Maria Moreira Rato (M.M.R.): Fala-nos um pouco do teu curso, em que consiste e quais são as suas saídas profissionais.

João Cardoso (J.C.): Sou licenciado em Economia e o curso consiste em perceber como é que os diferentes agentes económicos (empresas, bancos, governos…) se comportam e influenciam os mercados onde se encontram. As principais saídas profissionais são as agências governamentais como Bancos Centrais ou empresas privadas como seguradoras e consultoras.

Mariana Mourão (M.M.): O curso que escolhi para a minha licenciatura foi Economia, no ISCTE. É um curso que nos dá uma visão geral da área no primeiro ano e que foca vertentes da Economia mais específicas no decorrer dos semestres seguintes.
Por fornecer bases económicas, matemáticas, históricas, financeiras, de gestão e de trabalho de pesquisa e em equipa, acaba por ser muito abrangente e permitir saídas muito diferenciadas.
Acabei por me desviar um pouco do seu cerne ao decidir-me pelo Mestrado em Marketing, que frequento atualmente, mas é também essa uma das suas grandes vantagens: a versatilidade.
As saídas profissionais passam pela área financeira, gestão de empresas, contabilidade, consultoria e estratégia, recursos humanos, marketing, diferentes políticas como monetária ou orçamental ou estatística.

Miguel Cardoso (M.C.): Estudo Economia na Faculdade de Economia do Porto (FEP). O curso de Economia contempla áreas bastante alargadas daquilo que chamamos economia.
São lecionados tópicos como o contexto da economia como uma ciência social, micro e macroeconomia, a história do pensamento económico, as suas perspetivas e desenvolvimento. Existem também cadeiras mais “praticas” e aplicáveis ao dia a dia, como contabilidade e relato financeiro, mercados e investimentos financeiros e mesmo marketing.
Como sou estudante do primeiro ano ainda não tive todas estas cadeiras, mas da perceção que fui desenvolvendo até agora, é um curso que, apesar de desatualizado em alguns tópicos, é completo e forma excelentes economistas.
As saídas profissionais do curso são vastas. Bem mais daquilo que achava quando ingressei no ensino superior. Desde consultoria até à área de marketing passando por auditoria e quase tudo o que se possa imaginar que um departamento financeiro de uma empresa necessite. E não só necessariamente de uma empresa, porque existem também carreiras no setor público, no estado português, no banco de Portugal ou mesmo na U.E.
Por outro lado, o curso dá-nos muitas ferramentas para criarmos a nossa própria startup.

M.M.R.: O que te levou a escolher o teu curso e que fatores tiveste em conta? Foi a tua primeira escolha?

J.C.: Durante o Ensino Secundário, a minha escolha inicial era Gestão. Contudo, quando estive a analisar os planos de estudos das universidades, não me identificava com os mesmos e considerava-os muito “superficiais”. Desse modo, e após falar com alguns conhecidos, descobri Economia e o programa era bastante mais apelativo! Perceber as diferentes interações entre os grandes e pequenos agentes económicos bem como as suas consequências era algo que eu considerava mais próximo do meu plano de vida para o futuro.

M.M.: Frequentei Economia no Ensino Secundário e estava satisfeita com a minha escolha. Gostava bastante de matemática, cálculos e lembro-me de ficar particularmente interessada pelo capítulo de Contabilidade Nacional. No entanto, como a maioria dos meus colegas, também hesitava entre Economia e Gestão e, portanto, experimentei um workshop disponibilizado pela Universidade Técnica no qual faziam a distinção entre as duas áreas e ajudavam na tomada de decisão. Depois da experiência, decidi seguir Economia.

M.C.: Foi a minha primeira escolha. Desde sempre que disse que estudaria Economia. Escolhi este curso porque sempre me interessou perceber como é que o mundo do dinheiro funciona, as estratégias das empresas e as finanças públicas. Para além disso é dos cursos com maior taxa de empregabilidade.

M.M.R.: O que é que te surpreendeu pela positiva e pela negativa?

J.C.: Pela positiva, o facto de serem ensinadas as diferentes teorias económicas que já influenciaram as decisões económicas dos governos, permitindo assim perceber o porquê dessas decisões no seu contexto histórico específico. Pela negativa, senti que certos aspetos se encontram desatualizados ou que não lhes é dada a devida importância em relação ao que acontece atualmente na vida económica mundial.

M.M.: Considerei importante termos uma componente de trabalho de grupo significativa em quase todas as unidades curriculares e de, no 3º ano, termos a possibilidade de escolher as cadeiras que melhor satisfazem as nossas preferências. Isso permite a cada aluno adquirir as aprendizagens com que mais se identifica e, ao mesmo tempo, contactar com alunos de outras licenciaturas e trabalhar com metodologias diferentes.
Para além disso, o ISCTE proporciona uma cultura de associativismo estudantil muito forte, que considerei bastante importante para o desenvolvimento de soft skills altamente relevantes e que já provaram ser um fator diferenciador no mercado de trabalho.
Ainda assim, gostava de ter tido mais casos práticos abordados ao longo dos meus estudos para contrabalançar a teoria.

M.C.: A coisa mais positiva não está diretamente relacionada com o curso mas sim com a faculdade. Na faculdade existe um ambiente organizacional.
O ponto negativo são as atuais instalações da FEP (contentores) e a desorganização dos testes, que começam sempre atrasados e que muitas vezes são demasiado longos para o tempo facultado.



M.M.R.: Como tem sido a experiência de frequentar o curso? O que é que te marcou/tem marcado mais?

J.C.: A minha experiência foi fantástica e correspondeu às minhas expetativas iniciais. Aquilo que mais me marcou foi o facto de os professores serem alguns dos principais conselheiros/economistas de Portugal e as suas opiniões poderem moldar toda a economia Portuguesa.

M.M.: Ao olhar para trás e para o meu percurso, o balanço que faço é positivo. Marcaram-me três anos inesquecíveis de espírito académico, onde predominaram bons relacionamentos tanto entre alunos como professores. Recordo dois anos de Núcleo de Alunos de Economia e as nossas diferentes equipas, que se juntaram vezes sem conta para organizar eventos e atividades para todos. Recordo jantares de curso e festas de pátio, amigos, praxe, fins de semana universitários e professores.

M.C.: A experiência é positiva, as aulas são interessantes e a maioria dos professores fogem ao estereótipo do professor universitário. São professores interessados e que preparam bem os alunos.

M.M.R.: Como descreverias a tua adaptação ao Ensino Superior? Quais foram/têm sido os teus principais desafios?

J.C.: Tive uma boa adaptação ao ensino superior e pude constatar que certos “clichés” de facto acontecem quando entramos na faculdade.
O principal desafio foi o sentido de responsabilidade, isto é, a tentação de não assistir a uma certa aula ou de deixar o estudo para outro dia levavam a uma luta diária para manter um sistema de estudo consistente.

M.M.: Acredito que foi uma adaptação fácil. Com o tempo e algum método qualquer um adquire o ritmo necessário para enfrentar o Ensino Superior com sucesso.

M.C.: A adaptação faz-se sem grandes problemas. O mais exigente é o ritmo de estudo porque, em termos de integração, existem imensos momentos para isso, por exemplo as diferentes organizações.

M.M.R.: Achas que o teu curso te prepara para o exercício da profissão, isto é, que adquires as principais competências que um profissional dessa área deve ter?

J.C.: Teoricamente sim, são fornecidas todas as ferramentas para pudermos trabalhar autonomamente e com confiança para esboçar uma opinião fundamentada. Contudo, certos desafios profissionais são impossíveis de prever ou mesmo preparar durante a universidade, pelo que apenas a “vida real” pode ensinar-nos nessa vertente.

M.M.: Tendo em conta que o curso tem um leque de saídas profissionais bastante versátil, acredito que seja necessária uma maior especialização após a sua conclusão para nos sentirmos verdadeiramente preparados para encarar o mercado de trabalho. No entanto, depois de algumas experiências que tive, tenho também vindo a observar que é no mercado de trabalho que se adquire a maioria das competências.

M.C.: O curso dá-nos boas bases para ingressar no mercado de trabalho sendo que é apenas uma base para aquilo que vamos aprendendo à medida que a carreira profissional evolui.



M.M.R.: Consideras o teu curso difícil? Se sim, porquê?

J.C.: Não. Tal como sempre, existem disciplinas que dão maior gozo para estudar do que outras pelo que, para balançar, as cadeiras “difíceis” e “fáceis” são sensivelmente o mesmo, segundo a minha perspetiva.

M.M.: Acho que é um curso acessível e exequível com a dose certa de método, organização e estudo. Os professores procuram estabelecer uma boa relação desde o início e são disponíveis, os alunos ajudam-se mutuamente e, em geral, a universidade disponibiliza os recursos necessários.

M.C.: Todo o curso à partida exige tempo, dedicação e motivação. É difícil gerir o tempo e o estudo mas tudo depende do empenho de cada um. O que mais dificulta o curso na FEP são as condições em que ocorrem os momentos de avaliação, na minha opinião.

M.M.R.: Quais são as tuas expectativas no que toca à entrada no mercado de trabalho?

J.C.: Apenas o Banco de Portugal me permitiria continuar a trabalhar de facto com a “economia”. A grande parte dos licenciados trabalha para bancos, consultoras, seguradoras, entre outros, onde o trabalho é mais de um gestor. Mas isso não deve ser mal visto, já que sempre permite obter novas experiencias profissionais que podem ajudar a compreender melhor a economia e as suas tendências no futuro.

M.M.: Considero-me bem encaminhada depois da minha formação no ISCTE. O mercado de trabalho reconhece o nome da instituição e o seu prestígio.

M.C.: Sinto que não é uma preocupação. O curso é muito reconhecido pelo mercado de trabalho.

M.M.R.: Pensas em prosseguir estudos, isto é, frequentar uma pós-graduação, um mestrado e/ou um doutoramento são opções que tens em mente?

J.C.: Sim, o mestrado. Apesar de ter adquirido ferramentas na licenciatura, atualmente, o segundo ciclo de estudos permite aprofundar os conhecimentos a um nível que não é possível numa licenciatura.

M.M.: Neste momento encontro-me a frequentar o Mestrado em Gestão com especialização em Marketing Estratégico. Tomei esta decisão porque queria prosseguir estudos e, uma vez que queria optar pela vertente de Marketing, considerei importante solidificar a minha formação.

M.C.: No primeiro ano é difícil responder a isso mas, atualmente, sinto que gostaria de trabalhar logo no final da licenciatura.



M.M.R.: Se soubesses aquilo que sabes hoje, farias a mesma escolha novamente? Porquê?

J.C.: Sim, completamente. O facto de conseguir perceber as movimentações e consequências num plano mais geral da vida económica é um desafio bastante estimulante e que me agrada.

M.M.: Esta é uma pergunta difícil, à qual não consigo responder exatamente com um sim ou não. Pensando de forma mais racional, teria sido talvez mais acertado optar por Gestão de Marketing, também no ISCTE, uma vez que foi esse o percurso que acabei por escolher mais tarde.
Por outro lado, talvez o meu percurso não tivesse sido o mesmo se o tivesse feito e Economia deu-me um conjunto de bases que continua a ser importante.

M.C.: Sim. A FEP é das melhores faculdades de economia do país e o que a torna tão boa são os seus alunos e as suas organizações que interagem com o mundo empresarial e desenvolvem muito a capacidade dos estudantes. Estando em duas organizações da FEP e sabendo o que aprendi até hoje, não mudaria a minha decisão de maneira nenhuma! Não há, pelo menos na região norte, nenhuma faculdade melhor nem com tanto associativismo.

M.M.R.: Que recomendações deixas aos próximos candidatos ao Ensino Superior?

J.C.: Uma das dúvidas perenes é se devemos escolher a universidade pelo curso que queremos seguir ou por manter o grupo de amigos do Ensino Secundário. Desse modo, o meu principal conselho (e algo que segui na minha altura de candidato) é que é preferível seguir o curso, visto que existirão muitas oportunidades não só de os encontrar de novo no futuro, mas também de ganhar novas amizades nesta nova experiência académica.

M.M.: Que se informem bastante bem acerca dos vários cursos à sua disposição, que visitem os dias abertos das faculdades para se aperceberem desde logo qual é o melhor fit, que façam perguntas a amigos e conhecidos, e que participem nos eventos que as faculdades organizam para os alunos do Ensino Secundário. Depois disso, não tenham medo da escolha que fizerem e aproveitem esta nova fase da vossa vida!

M.C.: Tentem perceber os vossos reais interesses. Escolham aquilo que os atraem e em que são bons. Quem tem potencial será um bom economista na faculdade em que estiver. Mas se queres economia, a FEP tem de ser uma opção para ti! E, nesse caso, investiga sobre as organizações que lá existem, como a FEP Junior Consulting, FEP International Case Team (FICT), o Experience Upgrade Program (EXUP), entre outras.

M.M.R.: O que dizem as tuas notas?

J.C.: Consegui acabar a licenciatura no patamar mínimo que defini a mim mesmo há três anos: 14 valores e tive ambos os extremos da positiva, desde o 10 arredondado até ao 18, o que reflete perfeitamente as disciplinas que achava mais interessantes. Apenas fico com a dúvida final de como é que uma nota baixa leva a média a cair fortemente enquanto as notas altas apenas a aumentam muito ligeiramente.

M.M.: Acho que, acima de tudo, dizem que fui capaz de encontrar o balanço certo.

M.C.: As notas não são tudo. As experiências que se vão vivendo com a FEP e com as organizações são quase tão importantes como o desempenho nas frequências. As minhas dizem que sou empenhado e que gosto daquilo que estudo.

João Cardoso é licenciado pelo Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, Mariana Mourão pelo Instituto Universitário de Lisboa e Miguel Cardoso é estudante na Faculdade de Economia da Universidade do Porto.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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