(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

Dedicado ao grande e especial Álvaro Espírito Santo que era uma grande inspiração e continuará a ser. (1996-2019). Que ilumines todos os Aspies com a tua força e determinação.

A minha condição não me define nem me limita. Isto é o que tento interiorizar todos os dias quando chego à faculdade.

Frequento o curso de GLAT (Gestão do Lazer e Animação Turística) em regime pós laboral na ESHTE. Tenho 22 anos, sou caloira e este é o meu primeiro ano na faculdade. Há outro facto interessante sobre mim, tenho Asperger. Para quem não sabe o que isso é, é uma Perturbação do Espetro do Autismo (PEA).

Depois de 2 anos e tal sem estudar decidi ir para a faculdade e seguir as normas sociais. Já um pouco tarde segundo algumas pessoas, mas aqui estou. Por acaso este não era o curso que queria, mas não digo que desgosto. Embora seja um curso muito prático e que envolve muita socialização e trabalho em grupo e exercício físico algo que abomino pois tenho bastantes problemas de coordenação (muitos derivados da tal síndrome de Asperger) e respiração e sinto imensa vergonha.



Quando entrei para o curso, o meu objetivo nem era admitir que tinha Asperger mas a ansiedade e a expectativa relativas à necessidade de orientação na faculdade, sei que não são incomuns e era tanta que tomei a  decisão de  procurar ajuda e obter o estatuto de Aluna com NEE. Devo-vos dizer que nunca antes havia sentido tanta necessidade que me ajudassem.

Para me integrar decidi ser praxada, mas a ansiedade e o descomforto que a praxe me causou eram tantos, que fui a metade do primeiro dia e nunca mais lá voltei. Comecei a sentir-me arrependida porque achei que seria desta vez que teria a vida social e a experiencia que sempre desejei. Embora bastante orgulhosa porque apesar dos 3 ataques de pânico que aquilo me causou eu fui e consegui aguentar. Mas se para uma pessoa sem problemáticas é complicado, então para mim ainda mais. Não quero relativisar atenção, até porque cada pessoa é diferente e sente as emoções à sua maneira. Mas os Aspies costumam ter mais dificuldades na socialização e costumam ser mais ansiosos.

Ao longo do 1º Semestre fui enfraquecendo digamos assim, tanto a nível mental como a físico, chegou ao ponto de ter de parar a meio e faltar às aulas e fazer uma pausa dos estudos e do trabalho. Nunca me senti tão desapontada e tão desiludida comigo mesma, porque achava que este seria o meu ano. Via os meus colegas que já estavam todos unidos e eu por ser “fraca” e não combater as minhas dificuldades continuava na mesma.

Felizmente tive a sorte de encontrar pessoas fantásticas na faculdade que me aturam e me apoiam e se preocupam acima de tudo. O brilho no rosto que senti quando uma colega minha mostrou interesse em falar comigo e me perguntou se faziamos um trabalho juntas, era tão grande que me senti feliz e não parei de sorrir durante semanas. Mas mesmo assim sinto que poderia ter feito melhor, mas sempre que tento socializar ou planeio mudar algo, acontece qualquer coisa que me bloqueia. Mas sinto a falta de sair e falar fora da faculdade e conviver como muitas pessoas que conheço fazem. Compreendo que eu também não seja a melhor pessoa para iniciar conversas ou até mantê-las, portanto acabo por me afastar. Para ser sincera olho para os meus colegas e sinto-me mal não com eles, mas comigo mesma, porque sei que conseguiria ser alguém de jeito se não tivesse medo de enfrentar o meu problema. Pode parecer estúpido mas esta não era a vida universitária que eu imaginava.

Muitas das vezes sinto vergonha de mim mesma e sinto que não pertenço naquele sítio e sinto uma ansiedade tão grande que só me apetece chorar. A faculdade em si já é tão avassaladora, com os trabalhos e as frequências e os exames. Dou graças ao meu estatuto porque sei que sem ele estaria perdida e agradeço aos meus professores por me ajudarem imenso, pois sei que consigo ser um pouco chata mas como é tudo tão assustador e o nervosismo apodera-se de mim e entro num estado de pânico preciso de ajuda e é sempre a eles que peço. Portanto queria aproveitar para agradecer aos docentes e funcionários da ESHTE por serem pessoas espectaculares e super pacientes e compreensivos comigo.

Gostaria também de mandar uma pequena mensagem a todos os estudantes tendo ou não Asperger, mas mais direcionada para os meus queridos Aspies.

“Nem todos os alunos com a nossa sindrome têm a coragem necessária para enfrentar as suas adversidades e os desafios que virão e como muitos deles não sabem como o fazer torna-se overwhelming. Mas lembrem-se que chegámos até aqui com ajuda ou não, estamos aqui mesmo sendo o que os outros chamam de “diferentes”. We are here, we are different get used to it. (Estamos aqui, somos diferentes, habituem-se). Confiem no vosso poder, não fiquem com medo da mudança e mesmo que se sintam ansiosos irão encontrar pessoas que vos irão apoiar, pelo menos eu encontrei algumas e continuo aqui. E lembrem-se que agora têm uma Aspie que vos irá apoiar sempre pois nós merecemos mais e nós somos pessoas como todos os outros, temos mais dificuldades, mas nós somos brilhantes. E como o Álvaro conseguiu chegar até ao mestrado nós conseguimos chegar até onde quisermos!”

Enquanto olho agora para o meu futuro , apercebo-me que vão haver decisões difíceis de tomar e situações complicadas de me adaptar e provas para superar, mas que isso tudo me fará ficar mais forte. E que irei conseguir!

Colabora!

Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

Gostavas de publicar um texto? Colabora connosco.