As Boas Conversas da Jomase


Duas décadas de constante resiliência, entrega e emoção escrevem a história da “Jomase-Boas Conversas”. Esta é, indubitavelmente, parte da história da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), acompanhando-a desde o Campo Alegre até ao Pólo da Asprela, assistindo de perto a cada crise e a cada conquista dos/as estudantes e da instituição. Hoje, este ciclo está prestes a ser quebrado e esta empresa familiar vê a sua continuidade em risco.

Quando se entra no ensino superior é-nos advertido que esta é uma nova realidade, a promessa para um futuro, um novo capítulo da nossa vida que começa e, que em nada prossegue a nossa vida anterior. Com esta novidade, como todo o estímulo novo, vem a estranheza, vem esta reação de ausência de reconhecimento, a procura por identificação. Nesse ato de busca de pertença, vamos nos vinculando com quem partilha a cadeira ao lado, com quem se cruza connosco nos corredores e com quem partilha o mesmo espaço que todos nós, permitindo-nos que o contexto educativo ganhe alguma cor, cheiro, som, sabor e tato. São as pessoas que nos dão significado e nos permitem atribuir significado. 

Desde o nosso primeiro dia, da primeira vez que nos explicaram como o sistema de senhas funcionava, até ao último café que pedimos, sempre fomos recebidos com uma afeção calorosa, e não menos eficiente por isso, que nos pôs à vontade, sem complexos em questionar o que quer que fosse, como por exemplo, sobre o próprio menu. Criou-se, estendendo-se até hoje, uma relação de confiança. A confiança em quem cozinha para nós, só nos permitiu ter maior credibilidade na instituição onde estamos a estudar. Além da variedade de pratos e do seu sabor aprovado, as pessoas da “Jomase-Boas Conversas” temperaram os nossos dias com os seus cumprimentos matinais, com a sua boa disposição contagiante, com o seu contacto humano. É o serviço personalizado, que sabe quem somos, que vai recordando o que pedimos, como pedimos, que vai se ajustando ao que pedimos, quando pedimos. São eles que permitem que o bar seja o promotor de toda a interação social presente naquelas paredes universitárias, são eles que nos alimentam, indo para além de um simples prato. 

De uma forma natural e espontânea, estas pessoas atribuíram um verdadeiro significado à palavra “família”, por nunca terem dispensado um apoio incondicional e uma ajuda ainda maior ao percurso de cada um de nós. Foram, precisamente, as mãos que nunca falharam em estender-se que fizeram erguer-se um profundo sentimento de Casa, inclusivamente para aqueles que não seriam estudantes da FPCEUP. E por isso, a perspetiva de uma despedida é, para todos os estudantes, algo que é recebido com muita dor e tristeza.

Não permanecem em segredo os inúmeros desafios com os quais fomos deparados com o confronto da pandemia Covid-19, a mesma que nos impossibilitou os abraços calorosos e de poder viver a vida académica ao seu limite, a mesma que demoliu sentimentos e vidas, entre as quais, inúmeras famílias que perderam as suas bases e o conforto de acordar sabendo que lhes esperava um longo dia de trabalho. A “Jomase-Boas Conversas” inclui-se nessas famílias, uma das nossas tão queridas que trabalhava em prol não só das suas próprias vidas, mas da vida de inúmeros estudantes a quem enchiam os corações com o carinho e, possivelmente, uma meia de leite e torrada pela manhã.

Se, desde logo, a conjuntura socioeconómica resultante da Covid-19 se refletiu numa quebra de 80% da faturação desta empresa, este cenário de adversidade é, agora, reforçado por novas medidas que visam o término da concessão do bar à Associação de Estudantes e, consequentemente, a saída desta empresa da FPCEUP. Não obstante as dificuldades emergentes, os/as trabalhadores/as da “Jomase-Boas Conversas” continuam, dia após dia, empenhados em reerguer-se, não só pela sua própria sobrevivência, mas também pelos/as estudantes, que não poderiam ficar indiferentes a esta crise.

Hoje, ainda que vivemos em incerteza do que nos espera o futuro, sentados em frente às notícias com esperança de compreender que rumo poderemos tomar, temos a certeza daquilo que queremos enquanto estudantes. Não nos deixemos cair no erro de os resumir unicamente a trabalhadores de uma faculdade, que procuram apenas receber-nos nas horas de almoço como uma obrigação, mas sim como pessoas dignas e merecedoras de um mundo com visão para um futuro próximo, em que enchem os corredores e o balcão da faculdade, para nos receber de volta.

A família “Jomase” não é só um serviço… é uma parte daquilo que é a FPCEUP e é um pedaço daquilo que todos nós, estudantes e profissionais que por esta Faculdade passam, levamos. A “Jomase” é um conjunto de carinho, consideração, memórias e, acima de tudo, é uma família que merece uma oportunidade de mostrar que está preparada para evoluir a par e passo com tudo o que lhe é exigido. Se realmente somos uma Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação que se preocupa com o outro, que procura desenvolver a empatia, porque não valorizamos as PESSOAS que fazem parte da nossa história? Queremos ser reduzidos a estatísticas, a verbas, a cursos académicos e a investigações científicas ou queremos, em adição a tudo isso, primar pela atenção para com os outros, pelo cuidado com quem nos rodeia? Sejamos capazes de dar o mote à sociedade: as pessoas importam, está na hora de as valorizar.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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