Sempre quis ser médica. Desde a primeira vez que contactei com o estudo do corpo humano, ainda na escola primária (lembram-se? Quando dávamos o sistema digestivo, o sistema respiratório, o sistema cardíaco, coisas muito simples, mas que toda a gente adorava perceber; afinal é o nosso corpo e nós sabíamos como funcionava!) e, mais tarde, no básico que me fascinava saber, porque é que havia pessoas com problemas, o que é que nesta nossa máquina (im)perfeita falhava para adoecermos. Claro que isto não é suficiente para se decidir ser médico. Há que ter noção que a vida de um médico não é só sucessos. Muito pelo contrário, os médicos veem, sentem a dor das pessoas, lidam com a morte frequentemente, cometem erros que podem custar a vida de uma pessoa. Eles são como nós, seres humanos imperfeitos, a que lhes é exigida a perfeição.

Sendo assim, quando entrei no ensino secundário, entrei com plena consciência de que teria de trabalhar muito e duramente, que teria de ser dedicada, esforçada, lutadora, que seria difícil, que havia MUITA gente a lutar pelo mesmo sonho e que não havia vagas para todos. E eu fui, fui isto tudo, dei o melhor de mim, não posso dizer que tenha sido sempre, mas fui muitas vezes, acreditem. E como eu, houve muita gente persistente, uns entraram, outros nem por isso.
Desta forma, terminei o secundário, numa escola pública, com uma média de 187 e é bom salientar que mantive todas as minhas notas, por frequência, à excepção de duas em que subi a minha nota por exame (podem ir confirmar, eu não tenho intuito nenhum em mentir, sou de carne e osso e a única coisa que quero é ajudar quem passou pelo mesmo que eu e elucidar muitas pessoas que falam sem conhecimento de causa). Todavia, faltavam os exames e, ao contrário de TODOS os restantes cursos, Medicina pede 3 exames (Biologia e Geologia, Físico-química A e Matemática) que valem 50% na nossa média de candidatura.



E aqui, sinto-me obrigada a fazer um aparte. Tenho ouvido as pessoas dizerem que os exames nacionais são um método justo, que são uma forma de colocar todos os estudantes em pé de igualdade. Porém, isso está longe de ser a verdade. Todos nós podemos ir fazer os mesmos exames, mas o nosso grau de preparação está longe de ser o mesmo e não me refiro ao estudo pessoal. Existem muitos colégios a inflacionar as notas dos alunos, a dar, somente, a matéria que sai nos exames nacionais e não sou eu que o digo. Há muitos dados, muitas estatísticas, informem-se! Da mesma forma, que existem muitas escolas públicas a deflacionar as notas dos seus alunos. Para mim, ambos os casos são condenáveis. E não me venham dizer que o facto de fazermos todos os mesmos exames vai colmatar as injustiças de 3 anos, porque não vai. Eu conheço um rapaz com uma média de exames mais baixa que a minha que entrou em Medicina. Também quero FRISAR, isto não acontece em todos os colégios, nem acontece em todas as escolas públicas.

De regresso ao meu caso pessoal, posso vos dizer que tive 167 a Físico-química A, 195 a Matemática, 14 a Biologia e 185 a Português, que sou forçada a fazer para terminar o Secundário. Sim, um exame “estragou-me” a média e digo “estragou-me”, porque não me estragou coisa nenhuma. Eu não passei a ser mais burra, a ser menos apta ou a saber menos do que alguém que tenha tirado 14,5 ou 16 ou 18. Até porque eu não acredito que um exame defina o nosso conhecimento ou o nosso mérito. Eu cedi à pressão, à pressão de saber que aquele exame vai definir a minha vida. O que vocês ainda não sabem é que tive 185, na 2ª fase, a biologia. Feitas as contas, a minha média de candidatura, na 1ª fase, foi de 177,2 e, na 2ª fase, foi de 184,7. Agora, façam vocês as contas. Sim, na 1ª fase, fiquei a 3 CENTÉSIMAS do último colocado nos Açores; sim, porque eu candidatei-me para os Açores… Foi nesta altura que tomei a decisão de que, caso não entrasse, não queria estar um ano parada, e, por isso, a minha 6ª opção seria Ciências Farmacêuticas na FFUC.

No dia 11 de Setembro, recebi a notícia. Não tinha entrado em Medicina. O meu mundo desabou, sempre estivera habituada a conseguir bons resultados, a alcançar os meus objetivos, não imaginam o quanto doeu e não imaginam mesmo. As únicas pessoas que podem imaginar são aquelas que passaram pelo mesmo que eu e acreditem é duro. Mas, bem, a vida tem de continuar e era preciso tratar da matrícula e arranjar uma casa para os próximos anos. E, neste aspeto tive logo muita sorte. Graças aos meus pais, que sempre me apoiaram e que sofreram muito comigo, nos primeiros tempos, consegui ficar numa casa com 3 meninas de Medicina, duas no segundo ano e uma no terceiro, e com 2 meninas de Ciências Farmacêuticas (que acabaram por ser as minhas pseudo-madrinhas). Estas meninas, que agora são a minha família, acolheram-me desde o primeiro dia. E também elas têm as suas histórias de sofrimento e conquista.

Mais uma vez, tenho de fazer um aparte. Nós ouvimos falar MUITO sobre as pessoas que não entram em medicina, então e aquelas que entram? Posso vos dizer que constituem um grupo bem heterogéneo de pessoas. Há quem entre em Medicina pelo simples facto de até ter uma média boa e por conseguinte vê-se forçado pela sociedade a seguir um curso para o qual não tem qualquer apetência, há quem entre em Medicina apenas por estatuto, há quem entre em Medicina porque os pais e os avós e a família já são médicos e eles também tem de ser, há quem entre em Medicina, porque acha que vai ganhar muito bem e tem emprego garantido e, finalmente, há quem entre em Medicina, porque quer fazer a diferença, quer curar, quer tratar, quer ajudar o outro. Agora, digam-me será que uma média de entrada consegue avaliar estes motivos, será que uma média de 19 é suficiente para decidir que aquela pessoa vai ser uma médica mais capaz do que uma pessoa com média de 17? Sinceramente, eu duvido. E acredito que todos os anos muitos “possíveis futuros” bons médicos são deixados de fora, bem como há muitos que entram. Eu não quero tirar aqui o valor a ninguém. Se chegaram lá, devem se sentir muito orgulhosos, mas, nós, que ficámos de fora e demos o nosso melhor, também nos devemos sentir orgulhosos do nosso percurso.

Voltando às minhas colegas de casa que estudam Medicina. Acerca delas só tenho uma coisa a dizer: ainda bem que elas conseguiram, ainda bem que elas fazem parte do grupo de estudantes que vai para Medicina, porque quer fazer a diferença. Ainda bem que a Raquel e a Cristiana entraram à primeira, ainda bem que a Sara ficou um ano cá fora a repetir exames para entrar em Medicina, ainda bem que elas não desistiram, porque eu nunca vi ninguém falar com tanta paixão, com tanto amor daquilo que fazem. Gostava que ouvissem o entusiasmo delas a falarem da primeira consulta, ou que vissem o brilho nos olhos da Sara, quando nos mostrou o estetoscópio que comprou, ou que sentissem a assertividade com que elas vos dizem que a tiróide é uma hormona que produz tiroxina e triiodotironina. É incrível. E sabem quem também é incrível? As minhas duas pseudo-madrinhas que estudam Ciências Farmacêuticas e que entraram na primeira opção delas. Estranho, não é? Sim, se houve algo que me “chocou” um pouco foi a quantidade de pessoas que vai para Ciências Farmacêuticas e que queria Medicina. É óbvio que eu sabia que todos os anos ficavam muitas pessoas cá fora, mas não tinha a noção de que eram tantas. Cerca de 80% das pessoas que entraram em MICF, não escolheram este curso ou aquela faculdade como 1ª opção. (Mas não se esqueçam dos 20% que queriam realmente isto e que entraram com médias de 18 e 19. Eles ESCOLHERAM este curso, mesmo tendo média para entrar em qualquer outro curso.) E sabem que mais? São pessoas muito, muito inteligentes, pessoas que além de serem inteligentes e trabalhadoras são escuteiras, sãomodelos, praticam desporto, fazem teatro, pessoas a que, infelizmente, não lhes foi dado o devido valor, ou a devida ajuda na escola que frequentaram. Ah e não, eu não estive em “Farmácia” como tantas vezes se ouve dizer. Eu estive em Ciências Farmacêuticas e aposto que se dissesse que o Paleolítico e o Neolítico são a mesma coisa ou que Futebol e Futsal são a mesma coisa não iam gostar. Se há algo que me revolta é o desprezo que é dado tantas vezes a este curso. Como a minha professora de Biologia Celular e Molecular da FMUC nos disse ocurso de Ciências Farmacêuticas na UC é muito bom e não serve só para ir vender medicamentos atrás de um balcão, da mesma forma que um curso de Medicina Dentária não serve só para meter aparelhos. Cabe a nós escolhermos o que queremos fazer do curso que tiramos. Cada curso tem muito potencial, e dá a quem o tira aptidões ÚNICAS.

E, eu, de facto, passei duas semanas em Ciências Farmacêuticas na FFUC, e gostei, gostei das aulas, gostei dos professores, gostei da faculdade, gostei dos colegas, gostei da Praxe, gostei de tudo, mas sentia que faltava algo. O bichinho da Medicina continuava presente. Posto isto, resolvi ouvir a opinião de alguns estudantes de Medicina que conheci logo no dia das matrículas e que não me conhecendo de lado nenhum, ouviram a minha história e aconselharam-me. Disseram que Medicina Dentária teria sido uma boa escolha, se eu realmente não queria desistir da entrada no curso de Medicina. Disseram que o primeiro ano é muito semelhante, tinha muitas equivalências, os professores eram os mesmos, a faculdade também e que a maior parte dos colegas deles tinham estado em Dentária um ano. Tudo isto fez-me refletir. Durante oSecundário, Dentária nunca tinha estado nos meus planos, quer dizer tratar dentes? Acho que não me via muito nisso. Porém, os resultados da 2.ª fase saíram e eu voltei a não entrar em Medicina e a entrar na minha 6ª opção que foi Medicina Dentária na FMUC. E tenho vos a dizer que foi das melhores opções que tomei. Logo, na primeira semana senti-me em casa, senti-me verdadeiramente feliz como não me sentia há muito tempo. Estava a estudar algo que gostava. Se entrar em Medicina em Coimbra era 100% do meu sonho, Medicina Dentária em Coimbra é 99%. E a rapariga que achava que não ia gostar de “tratar dentes”, ADOROU a primeira aula de Introdução à Medicina Dentária (e todas as restantes) e adorou ver duas extrações e uma destartarização. Adorou conhecer outros jovens que estavam a passar exatamente pelo mesmo que ela e sentiu-se uma sortuda por estar na melhor cidade para se estudar- Coimbra, por ter a oportunidade de conhecer, (e não consigo ser imparcial) as melhores faculdades da UC- a FFUC e a FMUC, por ter duas famílias, uma roxa e uma amarela, por ter sido tão bem tratada, tão bem acolhida por todos.

Em suma, a verdade é que haverá sempre injustiças, e não há nada que possamos fazer para mudar isso. Podemos tentar minimizar, mas, lá está, é apenas isso – minimizar. Não pensem que quando entrarem no vosso curso de sonho, vai ser tudo fácil. Vão haver pessoas que vão trabalhar menos que vocês, mas que vão ter cunhas, vão ter contactos que vocês não têm. A corrupção está em todo o lado. O mundo não é cor-de-rosa, mas também não é sempre cinzento. O mundo é colorido e ainda bem que assim é. Eu acredito que quando queremos muito algo, há sempre uma maneira de o conseguir e que “aquilo que é nosso, nunca se vai verdadeiramente”.

Eu sinto-me feliz, por viver num país em que sei que existem mais Saras, mais Cristianas e mais Raquéis; sinto-me feliz por viver num país em que uma grande percentagem dos estudantes de Medicina não entraram à primeira; sinto-me feliz por viver num país em que é preciso suor e esforço para concretizar sonhos… Sinto-me feliz, por ter a oportunidade de um dia estar a falar com um doente e poder dizer-lhe: Não desista, porque para estar aqui, eu também não desisti. E não vou desistir.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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