O período de candidatura ao ensino superior traz sempre consigo uma enorme expectativa por parte de milhares de estudantes e encarregados de educação. Compreender as dinâmicas que regem a flutuação das notas do último colocado, vulgarmente conhecidas como “médias” de acesso, exige uma análise minuciosa que vai muito além de uma simples consulta de dados estatísticos passados. O acesso ao ensino superior público através do Concurso Nacional de Acesso (CNA) é um processo dinâmico, condicionado por múltiplos fatores estruturais, pedagógicos e conjunturais.
Neste artigo analítico, decompomos todos os fatores cruciais que impactam as notas de candidatura aos vários cursos superiores este ano, integrando os dados oficiais mais recentes, as alterações nas regras de acesso, a distribuição das notas dos exames nacionais e as tendências de procura por grande área científica.
1. O Mecanismo do Concurso: A Nota do Último Colocado
Antes de analisar as variáveis, é fundamental clarificar um conceito frequentemente mal interpretado: as notas de acesso divulgadas não são médias fixas definidas à partida, mas sim a nota do último candidato colocado em cada par instituição/curso. O concurso funciona de forma estritamente meritocrática e ordenada:
Exemplo prático: Imaginemos um curso com 50 vagas que recebe 400 candidatos. Todos os candidatos são ordenados de forma decrescente pela respetiva Nota de Candidatura. Os 50 primeiros entram, sendo a nota do 50.º candidato a nota de referência (média) desse curso. Consequentemente, o resultado não depende apenas da nota individual de cada aluno, mas sim do desempenho e das escolhas de todos os candidatos que concorrem ao mesmo par curso/instituição.
Historicamente, comparar estas notas com anos anteriores apresenta um desafio: não sabemos quem são exatamente os candidatos nem o perfil exato das suas notas. No entanto, analisar as tendências macroeconómicas, demográficas e regulamentares permite antecipar cenários sólidos para esta edição.
2. Variação das Vagas no Ensino Superior
O volume de vagas colocadas a concurso constitui uma das alavancas mais diretas no comportamento das notas de acesso. Para este ano, foram fixadas 56.790 vagas no Regime Geral de Acesso do ensino superior público, o que representa mais 834 vagas face a 2025.
A regra macroeconómica e estatística é linear:
- Aumento de vagas: Se a procura se mantiver estável ou crescer moderadamente em determinado curso, um acréscimo de vagas tende a diluir a concorrência, permitindo que candidatos com notas ligeiramente inferiores consigam entrar, exercendo uma pressão de descida na nota do último colocado.
- Redução de vagas: Inversamente, cortes nas vagas de um curso geram maior escassez, elevando a fasquia e provocando uma pressão de subida.
Contudo, este impacto deve ser avaliado curso a curso, uma vez que uma variação global de vagas no país não se distribui de forma homogénea por todas as instituições e áreas científicas.
3. Alterações nas Provas de Ingresso: O Impacto da Redução
Uma das transformações regulamentares mais profundas ocorreu recentemente com a transição do modelo de exames. Recorde-se que no ano passado (2025) todas as instituições e cursos foram obrigados a exigir pelo menos dois exames nacionais como prova de ingresso.
Para este ano, o panorama alterou-se significativamente, pois o mínimo exigido desceu de dois para apenas uma prova de ingresso:
- Cursos que mantiveram 2 exames: Nestes pares, o fator regulamentar mantém-se inalterado e o impacto direto desta medida é nulo.
- Cursos que reduziram para 1 exame: Nestes casos, o impacto é substancialmente maior. Ao exigir apenas uma prova de ingresso, o universo de potenciais candidatos elegíveis alarga-se consideravelmente, o que intensifica a concorrência e gera uma forte tendência de subida nas notas de candidatura.
- Dica de Comparabilidade: Se um determinado curso já exigia apenas um exame em 2024, os dados e notas desse ano (2024) revelam-se frequentemente mais fiáveis para comparação do que os valores de 2025 (ano em que a obrigatoriedade de dois exames distorceu a comparabilidade histórica).
4. O Novo Cálculo da Média do Secundário
Outra mudança estrutural que tem gerado enorme debate académico prende-se com a fórmula de cálculo da média do secundário para os alunos que terminam o ciclo de estudos este ano.
Até ao ano transato, a média do secundário era calculada através da média aritmética simples de todas as disciplinas do plano curricular, significando que uma disciplina trienal (como Português) pesava exatamente o mesmo que uma disciplina anual do 12.º ano (onde os alunos tipicamente obtêm notas superiores).
Com o novo regime implementado para os alunos que concluem este ano, passa a aplicar-se uma média ponderada com coeficientes bem definidos:
- Peso 3: Disciplinas trienais (ex: Português, Matemática A, História A, Desenho A)
- Peso 2: Disciplinas bienais (ex: Física e Química A, Biologia e Geologia, Filosofia, MACS, Geografia A)
- Peso 1: Disciplinas anuais (12.º ano)
Impacto na candidatura: As disciplinas trienais passam a ter um peso muito superior face às anuais. Esta transição para um modelo ponderado pode provocar uma ligeira descida generalizada das médias de candidatura para os alunos finalistas deste ano, criando um ligeiro desfasamento face aos candidatos de anos anteriores que concorrem com o modelo antigo.
5. Estatísticas dos Exames Nacionais e Desempenho Global
As notas obtidas nos exames nacionais influenciam diretamente as provas de ingresso. É vital recordar que os estudantes que concorrem este ano não estão a competir apenas com os colegas que realizaram exames na 1.ª fase atual, mas também com o “arquivo histórico” de exames válidos de 2025, 2024, 2023 e 2022.
Globalmente, na 1.ª fase deste ano foram realizadas 303.563 provas, o que traduz uma quebra de 3.707 exames face a 2025. Analisando o universo total de 25 disciplinas de exames nacionais, verificou-se que 15 disciplinas melhoraram as suas classificações médias face a 2025, enquanto 10 disciplinas registaram piorias.
Destaques das Médias e Distribuição por Disciplina (Escala de 0 a 200)
- Top 5 Maiores Médias Nacionais: Mandarim (168 pontos), Inglês (153 pontos), Português LNM (144 pontos), Desenho A (139 pontos) e Italiano (138 pontos).
- Top 5 Menores Médias Nacionais: Literatura Portuguesa (96 pontos), Filosofia (100 pontos), MACS (105 pontos), e um empate entre Geografia A e História A (ambas com 107 pontos).
Análise Específica das Principais Disciplinas:
Português: A nota mais frequente (moda) desceu ligeiramente para o intervalo entre 11 e 12 valores (em 2025 situava-se nos 13-14). Sendo uma disciplina trienal obrigatória (peso 3), está presente em 74,1% dos cursos públicos (e em 41,4% dos cursos que pedem apenas uma prova), exercendo um enorme peso transversal.


Matemática A: Regista a nota mais frequente entre 15 e 16 valores, demonstrando um excelente desempenho global dos alunos. É exigida em 27,5% dos cursos no total, mas domina cerca de 39% dos caminhos que pedem apenas uma prova e não são de Português.


Biologia e Geologia: A nota mais frequente situa-se nos 8 a 9 valores, refletindo uma descida face ao ano anterior (onde a moda estava nos 15-16). Sendo bienal, o peso maior recai sobre as notas de 2025.


Física e Química A: Subiu de patamar, com a nota mais frequente a situar-se entre 12 e 13 valores (face aos 8-9 valores registados em 2025).


Filosofia: Regista 46,9% de notas negativas, apesar de a média global se manter positiva, com a nota mais frequente entre 8 e 9 valores.


História A e Geografia A: Mantêm estabilidade nos dois anos, com as notas mais frequentes concentradas respetivamente nos 11-12 e 10-11 valores.
6. Variação da Procura por Curso e Área Científica
O comportamento da procura exercida pelos candidatos é o motor final das flutuações de notas. Analisando por grandes áreas:
- Engenharias e Informática (Tendência de Subida): Apenas cerca de 45% dos cursos de engenharias pedem uma prova única, mas quando o fazem, 76% exigem Matemática A (sem nenhuma bienal a compensar). Na informática, 97% dos cursos com prova única exigem Matemática A. Dado que as notas de Matemática A se concentram em patamares elevados (15-16 valores), estes cursos apresentam uma forte tendência de subida nas notas do último colocado.
- Educação, Artes e Humanidades (Tendência de Descida/Estabilização): Na educação, 92% das provas pedidas são Português (que registou uma descida na nota mais frequente), o que, aliado à nova ponderação, aponta para uma tendência de descida nas notas de fecho. Em Artes e Humanidades, 68% das provas exigidas são Português, antevendo igualmente uma possível tendência de descida.
- Ciências Sociais e Saúde: Ciências Sociais apresenta um perfil mais equilibrado (58% pedem Português, 51% Matemática). Na saúde, a Biologia e Geologia domina 78% dos caminhos, mas as notas ligeiramente mais baixas deste ano poderão mitigar subidas excessivas.
Gostavas de saber algo mais especificamente sobre o teu curso, e como estas variáveis todas podem influenciar a nota do último colocado? Coloca um tópico na secção Candidatos 2026/2027 no nosso fórum.

