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Ciência para amantes da IA

É com grande pragmatismo que me vejo movido a escrever esta reflexão (curta – juro, Joca) acerca da inteligência artificial (IA), o impacto da sua utilização sobre quem a usa e sobre quem a vê ser usada, e também tentar responder a quem pergunta se ainda é benéfico estudar mais num mundo em que “já se sabe tudo”, ou, por outras palavras, no qual o conhecimento repousa cada vez mais perto das nossas mãos, mas proporcionalmente mais longe das nossas mentes.

Começando de uma forma mais séria e que devidamente introduz o tema, tomo por base a análise de um estudo conduzido em junho de 2025 publicado pelo MIT Media Lab, o qual podem analisar com mais detalhe (recomendo fortemente) no link deixado no fim deste artigo. Portanto, sobre o que é o estudo? O texto publicado divide 55 estudantes de várias universidades da cidade de Boston e periferia, de graus de ensino desde a licenciatura até ao pós-doutoramento, em três tipos de grupos de trabalho, com a missão de escrever um artigo que seria futuramente revisto por, inclusive, avaliadores humanos, e, enquanto os escreviam, observar e analisar, com recurso a técnicas de eletroencefalografia, a atividade cerebral dos participantes. Os grupos dividiram-se em 3 tipos: grupo 1 (grupo LLM – Large Language Model), limitado a usar puramente o LLM escolhido (ChatGPT da OpenAI) como fonte de informação; o grupo 2 (grupo do motor de busca), cuja informação recolhida teria de vir puramente de uma pesquisa tradicional de um motor de busca sem influência de conteúdos/informação recolhida por IA; e, por fim, o grupo 3 (grupo cerebral), neste, a informação teria de ser originária de fontes exclusivamente não online (websites e IA, explicitamente). Após redação e devida avaliação dos texto produzidos, as conclusões abrangeram vários domínios analisados, mas destacaram-se algumas, nomeadamente, o facto de haver um enriquecimento de conexões neuronais o quanto mais distanciados os utilizadores estavam do LLM; e outra, talvez ainda mais relevante do que a primeira: quando pedidos para trocar de grupos de trabalho, os participantes que partiram do trabalho apoiado em matéria não digital e utilizaram posteriormente o LLM como ferramenta de revisão obtiveram resultados acima da média de todos os grupos, enquanto que para os que começaram no LLM e posteriormente trocaram para o cerebral, foi verificada uma descida nos resultados, e ainda, na capacidade de relembrar e detalhar a informação que trataram.

Assim sendo, é possível chegar a uma conclusão evidente: o uso de IA como ferramenta de revisão incrementa a taxa de sucesso e rendimento do trabalho humano, mas não substitui a capacidade própria de raciocínio crítico, contribuindo esta para o desenvolvimento de interligações mentais dos tópicos e ideias abordadas, fomentando a criação de cadeias de raciocínio.

Pessoalmente, gosto de ver este resultado com a seguinte imagem: físico como sou, posso dizer que o cérebro é uma esfera (aproximadamente, vá), com alguma plasticidade. Quanto sujeito ao uso de LLMs, a informação vai brevemente repousando sobre a sua superfície, como pontos sobre uma circunferência, indo estes aumentando em número com o tempo de utilização. O que os faz interconectarem-se é o processo de reflexão e análise crítica, aquilo que nos leva a dizer “Ahhhhhhh”, quando percebemos algo. Esta ligação é uma “linha” entre os pontos, passando por dentro da esfera anterior, que vai assim ganhando densidade, ou para o cérebro, familiaridade com a matéria. Algo muito curioso desta analogia é que, eventualmente, com ligações suficientes, as linhas cruzam-se e geram novos pontos completamente provenientes do pensamento: a criatividade. O que por si só já é usar geometria para visualizar um processo mental. Mas não nos esqueçamos do que eu disse antes, “com alguma plasticidade”, ainda há física nisto, senhoras e senhores! O cérebro tem esta coisa intrigante: peguem na esfera anterior, comprimam-na, estiquem-na, dobrem-na, e, quando derem conta, as linhas já mutaram com ela, e já fizeram novos pontos e novos paralelos entre ideias, fenómeno que não surgiria com a pura recolha de informação.

 

É no mínimo arrepiante imaginar uma realidade em que as nossas mentes são todas superfícies esféricas cheias de pontos, mas vazias e sem ligações aparentes no seu interior. Ainda assim, não deixo de acreditar que, por muito alarmante que a decadência cerebral e da atenção que damos às coisas seja, nunca perdemos o atributo que levou a tudo isto: a curiosidade. Baseando-me num modelo divulgado já pelo palestrante Vinh Giang, podemos dividir o processo de aprendizagem em quatro estágios: a ignorância inconsciente (quando desconhecemos o que ainda não sabemos), a ignorância consciente (quando sabemos que não sabemos algo), a competência consciente (quando começamos a estudar e a perceber o tópico), e, finalmente, a competência inconsciente (como uma memória muscular cerebral que atua sem que estejamos ativamente a pensar sobre o que fazer). Destes quatro, talvez o mais cativante seja o primeiro, dado o seu carácter perpétuo. Se há algo que nos dizem desde sempre e com o qual nos familiarizamos rapidamente é o facto de que nunca vamos saber tudo durante o nosso tempo de vida. Por muita informação que possamos reter, haverá sempre um novo campo do conhecimento que ainda nos é desconhecido. Implicando que todos nós vivemos num estado de ignorância inconsciente sobre uma miríade vasta de temas. A transição deste estado para o segundo é um passo natural induzido pela dúvida (“mas será que…”), onde começamos a, progressivamente, subir os degraus dos estágios, mas sem nunca perder a constância do primeiro. E é aí que podemos novamente recorrer ao assunto que motivou este texto. Factualmente, nunca houve na história humana uma ferramenta que colete e divulgue de forma tão rápida e eficaz a informação, como a IA. Daí que me vejo na iminência de fazer um apelo aos que ainda não se cansaram de ler: questionem-se sobre qual será verdadeiramente a melhor capacidade que um pode ter. Se chegarem à mesma conclusão momentânea que eu, talvez concluam que a capacidade de aprender eficazmente ocupe o primeiro lugar do ranking, aliada à vontade de fazer perguntas, e à forma de as saber fazer.

Não deixa de ser caricato como uma das skills mais vitais no mundo moderno seja aquela que sempre acompanhou o Homem desde a sua origem. Referindo novamente o estudo supracitado, aproveito para fazer uma menção a um dos excertos que mais me marcou, “Most of participants in each group (13/18) chose topics that resonated with personal experiences or reflections (…)” (a maioria dos participantes de cada grupo (13/18) escolheu tópicos que ressoaram com experiências ou reflexões pessoais). Invariavelmente, escolhemos refletir sobre aquilo que nos é mais pessoal, abrindo espaço para novas visões, com as raízes afundadas nas nossas. Ou como Martin Scorsese o poria: “The most personal is the most creative” (o mais pessoal é o mais criativo), porque afinal, o que seria um novo pensamento sem quem o tivesse pensado e anteriormente vivido? Se deste texto todo poderem tirar alguma coisa, espero que fiquem com isto: a IA não deve ser usada de forma a deixarmos de lado a nossa qualidade mais fulcral, deve, sim, servir de bengala à criatividade no passadiço da nossa história.

 

Link do artigo abordado: https://www.media.mit.edu/publications/your-brain-on-chatgpt/

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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