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Como estudante de medicina, ontem fiquei de boca aberta com as declarações do Sr. Ministro do Ensino Superior em querer abrir mais vagas do curso de medicina ou abrir universidades privadas, como seria o caso da Universidade Católica, a Universidade de Aveiro e Évora. De tal modo, quis dar um parecer de um estudante de medicina.

1ª Razão- A criação de mais médicos básicos não significa que teremos mais médicos no nosso país. A principal razão para isso é que no final do curso de 6 anos, os alunos fazem um exame para a especialidade. Neste exame quem tiver as notas mais altas pode escolher a especialidade que quer enquanto os restantes alunos tem que escolher as especialidades que não foram escolhidas pelos primeiros. Até aqui tudo bem, o problema é que segundo o jornal Público cerca de 1200 estudantes nem sequer puderam escolher qualquer especialidade, porque não havia vagas. Destes estudantes, grande parte vai para o estrangeiro, porque ser médico sem especialidade em Portugal é um trabalho que não é muito suportado pela ordem ou pelos hospitais e por isso ninguém quer ficar sem especialidade. Por isso quanto maior for o número de estudantes de medicina, maior é o número de médicos sem especialidade formados. Isto resulta que basicamente estamos a formar médicos, para eles irem para o estrangeiro completar a sua formação. Muitos deles nunca voltam porque no estrangeiro são muito bem tratados.



2ª Razão- Maior número de estudantes de medicina vai fazer com que as condições de ensino piorem muito. Porquê? Porque, o curso de medicina nos últimos anos de formação é muito prático. Na minha turma existem cerca de 13 alunos, e quando vamos a um paciente por exemplo para auscultar, muitas vezes os pacientes não nos querem lá por sermos um número tão grande. E também os pacientes não aceitam muito bem serem auscultados por 13 alunos de seguida. Se as condições já são assim no regime normal, imagine-se se aumentassem em 20% o número de alunos.

3ª Razão- As faculdades privadas só beneficiariam os alunos mais ricos com menores notas. A verdade é esta, 10 mil euro por mês não é possível de suportar para grande parte das famílias portuguesas. Em geral as faculdades privadas só iriam beneficiar uma pequena parte da comunidade. Eu sou estudante de medicina no estrangeiro (na Letónia) e eu posso verificar que a maioria dos alunos portugueses que vieram comigo tirar o curso numa faculdade estrangeira não tem capacidade de fazer o curso, embora tenham muito dinheiro. As taxas de drop out são gigantes.

Dos 11 alunos que vieram comigo estudar em 2016, apenas 6 sobreviveram aos primeiros 4 anos sem reprovar, e dos que reprovaram pelo menos um ano, grande parte desistiu do curso. Isto significa que grande parte dos alunos que as faculdades privadas iriam aceitar, simplesmente não estariam preparados para o curso de Medicina.

Nesse caso qual é a solução?

Para termos mais médicos em Portugal precisamos de aumentar o número de vagas de especialidade. Se isso acontecesse, os 1200 médicos que não tiveram acesso às especialidades em 2019 teriam ficado grande parte em Portugal.

Mas como se aumenta as vagas de especialidade?  Simples. Tomam-se  medidas para atrair mais médicos especialistas a formar os médicos recém-licenciados. Mas para isso acontecer tem que se melhorar as condições profissionais dos médicos no serviço publico. Desta forma, seriam atraídos mais especialistas do serviço privado e eventualmente especialistas do estrangeiro que poderiam assim formar os médicos acabados de se licenciar. Este é o único método para se ter mais médicos especialistas em Portugal. Caso contrário, se apenas aumentarmos as vagas de medicina, apenas estamos a formar médicos para o estrangeiro.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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