O que é a ciência? O que é uma ciência? O que é uma ciência exata? O que é uma ciência social? Como surgiu a ciência? O que faz de uma área do saber uma ciência? Que critérios existem?

Epistemologicamente, ciência deriva do latim scientia, que significa conhecimento. Este, por sua vez, deriva do latim cognoscere, que significa ato de conhecer. O conhecimento é constituído por dois elementos básicos: o sujeito cognoscente (quem tem a capacidade de conhecer e adquirir conhecimento) e o objeto cognoscível (o objeto do conhecimento, o que se pode conhecer, o objeto de estudo).



A maneira como o conhecimento se produziu e reproduziu está intrinsecamente ligada ao contexto social e cultural. À própria história do mundo. O pensamento científico inicia-se na antiguidade clássica quando se abandona o dogmatismo e o ceticismo e passa-se a utilizar o que nós apelidamos de facto científico – o observar no meio o fenómeno para se tirarem conclusões e formularem teorias e leis. Era assim que o conhecimento científico – ligado à natureza – era produzido.

Passada a Idade Média, surge o Renascimento e com ele o humanismo. Volta-se ao culto do Homem, ele passa a estar no centro do mundo. Há uma profunda mudança na economia, na sociedade, na política, na arte, na religião, na ciência, na literatura, entre outros. O termo surge associado ao culto da gramática, retórica, filosofia, etc. O conhecimento? Não era somente ciência natural. Era filosofia, era gramática, era retórica, era história. É um saber sobre o Homem em todas as suas faces. Desde a anatomia à música! Da Vinci não só possuía conhecimento artístico como ainda possuía na área da matemática e arquitetura. O ser humano era visto como um todo e todo o conhecimento girava à sua volta.

O que é então a ciência? Bom, é de facto conhecimento. Aconselho a verem as definições de Aristóteles, Popper, Khun, Fourez, Chalmers, Foucault e Feyerabend. Morin afirma até que definir ciência é complexo e difícil e surgem várias definições fruto do seu tempo.

Ciência é, então, um termo aplicado a um conjunto de conhecimentos de uma determinada área do saber que mediante um conjunto de regras procura compreender o mundo à sua volta e estabelecer, de maneira objetiva, leis, teorias e regras que possam explicar a realidade estudada.

Associa-se imenso “ciência” com “exatidão” e diz-se até que se não for exato não é ciência. Daí que se faça a distinção entre “ciências exatas” e “ciências humanas” pressupondo-se que as segundas não são exatas (afirmando-se, até, que são subjetivas e, por isso, não podem ser ciências). Outras das características que são associadas à demarcação da ciência são a existência de um método científico e da falsificabilidade das teorias (Karl Popper afirma que uma teoria é científica se for suscetível de falsificação empírica através de observação pelo que uma teoria irrefutável não pode ser científica).

Estabelecemos aqui 3 critérios. No entanto, é difícil estabelecer critérios porque não existe um consenso sobre eles, mas de uma forma simples e comum selecionei estes três que aparecem sempre em discussões quanto à legitimação das ciências, fazendo parte das suas características. São elas: objetividade; método científico (natureza empírica); e falsificação. Partimos assim do pressuposto que ciência que seja ciência tem de se reger por estes critérios.

Com estes critérios, numa análise rápida e pouca profunda, é possível dizer que a geologia, física e biologia são ciências, e a sociologia, comunicação e linguagem (exemplos de ciências sociais e humanas) não o são. Contudo, não é bem assim.

Quanto à objetividade das ciências, pressupõe-se que a lei/teoria concluída (geralmente de áreas mais tradicionais e legitimadas) é exata. Aqui, a objetividade diz respeito ao teste inequívoco dessa teoria na realidade estudada sendo possível  transmiti-la e demonstrá-la. Deve constituir um elemento que sirva para melhor entender o mundo. Contudo, uma teoria pode ser objetiva (nos termos descritos anteriormente) apesar de estudar variáveis pouco previsíveis (como é o caso do comportamento humano).

De Ptolomeu passamos a aceitar a cosmologia de Copérnico. Da física Aristotélica passamos a aceitar a de Galileu e de Kepler e depois a de Newton. O conceito de gravidade em Newton foi substituído pela ideia de espaço-tempo de Einstein. As teorias estão em constante falsificação. Em mudança. Na realidade, uma teoria é certa não por ser verdade mas por ser a melhor explicação presente até se criar uma melhor. O objetivo nem é provar a sua veracidade mas sim a sua falsificação. Provar que não é falsa testando-a de todas as maneiras. Esta falsificação pressupõe a existência de um método.

Concernente ao método científico, é através dele que a ciência encontra conclusões e teorias relacionadas com a problemática que estuda. Sem um método lógico sobre o qual se devem reger, não podem atuar eficazmente no estudo da sua problemática. O método passa pelos seguintes passos: Observação; Formulação de Hipóteses; Realização de Experiências; Formulação de Leis; Elaboração de uma Teoria. Seria de esperar que todas as ciências que se regem por este método e o seguem à risca (coisa que as ciência sociais são acusadas de não fazer) sejam classificadas ciências, certo? Errado. Alguns dos mais célebres cientistas alteraram a ordem formulada ou ignoraram por completo alguns dos passos. Alguns deles são Charles Darwin, John Dalton, Francis Bacon, David Hume e Karl Popper. Darwin passou décadas a analisar dados e o seu trabalho é constituído por investigação sem nunca ter chegado à experimentação. Sem nunca ter verificado a natureza empírica das suas hipóteses. Onde está a prova científica documentada? Por falar em exemplos concretos da realidade observável: onde está a natureza empírica de equações baseadas em exemplos mentais? Schrodinger criou uma equação baseando-se num modelo simplificado. Um modelo simplificado! Nada empírico, nada observável, nada experimentado. Onde está aqui o método científico? Algumas das teorias da física quântica baseiam-se nas conclusões lógicas de outras teorias e não em experimentações ou dados observáveis.

Todos estes, vamos chamar-lhes “loopholes”, não são exclusivos das ciências que usei como exemplo. Mas são apontados nas ciências sociais e usados para as descredibilizar enquanto ciências.

As ciências sociais e humanas são vastas e atuam de formas diferentes. O seu objeto de estudo varia de acordo com o que pretendem conhecer, mas para fins de exemplificação usarei a sociologia – a primeira ciência social a nascer.



A sociologia nasceu em consequência da desnaturalização e dessacralização do real. Deus e a natureza deixaram de explicar o social. Durante o século XVIII com as revoluções francesa, americana, capitalista e industrial romperam as sociedades tradicionais e emergiram as sociedades modernas. Não foram a física nem a geologia que explicaram ou procuraram tentar explicar todas estas mudanças. Até à altura os fenómenos sociais eram fenómenos naturais ou divinos. O suicídio, o casamento, e o desemprego são exemplos de fenómenos sociais que hoje podem ser e são explicados pelo social (anteriormente explicados pelo divino e natural). Surgiu a necessidade de criar uma regra, uma ciência, um espécie de “física social” como afirmou Auguste Comte, um dos pais da sociologia (tal como Émile Durkheim). Com a ideia de reversibilidade social (já que tudo deixou de ser determinado) surge todo um novo conjunto de elementos a ser estudados.

As ciências sociais estudam o comportamento humano. Os cientistas sociais procuram prevê-lo e compreendê-lo. Todas têm o mesmo objeto de estudo real – o Homem – mas objetos formais diferentes – é isso que as distingue entre si.

A sua investigação científica passa pela definição do problema, planificação da investigação e processo de investigação. No entanto, muitos desconhecem como fazer uma investigação na área das ciências sociais. Uma árdua tarefa para aqueles que realizam investigações científicas seja no Ensino Superior ou nas suas profissões.

O processo científico é definido em 3 atos: a ruptura, a construção e a verificação. As suas etapas são: Pergunta de Partida; Exploração; Problemática; Construção do Modelo de Análise; Observação; Análise de Informações; Conclusões.

Aqui o “método científico” adquire o nome de processo científico. Um pouco diferente do usado nas Ciências Naturais. Mas necessário, real e usado. Não só existe um processo como existem métodos – o quantitativo e o qualitativo – e ainda técnicas de recolha e análise de informação – entrevistas, inquéritos, observação, análise de conteúdo e análise estatística.

E por vezes até experimentação! Quem nunca ouviu falar em experiências sociais? Desde experiências complexas às mais simples, das academicamente fundamentadas às quotidianas e por diversão, aqui estão alguns exemplos de perguntas que deram origem a experiências sociais: O que aconteceria se retirassem dos supermercados todos os produtos de outros países? De que maneira o apoio dos adultos afeta o aproveitamento escolar das crianças? O que aconteceria se pagassem aos desempregados 540 euros por mês sem nada em troca? As pessoas reconhecem facilmente o talento ou simplesmente gostam do que é popular? Se se deixar uma loja sem vigilância as pessoas roubarão ou pagarão pelos produtos que levarem? A roupa que uma criança que se encontra sozinha na rua tem vestida influencia a interação com desconhecidos? Entre outras.

Seja social, natural, humana ou de outra categoria que não tenha mencionado, a verdade é que em Portugal existem um conjunto de ciências bem diferentes em objeto de estudo. Convido-vos a darem uma olhadela na DGES nas cerca de 58 ciências que existem. De Ciências Religiosas, a Ciências Policiais, Ciências do Património Artístico e Cultural, Ciências Musicais, Ciências do Meio Aquático, Ciências da Linguagem, Ciências Florestais e Recursos Naturais, Ciências do Desporto, Ciências Agrárias, Ciências e Tecnologia do Som, entre tantas outras ciências, porquê tanta tentativa de descredibilização e desvalorização das Sociais e Humanas (e das artes, letras e humanidades em geral)?

Nas revoluções quem é calado primeiro não são (somente) os cientistas das nossas ciências mais tradicionais. São os pintores, os escritores, os músicos, os professores, os sociólogos e todos aqueles que estudam a sociedade, o real, o criticam, o interpretam e analisam. É desses que os ditadores têm medo. É desses que ousam ver a realidade e questioná-la. Testá-la. Perceber como funciona, porque funciona, e para quem funciona.

É desses. E esses somos nós. Os (futuros) cientistas sociais.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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