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Área de estudo pesa mais no futuro profissional do que a instituição: as conclusões do novo estudo da Fundação Belmiro de Azevedo

Na hora de preencher as opções de candidatura ao ensino superior, o dilema repete-se todos os anos: vale mais escolher o curso de sonho ou entrar numa universidade de renome? Um novo estudo divulgado pelo EDULOG, o think tank para a Educação da Fundação Belmiro de Azevedo, traz uma resposta clara: o que se estuda tem um impacto muito mais determinante no mercado de trabalho do que o nome ou o tipo de instituição de ensino superior.

O relatório “Resultados no Mercado de Trabalho dos Diplomados do Ensino Superior Português”, coordenado pelo investigador Ricardo Biscaia, comparou duas gerações de diplomados — os de 2016/17 (inquiridos cinco anos após a conclusão) e os de 2020/21 (avaliados um ano após a saída do curso).

As conclusões mostram que a diferenciação não se resume a encontrar ou não emprego: reflete-se na remuneração, na estabilidade dos contratos, na satisfação com o trabalho e no risco de acabar em funções para as quais se está sobrequalificado.

O curso define o desemprego; a faculdade quase não tem impacto

Uma das conclusões mais expressivas do relatório prende-se com o peso residual do tipo de instituição no risco de ficar sem trabalho: se a instituição é pública ou privada, universitária ou politécnica, não apresenta efeitos estatisticamente significativos na probabilidade de desemprego.

 

Em contrapartida, a área científica dita diferenças profundas:

  • Diplomados em Artes, Psicologia, Ciências Naturais, Matemática e Estatística, Humanidades e Línguas registam uma probabilidade de desemprego pelo menos 10 pontos percentuais superior à dos formados em Engenharia, Indústrias Transformadoras e Construção.
  • Este fosso é visível logo no primeiro ano após o curso e mantém-se cinco anos depois, embora de forma ligeiramente mais atenuada.

Qualidade do emprego: salários, contratos e sobrequalificação

O estudo sublinha que ter trabalho não significa ter um trabalho adequado. A análise avaliou cinco dimensões de qualidade do emprego: salário por hora, estabilidade contratual, satisfação profissional, sobrequalificação e alinhamento entre formação e função.

DimensãoÁreas em Destaque PositivoÁreas com Maior Vulnerabilidade
Salário e SatisfaçãoTecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e EngenhariasArtes, Humanidades, Serviços e Bem-estar
Estabilidade ContratualTICVárias áreas de Ciências Sociais e Humanidades
SobrequalificaçãoMedicina e Medicina Dentária (apenas 6,2%)Humanidades (50,6%), Serviços (50%) e Artes (46,3%)

A sobrequalificação — desempenhar funções que exigem um nível de escolaridade inferior ao detido — é o problema mais frequente de desalinhamento em Portugal. Além disso, o relatório alerta que os detentores de mestrado e de cursos de ciclo curto apresentam maior risco de sobrequalificação face aos licenciados, evidenciando a dificuldade crónica do tecido empresarial português em absorver perfis altamente qualificados em funções correspondentes.

 

A média de curso ainda conta (e muito) no salário

Num momento em que muito se debate o peso das soft skills, o desempenho académico comprovou ter influência direta e duradoura na vida profissional:

 
  • Média mais alta = menos desemprego: A classificação final do curso é a variável individual mais consistentemente associada à redução do desemprego.
  • Impacto direto no ordenado: Por cada valor adicional na média final, regista-se em média um aumento salarial de 2,3% ao fim de um ano e de 4% após cinco anos. Na prática, um diplomado com mais 5 valores na média ganha cerca de 20% mais cinco anos após terminar o curso.

Por outro lado, o estudo revelou uma surpresa: a experiência internacional durante a licenciatura ou mestrado (como o programa Erasmus) não demonstrou efeitos estatisticamente significativos nem na redução do desemprego, nem nos níveis salariais.

Já a experiência profissional prévia reduz a probabilidade de desemprego apenas no primeiro ano de transição para o mercado.

O mestrado compensa a longo prazo?

Ter o grau de mestre confere uma vantagem clara na entrada inicial no mercado de trabalho, traduzindo-se numa menor probabilidade de desemprego no primeiro ano.

No entanto, ao fim de cinco anos, essa diferença estatística face à licenciatura dissipa-se. Na geração mais recente analisada, o efeito protetor do mestrado revelou-se significativo apenas em três áreas específicas:

  1. Línguas;
  2. Ciências Sociais, Jornalismo e Informação;
  3. Gestão e Administração.

Desigualdades de género persistem cinco anos depois

Os dados mostram que as mulheres licenciadas ou mestres continuam a enfrentar barreiras estruturais significativas no mercado português:

  • Desemprego tardio: Embora no primeiro ano a taxa seja equiparável à dos homens, cinco anos após a conclusão do curso as mulheres apresentam uma probabilidade significativamente mais elevada de desemprego.
  • Menor remuneração e estabilidade: Em ambas as coortes, as mulheres auferem salários mais baixos, têm menor estabilidade contratual e menores níveis de satisfação com a carreira.
  • Desalinhamento: Registam maior risco de sobrequalificação e menor probabilidade de trabalhar diretamente na sua área de formação um ano após terminarem os estudos.

Índice de Desvantagem Cumulativa: os diplomados recentes estão mais vulneráveis

Ao agregar as cinco condições desfavoráveis num indicador global (baixo salário, ausência de contrato sem termo, insatisfação, sobrequalificação e trabalho fora da área), os autores concluíram que a precariedade se está a concentrar:

  • A fatia de diplomados que não enfrenta nenhuma destas desvantagens caiu para metade: passou de 14,1% (geração de 2016/17) para apenas 7,8% (geração de 2020/21).
  • A percentagem de recém-formados que acumula as cinco desvantagens em simultâneo quase triplicou, subindo de 1% para 2,8%.
  • Este perfil de desvantagem múltipla atinge predominantemente mulheres, diplomados com médias académicas mais baixas, diplomados do subsistema não universitário e trabalhadores em regime de part-time.

Mais transparência para decisões mais informadas

Para Ricardo Biscaia e para a equipa do EDULOG (composta também por Eugenia Suarez, Carla Sá, Pedro Videira, Alex Nourou e Adriana Inácio), estes resultados não devem servir apenas para justificar cortes cegos de vagas ou fixar a oferta apenas na empregabilidade imediata.

O foco deve ser a equidade e a informação:

Dar mais informação é uma maneira de as famílias tomarem uma decisão mais informada. Famílias mais favorecidas sabem à partida quais cursos funcionam melhor. É um problema grave de equidade”, alerta o coordenador do estudo.

O think tank apela a que as instituições de ensino superior e o poder público recolham e publiquem, de forma regular e harmonizada, indicadores detalhados não só de emprego, mas também de salários, adequação da formação e tipo de vínculos contratuais, permitindo aos futuros candidatos escolhas conscientes para o seu percurso.