Já passaram dois meses desde que aqui estou. Por incrível que pareça, sinto que aqui estou há pelo menos seis. E “pior” do que isso é que não tenho noção de tal.

Lembro-me que passei o mês de Agosto preocupada sobre a possibilidade de ir estudar para fora de casa. Naquela altura ainda nem tinha a certeza da cidade ou se aquilo ia mesmo acontecer. Quando esses fantasmas vagueavam na minha cabeça, eu dizia a mim própria que ainda faltava muito tempo. Setembro ainda estava longe e sofrer por antecipação é algo que não combina comigo.

No entanto Setembro chegou e com ele a confirmação de que eu me iria mudar para as Caldas da Rainha dentro de duas semanas. O medo tomou conta de mim durante esse tempo. Lembro-me de ter chegado a chorar na minha cama. Lembro-me de quando arrumei o meu quarto e pensei que tudo aquilo ia de deixar de ser a minha rotina. Lembro-me de sentir o meu coração a partir quando me recordava dos dois anos em que estudei no centro do Porto. A minha cidade – onde eu cresci, vivi, fiz amizade e tive várias primeiras experiências – ia deixar de ser a minha casa.



Eu sei perfeitamente que milhares de pessoas da minha idade passaram e ainda vão passar eventualmente por uma fase parecida com esta, mas não deixa de ser assustador. Nunca tinha visitado as Caldas, não tinha noção da real distância a que se encontrava e das diferenças que ia sentir. A primeira vez que pisei solo caldense foi no dia anterior ao começo das aulas, ou seja, não tive tempo para me adaptar e dar fé da pancada. Acho que nem tive tempo para me chegar a arrepender da escolha que fiz.

Algo que deixei claro a mim mesma antes de cá chegar foi: não vou ser uma pessoa que eu não sou. Não quero fingir que me encaixo num certo grupo, que gosto de determinadas coisas e que aceito outras. Não vou ter filtros. Vou estar aqui dois anos da minha vida (pelo menos), recuso-me a encarnar uma personagem durante tanto tempo. Se isso significar estar dois anos sozinha, prefiro assim. Isto foi a melhor decisão que eu tomei.

Da mesma maneira que eu escolhi ser eu mesma, as pessoas à minha volta também são genuínas. É por esse motivo que se cria conexões tão rápidas e tão fortes aqui. Não sei se o facto da ESAD ser uma escola de artes proporciona tal, porém aqui a maioria é sincero. A maioria opta por não se esconder atrás de máscaras.

O curso em si desiludiu-me em parte. Não era bem aquilo que eu queria e esperava. Ainda assim vale a pena acordar todos os dias e tentar dar o meu melhor. Ás vezes dá vontade de mandar um grande “fodasse” em alguns trabalhos, mas felizmente passa rápido. Felizmente estes pontos menos positivos são contornados com a turma incrível que tenho. Não existem intrigas, todos se ajudam e ninguém se assume melhor que ninguém.

Quando vim para cá pensei que o meu grupo de amigos ia ser outro. Conheci imenso pessoal online que estava tão perdido como eu. No entanto, hoje em dia o meu “squad” são alunos da minha turma e são a minha segunda família. São eles que aturam o meu (frequente) mau humor, as minhas caras de paisagem com o que alguns professores dizem e as barbaridades que passo a vida a dizer.

Sou extremamente feliz aqui, por mais que não seja da maneira que eu imaginei que fosse. Por mais que existam cadeiras no curso que dê vontade de atear fogo. Por mais que viagens de quatro horas até ao Porto sejam super entediantes.

Sinceramente, não acho que eu tenha mudado muito. Acho que cresci. Aprendi que me posso divertir sem ultrapassar limites e ainda assim ter tempo para estudar. Equilíbrio é algo saudável e excessos não fazem bem. Isto é válido para álcool e para estudos.

Para todos aqueles que ainda vão ter esta experiência: No inicio vai ser caótico, vão ter saudades do tempo em que não tinham que cuidar de vocês sozinhos e provavelmente vão dar mais valor ao que os vossos pais faziam por vocês. Vão ter vontade de arrumar as malas e voltar para casa, contudo acreditem, as coisas melhoram. Aproveitem, divirtam-se e sejam vocês mesmos. Mudança nem sempre implica amadurecimento, mas amadurecimento implica sempre mudança.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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