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No meio do turbilhão de emoções que antecedem a submissão definitiva da candidatura e da consciência do que significa verdadeiramente tal decisão – todo um futuro naquelas seis opções! – senti a necessidade de partilhar a minha própria experiência como forma de deixar um “calma, o teu futuro não está necessariamente naquela ficha” (ou até pode estar, mas não com os contornos que imaginavas). Aterrorizado/a com tal incerteza? Não estejas. 

Quando cheguei ao 12º ano, aconteceu-me o que acontece à larga maioria dos estudantes do secundário: intensificou-se a pergunta, vinda de todos os lados, sobre qual o curso que iria seguir no Ensino Superior. No que toca à resposta, também aconteceu o que acontece à larga maioria dos estudantes confrontados com essa pergunta: lá no fundo, eu também não sabia muito bem. E digo maioria porque, apesar de muitos dos teus colegas provavelmente já saberem quais serão as opções que vão deixar na ficha de candidatura e darem assim a entender que és das poucas pessoas da tua turma que ainda não sabe o que escolher, a verdade é que muitos deles estão na mesma situação que eu estava: lá no fundo eu não sabia o que queria, mas respondia sempre Engenharia. 



Era uma resposta que deixava toda a gente agradada: engenharias tendem a ser áreas com emprego, o que deixava pais e professores satisfeitos. Parecia uma opção segura. Mas bem no fundo, apesar de toda a gente recomendar que falássemos com pessoas que já estivessem no curso que queríamos ou que já o tivessem terminado, eu nunca o fiz. E não o fiz por uma razão que só hoje admito verdadeiramente: eu tinha medo que me levassem a concluir que o curso não era realmente aquilo que eu pensava, que me levassem a concluir que não era a área que eu queria seguir, que me deixassem à deriva sem saber que curso escolher. Mantive essa posição até ao final do 12º – depois de ter pensado em áreas como Gestão, Direito, Ciências Farmacêuticas e outras durante o 10º e 11º, finalmente tinha uma opção definida e não queria correr o risco de deixar de ter naquela altura do campeonato. 

Entrei. Na primeira fase e na minha primeira opção.

Fiquei três dias no curso.

E foi isso.

O mero contato com o programa das cadeiras, com um horário que tinha Matemática das 8 às 18h, foi o suficiente para perceber que aquele não era definitivamente o curso para mim. Várias pessoas me disseram que deveria ter esperado mais tempo, que talvez me adaptasse, que é o choque inicial da faculdade. Conheço aliás casos de quem até tenha acabado por se adaptar. Mas eu sou de ideias feitas, e mesmo hoje continuo sem me arrepender da decisão que tomei de deixar as engenharias para quem tem verdadeira paixão por elas. 

Certo… Mas e agora?

Tinha evitado conhecer o curso ainda no 12º para não ficar à deriva sem saber o que escolher naquela fase do percurso. E agora eis-me ali, não só à deriva como a pouquíssimos dias de ter de lacrar a candidatura para a segunda fase (e com a certeza de que deixar de estudar não era uma opção).

A lógica que apliquei foi a seguinte: se o que me tinha levado às engenharias tinha sido a esperança de emprego certo (e, portanto, o facto de ter pensado no futuro), a nova opção teria de ser algo de que gostasse verdadeiramente no presente – teria de ser algo de paixão, mesmo que não tivesse grande saída.

Fui para História.

As minhas duas fichas de candidatura na primeira e na segunda fase parecem de pessoas diferentes – a primeira de alguém de Ciências e Tecnologias, carregada de Engenharias; a segunda de alguém de Humanidades, com uma coleção de cursos como História, Arqueologia, Estudos Clássicos, Estudos Europeus, entre outros. 

As pessoas perguntavam-me muito se não me tinha arrependido de não ter ido para Humanidades no secundário, se era essa a área que gostava mesmo. A verdade é que não – e este é o primeiro conselho que dou, não para quem está para entrar agora para a faculdade mas sim para quem eventualmente esteja para escolher a área do secundário: deixem as opções em aberto, o mais aberto possível. Acreditem que as certezas de futuro que temos aos 14/15 anos não são necessariamente as certezas que teremos no fim do secundário (por muito certas que elas pareçam agora). Naquele tempo, Ciências e Tecnologias dava para entrar em todos os cursos (usando o exame de Português para os cursos de Humanidades) e felizmente tinha as opções em aberto o suficiente para poder trocar a área de Ciências pelas Humanidades no superior.

E não, não me arrependo.

É certo que, sobretudo nas cadeiras de História Contemporânea, os meus colegas ainda tinham a matéria “fresca” por terem estudado para os exames do Secundário – enquanto eu não ouvia nada sobre o assunto desde o 9º ano. Mas, pelo menos em História, não foi nada que não se ultrapassasse (até porque a matéria foi lecionada outra vez nas próprias aulas do curso). Quando realmente queres, não é esse detalhe que te impede de seguir um curso no Superior de uma área diferente da que seguiste no Secundário.

E o tempo passou.

No terceiro ano do curso era mais ou menos certo que, quem quisesse realmente fazer algo no futuro ligado ao curso, teria de fazer Mestrado. Então era mais ou menos certo que esse seria o caminho a seguir. Mas confesso que, durante oMestrado, começaram a surgir as dúvidas de alguém que se aproxima do final do seu percurso académico. Dúvidas que, de alguma forma, são uma espécie de retorno ao “O que queres ser quando fores grande?”.

E eu não sabia. 

Tinha a Licenciatura terminada, estava no final do primeiro ano de Mestrado. Tinha a certeza que amava o curso, sobretudo a parte da investigação que estava então a experimentar com o Mestrado. Mas amar ao ponto de fazer da investigação a minha profissão futura? Surgiu-me o mesmo medo que tinha quando no início do 10º pensei em seguir investigação em Ciências Farmacêuticas – até podia gostar ao início, mas uma vida TODA a fazer a mesma coisa era algo que me assustava levemente (“e se eu me cansar?”), razão pela qual já nessa altura tinha desistido da área. 

Haviam outras saídas. A principal era a mais óbvia quando a maioria pensa em História – professor. Mas a verdade é que apenas a carreira universitária me seduzia. É que a ideia de passar a vida a tentar manter uma sala de aula de indisciplinados em silêncio esgotava-me a paciência antes mesmo de ter dado a primeira aula. Para além disso, a carreira universitária permitia conciliar investigação e docência, em vez de nos confinar a um programa chato a falar sempre das mesmas coisas. Sim, tal opção agradava-me. Mas sejamos sinceros: agradava-me a mim e a outras centenas ou milhares. Não era um caminho seguro e garantido, mas é definitivamente uma opção que ainda mantenho em aberto.

Foi então que uma conclusão começou a tomar forma: eu tinha escolhido História a pensar demasiado no presente e quase nada no futuro. Tinha seguido uma lógica tão radical como a que seguira para a tal Engenharia e a verdade é que apesar de estar agora mais satisfeito, a solução não era ainda assim suficientemente satisfatória. E quando digo que não pensei no futuro, não digo que o problema seja só o facto de o mercado de trabalho não oferecer muitas vagas para formados em História – esse nem era o meu principal problema. É que eu estava numa situação que, mesmo  que houvessem vagas, eu era demasiado específico nas vagas que queria (porque todas as outras opções de emprego na área não me atraíam) e convenhamos que Portugal não nos permite escolher muito. Ainda hoje não desaconselho História quando me dizem que estão a ponderar seguir a área e me perguntam o que achei do curso. Apenas recomendo que pensem nas opções de saída e se perguntem se se imaginariam a trabalhar nessas áreas. Porque a escolha do curso nunca pode ser nem exclusivamente sobre paixão nem exclusivamente sobre emprego – equilíbrio é tudo na vida.

Mas a história não acaba aqui. 



Tinha 21 anos na altura, ainda tinha mais do que tempo de “limar” alguns pontos imprevistos de algumas decisões impulsivas que tinha tomado aos 18 anos (apesar de que nunca é tarde para tal!). Foi então que, depois de ter lido bastantes opiniões online, uma frase em particular ficou-me na cabeça – era algo como “Direito só não dá para passar receitas e dizer a missa”. Lembram-se do receio de passar a vida toda a fazer a mesma coisa? A variedade imensa de saídas do curso chamou-se desde logo a atenção. Monotonia não era definitivamente um destino a que o pessoal de Direito estivesse fadado à partida. Pelo menos à partida, claro. A ideia começou a tomar a forma de decisão, daquelas sobre as quais temos a certeza – e das quais alguém determinado não desiste facilmente. 

Assim, em Agosto de 2018, estava a fazer a candidatura à Licenciatura em Direito para Titulares de Outros Cursos Superiores (o que facilita muito a decisão, já que não obriga a fazer outra vez exames nacionais). Entrei em Setembro. A minha defesa da tese de História foi só em Outubro portanto foi literalmente defender a tese de manhã e à tarde seguir para uma aula de Direito Constitucional de presenças obrigatórias.

Não podia estar mais satisfeito.

Sou apaixonado pelas matérias, sou apaixonado pelo edifício maravilhoso da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, sou apaixonado pelo Direito no geral. E pela História. Porque não, também não me arrependo de não ter ido logo para Direito quando saí do secundário. Tornou-se recorrente ouvir as perguntas de “mas não te arrependes de…?” – não, não me arrependo de nada. Apesar de ter ido para um curso de que gostava quando entrei em História, a entrada na faculdade é quase sempre uma mudança muito significativa – exige maturidade que nem todos têm (e que eu não tinha na medida que era suposto ter). Por isso sei que as notas que teria na altura em Direito teriam sido certamente catastróficas – notas essas que definitivamente contam muito quando a concorrência é grande. O tempo e a experiência fizeram-me crescer o suficiente para os resultados serem outros agora.

E, para além de tudo, a minha paixão pela História não desapareceu. Mantenho o desejo interior de vir a ser professor universitário e, quem sabe, unir as duas paixões sob a forma da História do Direito. Fora que não podemos deixar de considerar a importância que compreender as origens das nossas formas de pensar hoje em dia tem (ou devia ter!) para a prática jurídica. História deu-me toda uma nova forma de olhar o mundo com outros olhos – uma visão fundamental para encarar o próprio Direito de outra forma. Enquanto isso, a multiplicidade de saídas do mundo jurídico permite-me encarar o futuro profissional de forma mais tranquila. Por tudo isto digo: arrependimentos? Zero. E acreditem que este presente que no momento em que submeti a candidatura à Engenharia era futuro, jamais me passou pela cabeça naquela altura.

Não tenho um percurso dentro do padrão mais habitual, mas a verdade é que sinto que tudo se encaixou harmoniosamente numa sucessão de eventos que era necessário que acontecessem – e que felizmente aconteceram, apesar de jamais os ter imaginado aos 18 anos – para me trazerem até aqui hoje. Não há uma regra que imponha qual será o teu futuro percurso. E acredita que, por muito que queiras tentar preparar todo o teu amanhã HOJE e AGORA (e por muito que te pressionem a isso), a verdade é que ele tem surpresas preparadas para ti que nunca te passariam pela cabeça – por muito clichê que isso possa parecer. Mas pensa pelo lado positivo: o desconhecido não tem de trazer sempre surpresas más, essa é a visão do pessimista. Não sabes o que o futuro tem guardado para ti. E ainda bem: já pensaste no quão positivas poderão ser as surpresas que o futuro te reserva? Não, não pensaste – esse é o ponto. Terás de viver para ver. 

Desejo-te toda a sorte nesta nova fase!”