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Sim, sou mais uma aluna cliché de Ciências e Tecnologias que sempre sonhou ser médica. Neste momento já deves estar chateado(a) porque a) é mais um artigo sobre Medicina, os quais vês em todo o lado ou b) já estás farto de alunos como eu. Sinceramente, posso mesmo afirmar que é um assunto banal entre os estudantes de hoje, contudo, talvez se analisado da perspetiva de um aluno do secundário como eu, poderá ser que te dê uma maior abrangência acerca do tópico. Antes de mais, peço desculpa se este artigo se tornar incrivelmente extenso. Adoro discutir este tema e por vezes perco a objetividade na minha forma de escrita.

Como mencionei, sempre quis Medicina. Desde os meus 3 anos que sonho em envergar a minha bata branca e o estetoscópio, poder ajudar os meus pacientes, enfim… poder ser médica. Desde esse momento alimento esta minha ambição (utópica, provavelmente) de entrar neste meu tão desejado curso. Lembro-me de pedir à minha mãe enciclopédias e brinquedos relacionados com esta área de estudo e, mesmo não sabendo ler, deleitava-me com as imagens coloridas das entranhas humanas e com a minha seringa de brincar. Nem sabem o quão feliz ficava quando tinha consulta marcada no hospital, paradoxalmente às crianças da minha idade. Era o momento em que eu podia ver os meus heróis em ação… como eu adorava aquilo! Sonho e sempre sonhei estar na pele deles.



Após esta breve descrição da minha infância, poderás reparar que não existe nada para além de Medicina que desperte tanto o meu interesse. E, de forma a estar o mais preparada para desempenhar a minha função e ter as bases necessárias a uma boa aprendizagem, sempre me esforcei ao máximo nos meus estudos. Nunca tive problemas alguns com a escola… até chegar ao 10º ano. Este ponto de viragem caracterizou-se por um desinteresse supremo relativamente ao ensino. Não me identificava (nem sequer neste preciso momento) com as disciplinas específicas. Ponderei seriamente mudar para Línguas e Humanidades (o meu segundo grande interesse), mas Medicina sempre falou mais alto. E, em ordem a entrar neste curso, deixei-me ficar em Ciências e Tecnologia. Simpatizo com as bienais, mas não suporto Matemática. Não me interpretem mal, adoro a disciplina de um modo mais teórico, todavia, enche-me de tédio (re)fazer o mesmo exercício vezes e vezes sem conta, apenas para ter um mero 15 na pauta (nota que não favorece em nada a média). Cedi, assim, às minhas tendências procrastinadoras.

Este fator, mais uns quantos externos ao trabalho (extra)escolar, fazem com que a minha nota de acesso não seja brilhante. Talvez a consiga aumentar neste meu 12º ano, pois planeio não só dar o máximo de mim, como também realizar 4 exames nacionais, 3 deles a contar 100% para a nota final da disciplina, sendo, por isso, mas minhas probabilidades de sucesso muito baixas.

Neste momento encontro-me com média de 17,17, média esta que não me permite entrar para nenhuma faculdade de Medicina, caso me tivesse candidatado este ano. Muitas vezes olho para a média de colegas meus que também ambicionam este curso: notas de 19s e 20s. Não olho para tal com olhos invejosos, em vez disso questiono-me “Será que terei as mesmas capacidades para Medicina que eles?”. No início achava que não (às vezes ainda acho), no entanto, este panorama não é desconhecido por muitos alunos que estão no mesmo lugar que eu, a lutar por seguir esta carreira. Muitos de nós achamos aborrecido aquilo que estamos a aprender no secundário. Muitas vezes achamos que 70% daquilo que nos é ensinado nos será inútil. Talvez seja. Todavia, precisamos de ter boas notas nisso, no presente, para no futuro desempenharmos algo que gostamos.

Mesmo assim, a ambição de entrar para a universidade, na maior parte das vezes cega-nos. Os nossos objetivos destroem a nossa concentração no momento atual. Outras vezes ouvimos comentários de várias pessoas, comentários do género “O quê? Com essa média pretendes Medicina? Desculpa, mas com isso nunca lá entras…” ou “Nem te compares a [fulano(a) tal], esse(a) sim, entra da certa, tu não.”. Acreditem, dói bastante ouvir isto. Não só porque nos estão a subestimar, como também porque somos alvo de comparação com outras pessoas que são, obviamente, indivíduos totalmente diferentes de nós, não havendo por isso comparação possível.

Muitas vezes dei por mim a fazer estimativas de média quando encravava num exercício. Dou-te um conselho: nunca faças isso. Foca-te no presente. Um passo de cada vez.

Infelizmente, o paradigma do ensino português atual não favorece aqueles que têm vocação e sim aqueles que têm média. Com isto não digo que concorde com abolir a média de acesso em prol da propensão de cada um, simplesmente sugiro que fosse ligeiramente tomada menos em conta. Deparo-me comigo a pensar inúmeras vezes porque é que tal pessoa seguiu a área de saúde se não tem interesse qualquer naquilo. Porquê? Porque foi coagido a tal? Porque fica bem na foto a bata branca? Por causa dos salários? Sinceramente, se alguém segue um curso simplesmente por causa dos privilégios que este oferece, então nunca será feliz na vida. E de que vale viver se não somos felizes a fazer algo que gostamos?

Sei que Medicina exigirá muito de mim: enumeras horas sem dormir, tentando decorar todos os infindáveis nomes de fármacos e de várias partes do nosso corpo. Também sei que depois de formada passarei horas e horas dentro do hospital a trabalhar como uma escrava. E depois? Que significa isso se estiver a desempenhar esta função de corpo e alma?

Por isso vos digo: nós, este tipo de alunos que quer insanamente Medicina, portadores desta idiossincrasia que torna ténue a linha entre a paixão pela profissão e a obsessão compulsiva, vivemos disto muito antes sequer de trabalharmos na área. É nesta carreira que descobrimos a nossa raison d’être. Citando Pablo Picasso, “O sentido da vida é encontrar o seu dom. O propósito da vida é compartilhá-lo”. Eu já encontrei o meu sentido de vida, agora espero impacientemente por poder realizar o meu propósito, compartilhando-o com os meus futuros pacientes.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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