Muitas das pessoas que seguem esta página são os futuros caloiros de 2017 e, como estamos em tempo de candidaturas, achei por bem partilhar a minha história que acredito que poderá ser a de muitas outras pessoas. Licenciei-me em Biologia na FCUL no ramo de Biologia Molecular e Genética. Hoje, adoro completamente aquilo que estudo e não me imaginava numa outra área. No entanto, nem sempre foi assim.

Tal como muitos alunos de Ciências e Tecnologias, eu também queria o tão ambicionado curso de medicina. Hoje, depois de ter terminado esta aventura que é a licenciatura, percebo que não podia ter estado mais errada na escolha da minha profissão. A verdade é que ao longo de todo o meu percurso escolar sempre pensei que para investigar e estar dentro da área da saúde “à séria” era só mesmo em medicina. Achei que a investigação, o descobrir a cura de certas doenças e perceber os mecanismos moleculares por de trás das mesmas era apenas uma das tarefas de alguns médicos e que, por isso, não me “safava” num outro curso. Não podia estar mais enganada. Acreditem ou não, esta confusão é bastante comum e ao longo do meu percurso académico tive o prazer de ter professores excelentes e super influentes na área que me mostraram o quão errada eu estava.



Fiquei com esta ideia na cabeça e quando me apercebi que não iria mesmo conseguir medicina perdi a noção do que iria ser o meu futuro. Escolhi Biologia na FCUL apenas porque no secundário adorava completamente a disciplina, nomeadamente a parte da genética que sempre tinha sido a minha grande paixão (mais tarde descobri que até nisso não estava 100% correta, na verdade, a minha paixão, é a Biologia Molecular que é ligeiramente diferente). Cheguei mesmo a pensar, tal como também já aconteceu a imensas pessoas, que o curso me poderia dar boas bases para os exames nacionais do ano seguinte (que nunca cheguei a realizar).

O meu primeiro ano de curso foi terrível. Acho que nunca me tinha sentido tão em baixo. Faltava às aulas com alguma frequência e, às aulas que ia, era no meu telemóvel que se focava a minha atenção. Não estava satisfeita. Perguntava-me, todos os dias, assim que chegava ao campus “O que é que eu estou aqui a fazer?”. Cheguei ao fim do semestre com notas que eram simplesmente miseráveis. Eu estava habituada a ter boas notas e, quando vi um 10 na minha pauta, foi mesmo um ‘wake up call’. Era como se as minhas notas não me pertencessem e, por isso, decidi durante as curtas férias entre semestres repensar a minha vida: ou fazia isto como deve ser ou desistia. Houve cadeiras que tinha odiado nomeadamente a Biologia Animal e a Biogeografia, mas destacavam-se outras tantas como os Fundamentos de Biologia Molecular e a Engenharia Genética que eu olhava para o plano de estudos e dizia “é isto mesmo a minha cena” e enquanto ia descobrindo as saídas profissionais (que só comecei a explorar naquela altura!), decidi dar uma oportunidade ao curso.

Durante o curso continuei a fazer alguns “finca-pés”. Aquelas cadeiras que pertenciam à genética molecular, conseguia sempre notas muito boas e ficava cada vez mais apaixonada por aquilo. No entanto, aquelas que pertenciam à biologia animal, ambiental e afins tirava notas intermédias a baixas. Aliás, já me disseram várias vezes “Quem olha para a tua pauta, vê logo onde realmente pertences”. Não conseguia estudar e dedicar-me àquilo que não me motivava, é um defeito que trazia do secundário, mas consegui evoluir e ganhar um pouco essa capacidade ao longo do curso (porque acho que é uma qualidade essencial, no futuro, vamos ter que fazer imensas coisas que não gostamos mesmo dentro da nossa área).

3 anos depois, acabei o curso com média de 16 valores e não podia estar mais orgulhosa porque tive um percurso absolutamente tumultuoso, mas que acabou da melhor forma possível. Esta média resulta da discrepância de notas altas e baixas que tenho na área que me interessa e nas restantes, respetivamente. É um facto que poderia estar ainda melhor classificada no curso e, não estou graças àquele primeiro ano terrível e às cadeiras em que simplesmente “escolhi” não me esforçar porque não gostei. Hoje, só gostava de voltar atrás para falar com aquela miúda perdida e avisar-lhe para que dê o seu melhor em tudo porque irá eventualmente descobrir o seu caminho. No entanto, se não fosse este percurso tumultuoso, acho que nunca teria descoberto a minha vocação no meio do caos. Para além disso, nunca teria a noção de que a minha motivação e determinação poderiam ser assim tão fortes como se tornaram.

Foi no terceiro ano de Biologia, quando escolhi o ramo de “Biologia Molecular e Genética” que me senti realmente na minha área. A universidade fez-me crescer e aprender imenso (coisas que até não vêm nos livros). Tornei-me numa pessoa extremamente realizada e focada (até muito mais do que aquilo que era no secundário). Sei exatamente o que quero e o que vem a seguir. Pretendo fazer mestrado, doutoramento, pós-doutoramento e o meu sonho é ser professora universitária e, quem sabe, ter o meu próprio grupo num laboratório (mas sonho com os pés bem assentes na Terra porque sei o quão difícil isto é).

Hoje em dia sou uma pessoa muito distante daquela miúda deprimida e iludida pela ideia da medicina. Com isto não estou a dizer “medicina é mau” obviamente! É um curso com todo o seu valor. Simplesmente descobri que não era exatamente aquilo que eu queria. Descobri quase “sem querer” a minha vocação. É mesmo isto que eu quero: Investigação na área da saúde e todo este meu percurso com altos e baixos valeu a pena por isso.

Deixo-vos assim o testemunho de uma pessoa que não entrou em medicina, mas saiu mesmo MUITO feliz (maiúsculas intencionais de quem acabou o curso super exausta, mas completamente radiante). As notas muito boas na minha área da genética molecular e a minha superação bastam-me para me sentir orgulhosa do longo caminho que percorri e das conquistas que obtive. Tive que passar as coisas desta maneira. Conheci pessoas maravilhosas e saí da FCUL com uma excelente experiência e mais maturidade. Acho que me falhou muita informação e aconselhamentos relativamente a isto enquanto andava no secundário. Muitas escolas secundárias pecam imenso na falta de informação. Se um dos meus professores favoritos do curso tivesse aparecido na minha escola secundária e dado uma palestra, talvez tivesse logo optado pela Biologia e evitado o meu duro processo de adaptação à faculdade. Mas, certamente, não teria esta história para contar nem tantos ensinamentos que vão mesmo ficar para a vida.

Este texto serve também de conselho para aqueles alunos que todos os anos “se matam” a contar décimas e pensam que se não entrarem em medicina, não vale a pena tirar outro curso, mas, por vezes, estão enganados. Podem descobrir coisas que gostam igualmente ou, no meu caso, chegar mesmo a mudar de ideias pois, hoje em dia, tirar medicina saiu completamente dos meus planos.

Quero desejar-vos a maior das sortes para o vosso futuro e dar um conselho: Deem o vosso melhor na faculdade porque vão ter muitas pessoas a dizerem que “na faculdade basta passar” e isso é mais do que errado. As médias, em determinados cursos, nomeadamente na área da saúde, são tão ou mais importantes que no secundário e vão acompanhar-vos durante toda a vossa vida profissional, especialmente se quiserem seguir investigação.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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