convém saber”. 

18. Não respondas só ao que te perguntam.

Mais uma vez, é uma dica sobretudo para as orais. Com isto não quero dizer que deves falar de cebolas quando te perguntam sobre os pinguins da Antártida. O que quero dizer é que se te perguntarem sobre os pinguins, não hesites em aprofundar o que sabes sobre os pinguins. Não hesites em acrescentar que sabes que os machos chocam os ovos, não hesites em complementar com algum entusiasmo que podes falar um pouco sobre os rituais de acasalamento. Mesmo que te tenham perguntado apenas se sabes o que é um pinguim. Mas ÓBVIO – aprofunda o que sabes apenas DEPOIS de dizeres o que é um pinguim.

19. Não digas que não sabes alguma coisa numa oral.

Não cometas uma tal heresia. A primeira estratégia, como costumo dizer, passa por contornar a situação. Okay, perguntaram-te como fazer uma sopa e tu não sabes. Mas sabes que a sopa leva couves. Diz isso mesmo. Aliás, tu de couves até entendes qualquer coisinha. Subtilmente, fala um pouco sobre as couves. Isto, claro, se for um ingrediente da sopa. Se tiveres sorte, o foco direciona-se para as couves e deixam a sopa. Se tiveres azar, voltam à sopa. Se tiveres muito azar, relembram-te que a pergunta é sobre a sopa e não sobre as couves. O plano B será um subtil “creio que não me estou a recordar”. Lembra-te: tu sabes, só não te recordas.

20. Dorme!

Esquece essa estratégia de perder noites de sono para estudar e virares um zombie no dia seguinte. Acredita que o sono é ÓTIMO para o cérebro solidificar matéria. Vais acabar por te surpreender quando depois de algumas leituras noturnas acordares na manhã seguinte a saber aquilo que leste na noite anterior. 

Bónus: As notas não são tudo.

Se depois de seguires todas estas dicas ainda assim não conseguires os resultados que sonhavas, lembra-te que não está tudo perdido. Existem outras formas de destacares o teu currículo pela positiva. Envolve-te em atividades extra-curriculares, desde moot courts a associações de estudantes: o NED (Núcleo de Estudantes de Direito) e a ELSA (European Law Students Association) são ótimas opções mas existem muitos outros grupos espalhados pelo país. Conhece a oferta desportiva da tua universidade, pede ajuda a um professor para dares os primeiros passos na investigação, participa nas atividades ligadas a estágios de curta duração, experimenta as visitas de estudo. O mundo universitário está cheio de oportunidades. Aproveita-as da melhor forma!

Se ainda assim te sentires perdido neste mundo FDUCquiano, sente-te à vontade para me enviares mensagem via Instagram para @diogo.adler

Boa sorte!

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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