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Excelentíssimos professores,

Em toda a minha vida vos vi como ídolos, referências para aqueles que adoram aprender, saber coisas úteis ou inúteis, conhecer os detalhes do mundo, da vida e da felicidade. Todos os professores eram incríveis para mim. Desde o mais aborrecido ao mais divertido, desde aquele que não sabia ensinar àquele que colocava a matéria nas nossas cabeças sem nos apercebermos, desde o professor que lecionava as disciplinas que não gostava até àquele que ensinava as minhas favoritas, passando também por aqueles que não me davam aulas, todos eram interessantes, todos eram os meus ídolos.

Cheguei à Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra com uma ideia sincera de ser professor universitário, lecionar qualquer coisa que fosse do meu interesse, dar as aulas mais interessantes e cativantes e ter os melhores alunos. Enquanto esse dia não chegar, contento-me com os sonhos de o vir a ser e a fazer. Mas esta carta não serve para dar graxa àqueles que idolatro. Em tempos que correm, onde uma pandemia é a realidade e as aulas à distância são a solução, vejo coisas que não deviam acontecer. E tudo começa neles, nos meus ídolos. Porquê?



A minha rotina era simples. Ter aulas, estudar, treinar e dormir. E agora? Ainda mais simples é. Ter aulas e dormir pouco. Onde está o desporto? Não está. Onde está o tempo para mim, para os meus irmãos, para os meus pais? Não está. Como é que é possível que, com dezenas de coisas por dia a acontecer, eu ter tempo para ver uma série, para treinar e para viver e agora a única coisa para qual tenho tempo é estudar e mesmo assim não consigo despachar todos os trabalhos? Não, não acordo ao meio dia e deixo tudo para a última. Acordo às oito horas todos os dias e nunca me deito antes da uma da manhã, para tentar fazer aquilo que apenas os professores da faculdade pedem. Não consigo mais. Não sou de ferro. Tenho sono. Não consigo estar concentrado. Não consigo aprender. Colapsei.

É por isso que, num desespero, depois de quatro dias sem conseguir ligar o computador, por causa de uma depressão, a precisar de fugir e sem saber a quantas aulas faltei ou quantos trabalhos ficaram por entregar, vos peço do fundo do coração, com o resto das forças que tenho, que pensem nos vossos alunos. Imaginem como é ter uma rotina onde falávamos, socializávamos, treinávamos e tínhamos dias preenchidos por atividades e pessoas e de repente nos encontramos presos, sozinhos em frente ao computador, sem conseguir fazer nada do que antes fazíamos, porque temos dois ou três trabalhos para entregar de um dia para o outro, que vocês pediram, uns por cima dos outros. Pensem como é ter pais e familiares infetados em casa e termos de ser nós a ajudá-los. Pensem como é estar parado durante 12h em frente ao computador a fazer trabalhos. Pensem como é estar sem fazer o desporto que tanto gostávamos. Pensem em nós. Por favor. Pensem numa solução melhor do que nos encher de trabalhos. Nada disso compensará as aulas. Muitos apenas faço por obrigação e nem percebo o objetivo. Muitos nem olho para eles porque são os membros do meu grupo, que num esforço maior que o meu os fazem. Sejam melhores. Pensem em nós. Por favor.

Não deixam de ser os meus ídolos. Sou apenas uma voz, no meio dos milhares de alunos que estudam na Faculdade de Ciencias do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra, em todas as outras faculdades da UC e das outras Universidades. Muitos alunos nem devem estar na mesma situação que eu e que os meus colegas de curso. Mas muitos estarão. E por isso vos peço mais uma vez, num último apelo sincero, pensem em nós.

Com os mais sinceros cumprimentos,

Um aluno sincero entre muitos.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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