“Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa

Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não”

Esta é a toada: enquanto lerem este texto, tentem escutar, como uma espécie de pano-de-fundo sonoro, a inesquecível voz de Adriano Correia de Oliveira cantando “Trova do Vento que passa”, hino não-oficial da revolta estudantil de 1969.



Um ano depois de Paris, e do Maio de ’68, foi em Coimbra, a 17 de abril de 1969, que os estudantes se rebelaram.

17 de Abril de 1969. Dava um braço para lá ter estado: a chamar nomes, a agitar, a fazer o que fosse preciso (matar e aleijar pessoas não, que isso é chato) para enlamear o regime.

A Universidade de Coimbra inaugurava, nesse dia, o Departamento de Matemática.

A contestação dos estudantes estava em alta. A Universidade de Coimbra já havia refutado, em 1962, com a primeira grande revolta (a meias com Lisboa), o serôdio jugo salazarista.

A comitiva do presidente Américo Tomás, que chegara a Coimbra para presidir à inauguração, foi recebida com muitos protestos, com os estudantes usando as capas negras caídas.

Américo Tomás, já no interior do novo edifício, dirigiu-se a uma plateia composta por apoiantes, uma vez que o grosso dos estudantes ficou do lado de fora. No final do discurso de Tomás, o presidente da Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra, o Vimaranense Alberto Martins, que conseguira entrar na sala, subiu para cima de uma cadeira, de capa caída pelos ombros, e proferiu a famosa expressão:

– Em nome dos estudantes de Coimbra, peço a palavra.

Não lhe foi concedida. A saída da comitiva presidencial foi tumultuosa, sob um coro de impropérios e gritos de ordem.

Na sequência destes acontecimentos, Alberto Martins foi detido, sendo forçado a passar a noite na cadeia.

A 22 de Abril, oito estudantes foram suspensos e proibidos de assistir às aulas. A comunidade estudantil age, em força: A Assembleia Magna decreta luto académico e as aulas deram lugar a reuniões e debates.

A Associação Académica de Coimbra apresentou um documento intitulado “Carta à Nação”. Nessa missiva, pediu-se “uma universidade nova num Portugal novo”, sendo equacionada uma greve aos exames. Nem o risco de serem recrutados para a Guerra Colonial os demoveu Avançaram: mais de cinco mil votaram a favor do boicote. Cerca de duzentos anunciaram a vontade de realizar os exames.

A 22 de Junho, realizou-se, no Estádio do Jamor, a final da Taça de Portugal: Benfica- Académica. Lisboa, invadida por estudantes, vestiu a capa negra e segurou cartazes de protesto. O aparato policial era enorme. Os jogadores da “Briosa” entraram em campo com as capas caídas, em sinal de luto. Pela primeira vez, nenhum membro do Governo se fez representar. O jogo não foi transmitido pela RTP. O regime receava a exposição da crise.

Em Julho do mesmo ano, eram conhecidos os números oficiais do boicote: quase 87% dos estudantes haviam faltado aos exames. Elucidativo.

Muitos deles seriam forçados a abandonar os estudos, seguindo para África. Mas nem isso os calou. Os protestos contra a ditadura e contra a guerra colonial prosseguiriam até o regime cair de podre.

A minha homenagem, total, é para a memória e para a luta de toda essa geração de estudantes. Não foram poucos os que sacrificaram as suas vidas, de diferentes formas.

Têm todo o meu respeito.

NOTA: Precisamos, outra vez, de uma “universidade nova”. O caso mais recente, em termos de protestos, é o da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. O resto é um silêncio que roça o medo.

Desconfio que a universidade que temos, na generalidade, está muito em linha com o pensamento dos cerca de duzentos estudantes que ignoraram o boicote aos exames.

As Associações académicas são, presentemente, na sua generalidade, macias, culambistas e alinhadas. São manietadas, totalmente, pelos aparelhos do poder universitário. Especializaram-se em “queimas das fitas” e coisas do género (nas quais imperam a má música, o álcool e a estupidez). Enchedoras de chouriços, não passam disso.

“A necessidade aguça o engenho.”