4 Mitos sobre a Educação em Portugal à Luz dos Dados

Foto de deagreez1 | Depositphotos.com

A educação é um dos temas que mais acende debates em Portugal. Seja no jantar de família ou nas redes sociais, ouvimos frequentemente frases feitas sobre o (des)valor dos diplomas ou o desinteresse dos jovens pela escola. Muitas destas perceções acabam por se tornar “verdades absolutas” sem que ninguém as questione.

Mas o que dizem os números? Com base nos indicadores do EDUSTAT, analisamos quatro mitos comuns e mostramos que a realidade é, muitas vezes, bem diferente da narrativa popular.

 

Mito #1: “Quem tem um curso superior ganha o mesmo ou acaba no desemprego”

Este é, talvez, o mito mais perigoso, pois pode desmotivar quem pondera prosseguir estudos. No entanto, a evidência é esmagadora: estudar compensa.

  • Salários: Em 2023, quem tinha uma licenciatura auferia, em média, 2.155€ mensais. Comparativamente, quem ficou pelo ensino secundário ganhava 1.294€ e quem tem apenas o 3.º ciclo ficava-se pelos 1.144€.
  • Empregabilidade: Ter um curso superior continua a ser o melhor “seguro” contra a inatividade. Em 2024, a taxa de atividade (população entre 25-64 anos) no ensino superior foi de 94,5%, contra apenas 76,1% no ensino básico.

Conclusão: O ensino superior não garante o sucesso absoluto, mas continua a ser o principal motor de valorização salarial e estabilidade profissional em Portugal.

Mito #2: “Investir num mestrado não compensa”

Há quem defenda que o mestrado é apenas “mais do mesmo” sem retorno financeiro. Os dados dizem o contrário. Em 2023, o salário médio de um mestre era de 2.377€, o que representa um acréscimo de cerca de 10% face à licenciatura.

 

A diferença é ainda mais gritante nos jovens (25-34 anos):

  • Os jovens com mestrado ganham, em média, mais 29% (cerca de 397€/mês) do que os licenciados da mesma idade.

Este “prémio salarial” sugere que o mercado de trabalho português valoriza a especialização crescente, especialmente nas fases iniciais da carreira.

Mito #3: “Os jovens já não querem estudar e estão a desistir da escola”

Embora se fale muito de uma crise de motivação, os números mostram uma evolução positiva na última década. É verdade que houve um ligeiro aumento de retenções após a pandemia, mas o panorama atual é muito melhor do que o de há 10 anos.

 

Taxa de retenção/desistência no Secundário:

  • 2013/14: 18,5%
  • 2023/24: 9,6%

Embora o 12.º ano continue a ser o maior desafio (com 12,3% de insucesso) e os rapazes continuem a apresentar taxas mais elevadas, os dados não sustentam a ideia de um abandono escolar em massa ou de um desinteresse generalizado.

Mito #4: “As quotas para alunos carenciados não fazem diferença”

Muitas vezes discute-se se as medidas de ação social no acesso ao Ensino Superior são eficazes. No ano letivo 2023/24, apenas 43% dos alunos elegíveis utilizaram o contingente prioritário para o escalão ASE-A. À primeira vista, parece um número baixo, mas o problema não é a eficácia da medida, mas sim o acesso à informação.

O impacto real:

Quando utilizada, a medida é transformadora. O contingente prioritário para alunos com escalão A aumentou em 10 pontos percentuais a probabilidade de admissão no ensino superior público. O desafio não é a utilidade da quota, mas garantir que os alunos saibam que ela existe e que tenham condições financeiras para se manterem no curso.

Notas Finais

Os dados do EDUSTAT ajudam-nos a ver além do ruído. A educação em Portugal enfrenta desafios reais, desde a desigualdade de género no insucesso escolar até à literacia sobre apoios sociais, mas os indicadores confirmam que o caminho do conhecimento continua a ser o mais seguro para o desenvolvimento pessoal e financeiro.

Artigo escrito com base nos indicadores disponíveis no portal EDUSTAT.