Este texto destina-se aos futuros estudantes de Latim e aos curiosos que, não tendo nenhum contacto com a língua, se sentem atraídos por este cadáver caído no esquecimento académico.
Se vais ingressar num curso de “Letras”, é provável que tenhas pelo menos uma unidade curricular de Latim. A título de exemplo, as licenciaturas de Estudos Portugueses e de Línguas, Literaturas e Culturas (variante monodisciplinar de Português) de quase todas as universidades exigem que tenhas duas unidades curriculares de Latim: Latim I e Latim II. Também a licenciatura em Ciências da Linguagem e em Ciências da Informação costumam oferecer, no seu plano curricular, uma unidade curricular de Latim, normalmente no primeiro semestre do primeiro ano curricular. Se, por outro lado, escolheste um curso de Latim/Grego… sairás de lá um verdadeiro classicista, qual Dante a cochichar com Virgílio!
Lembro-me da minha primeira aula de Latim, na qual a Professora, num tom quase solene, afirmou: “Estudar Latim, hoje, é um privilégio. Sintam-se privilegiados”. E é, de facto, um privilégio. O Latim não é um bibelô de museu, é uma chave mestra. A par do Grego, é a língua matricial da nossa cultura, que te abre horizontes profissionais (talvez) e pessoais. Difícil? Diria trabalhoso. Tirano? Diria Tirano Gentil. O Latim sorri a quem para ele sorri.
Penso que o importante é não ter ideias preconceituosas quanto à dificuldade da língua, estar atento nas aulas e, claro, treinar as famosas declinações… Se vais ingressar no ensino superior e não tiveste a sorte (ou o azar) de ter Latim no décimo e no décimo primeiro ano, nada temas, não são necessárias “bases”, somente necessitas de ter um conhecimento razoável de gramática. Convém saber identificar o sujeito, os complementos dos verbos e o vocativo das frases, na medida em que o Latim é uma “língua de casos”, como vulgarmente se intitula. Sem entrar em muitas explicações (vais ter tempo de aprender), isto significa, de forma muito simplista, que se uma mesma palavra desempenhar a função sintática de sujeito numa frase e noutra desempenhar a função de complemento direto, escrever-se-á de formas distintas: “rio” como sujeito escreve-se “fluvius” e como complemento direto metamorfoseia-se em “fluvium”. Já estás a perceber a importância de dar uma vista de olhos nos apêndices dos teus livros de Português do secundário?
Gostares das unidades curriculares de Latim não vai depender, inteiramente, de ti. Dependerá, igualmente, da forma de lecionação. Há professores que optam por um método de ensino mais tradicional e, rapidamente, serás confrontado com poesia latina de alguma dificuldade e há outros que seguem um modelo menos intimidante, adotando manuais que facilitam o entendimento das frases latinas. Durante as aulas, a minha Professora projetava passagens de um livro, “Lingua Latina Per Se Illustrata”, de um linguista dinamarquês, Hans Henning Orberg. Este livro nada aborrecido (porque estruturado em capítulos breves, nos quais a vida de uma família romana e suas peripécias são narradas) é baseado num método pedagógico que permite uma aprendizagem dinâmica e “natural” da língua; não há Virgílio nem Eneias, apenas pequenas histórias espirituosas, por vezes infantis, que introduzem vocabulário à medida que se progride no programa da disciplina. Tu, que ainda não sabes nada de Latim, consegues descobrir, por meio da intuição, o que esta frase significa: Roma in Italia est? Roma está/fica em Itália. Foi algo do género não foi? É através de frases simples, com uma construção gramatical muito próxima do português, que o manual que te vai guiando.
Claro que as explicações dos docentes são preciosas e imprescindíveis (não faltes às aulas!), mas existem inúmeros recursos online que te vão facilitar imenso a vida: um canal de Youtube, “ScorpioMartianus”, que publica vídeos de leitura dramática de “Lingua Latina Per Se Illustrata” e um site, “Latin is Simple”, ao qual podes aceder sempre que tiveres uma dúvida inquietante acerca da declinação de uma palavra. Ademais, é um site muito completo, que te sugere exercícios e te ajuda na tradução de textos latinos.
Relativamente às provas de expressão oral: não é algo que a maior parte dos professores valorize sobremaneira, pelo menos nas unidades curriculares de Latim de nível básico. No entanto, costumam incentivar a leitura em voz alta. Sendo assim, aconselho-te a não ficares nervoso: não é um bicho de sete cabeças! Se um romano tentasse ler português, faria muito pior do que tu. Além disso, estás na faculdade para aprender, e nenhum professor será imensamente exigente com alguém que está apenas a começar a “latinar”. Fica com este aviso: o “c”, em latim, não tem som de “se”, mas de “que”. Saberes isto já é um bom começo.
Lembra-te: saber as declinações direitinhas será sempre prenúncio de boa nota, não desanimes com os tempos verbais e não faltes às aulas (são fundamentais!). É um desafio aprender Latim? Sim. Pode parecer que estás a lidar com uma algaraviada? Sim. Mas não te esqueças: estudar Latim é de grande dignidade. “Aquila non capit muscas”, a águia não caça moscas.
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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.
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