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Em todo este largo conjunto de meses em que temos vivido sob uma influência pandémica e no auge da incerteza e do risco, assistimos igualmente à importância da ciência como forma de resolução da crise de saúde pública. Os matemáticos são chamados para a construção de modelos de previsão do contágio pelo Sars-CoV-2, os epidemiologistas e os médicos de várias especialidades intervêm no sentido de identificar os melhores modos de tratamento dos doentes e de colaborar com os políticos nas melhores propostas e tomadas de decisão possíveis. No mesmo sentido, as ciências sociais e humanas dão o seu contributo para alertar e agir sobre problemas relacionados com a pobreza, a discriminação étnica ou de género, os déficits na educação ou mesmo a saúde mental, face ao panorama crítico do contexto português nesta questão última. Ainda assim, apesar desta interdisciplinaridade que desafia os preconceitos concernentes aos saberes sociais e humanos, as ciências que os produzem são ainda hoje, nas representações do cidadão comum (e mesmo nos momentos de atribuição de financiamento, embora não se pretenda que seja esta a dimensão em debate neste artigo), encaradas como coisas e coisas inaptas, desinteressantes ou sem utilidade prática. Porque não trazem resultados visíveis e a curto prazo, tornam-se rapidamente obsoletas para o que se preconiza enquanto futuro humanitário.



Portanto, colocadas estas visões em cima da mesa, como devem, afinal, ser olhadas estas formas de conhecimento? Qual deve ser o tratamento que devemos dar, enquanto sociedade, às ciências sociais e humanas? Deixo os seguintes pontos como guião, não prescritivo, ainda que exortador:

  • entender que as ciências sociais e humanas são ciências como as outras. Não são equivalentes no que pretendem conhecer, mas as ciências sociais e humanas constituem, efetivamente, projetos científico-disciplinares. Para uma ciência ser isso mesmo, exige-se-lhe a existência de um objeto de estudo específico e não comum a outras ciências, um ou mais métodos (a pluralidade metodológica desmente que o método experimental seja o “manjar dos deuses”) e conceitos e teorias que permitam mobilizar e operacionalizar aquele(s) método(s), através de técnicas, e orientar as práticas de investigação. Ora, sejam a filosofia, a história, a sociologia ou a antropologia, sejam a psicologia, as ciências da educação, a geografia ou a economia, todas elas possuem os seus focos de estudo, os seus conhecimentos e autores e as suas metodologias, sendo uns mais direcionados para as dimensões territoriais ou monetárias e outros para os acontecimentos passados, as idiossincrasias educativas ou os fenómenos de reprodução e resistência cultural. A nenhuma ciência social e humana, como a nenhuma biologia, física, química ou matemática, escapa estes elementos, os quais são, portanto, imprescindíveis à cientificidade pretendida.
  • conceber que toda e qualquer ciência necessita, para se autonomizar e desenvolver, de um acervo de conhecimentos teóricos, mas não é por isso que exclui uma dimensão mais prática de intervenção. Frequentemente os projetos das ciências sociais e humanas são acusados de demagogia, mantendo-se muito no refúgio da fala e pouco na produtividade e eficiência. Todavia, é verdadeiramente impossível que uma ciência não tenha um discurso forte em relação à sua atividade e às suas descobertas e avanços. Primeiro, como mencionei em cima, para se distinguir das outras formas de fazer ciência, posicionando-se como uma maneira nova ou diferente de conhecer; depois porque sem teoria a prática transforma-se numa ação arbitrária e sem sentido. Como é que eu posso atentar numa determinada célula ou tecido celular de uma dada espécie e conhecê-la(o) melhor se não tiver resultados prévios de outras teorias e pesquisas documentadas acerca de entidades biológicas semelhantes ou do próprio funcionamento daquele organismo? Como consigo estudar o universo hoje sem ter acesso aos contributos legados por autores como Copérnico, Newton ou Einstein? Paralelamente, como consigo compreender as desigualdades económicas ou a violência racial sem conhecer o que outros já escreveram e disseram sobre estes fenómenos e produzir várias páginas de teoria que me possibilitem guiar a ida e a intervenção no terreno, na realidade em análise? A teoria não é demagogia ou medo de “por as mãos na massa”: corresponde a uma fundamentação de rigor atribuída ao nosso trabalho, por um lado, e à valorização do que outros fazedores do conhecimento se esforçaram para conseguir, por outro.
  • compreender que os resultados das ciências sociais e humanas são ricos em serventia, mas que estas possuem também as suas limitações. Aquilo que as referidas ciências conseguem alcançar não é um produto material, ainda que possa ter consequências materializáveis significativas (por exemplo, o saber-se mais sobre as lógicas de funcionamento das empresas e organizações ou os processos de segregação ocorridos em bairros urbanos pode ajudar as pessoas envolvidas a obter maiores rendimentos ou recursos para a facilitação da sua atividade laboral). Face a esta característica, os conhecimentos provindos das ciências sociais e humanas necessitam do seu período de reflexão e maturação, o qual amiúde é mais elevado do que, por exemplo, o das engenharias ou das ciências da computação na realização de um dado engenho ou material de trabalho. E isto deve-se a uma principal razão que sempre poderá ser um constrangimento ou uma potencialidade: o facto de o centro das análises das ciências sociais e humanas ser as pessoas, as suas representações e ações. Os seres humanos são seres autónomos, com direitos constitucionais e com dignidade, que pensam por si mesmos e modificam os seus comportamentos quando sabem que estão a ser observados. Assim sendo, a resolução das questões éticas nas investigações sociais e humanas é sempre uma “dor de cabeça” para os cientistas. Não se pode fechar as pessoas num laboratório e estudá-las aí sem a sua vontade; não se pode obrigá-las a fazer o que os pesquisadores querem e elas podem (e devem poder) desistir da sua contribuição na investigação a qualquer momento; e há toda uma lógica de privacidade e de proteção de dados envolvida. Estas e outras questões não são indiferentes aos sociólogos, aos psicólogos ou aos historiadores, e certamente ocupam mais tempo a estes profissionais do que aos matemáticos ou aos físicos, por exemplo, cujos objetos de estudo não são tão exigentes a este nível.
  • concluir, diante do que até aqui foi argumentado, que os projetos científicos do social e do humano não são inferiores aos restantes e saber até onde estes conseguem ir. Decerto que todos nós vivemos ou já passámos por contextos e acontecimentos peculiares que nos marcaram. Abandono ou dificuldades escolares, restrições financeiras, insultos de caráter xenófobo ou racista, com vertente religiosa ou focado na orientação sexual, e outras tantas ocorrências. Todas elas causa(ra)m-nos sofrimento e a sua problematização assinala-se fundamental para as compreender melhor e permitir que sejam atenuadas. Assim, as ciências sociais e humanas, pelo seu potencial de espírito crítico, de emancipação dos sujeitos e de resolução de problemas do quotidiano ou estruturais da sociedade, não merecem o menosprezo que as tem molestado há já muito tempo, seja pela forma como as ignoramos, seja pela rapidez com que, alicerçados no nosso senso comum, colocamos em causa os conhecimentos e resultados emanados destes projetos científicos. As ciências sociais e humanas têm a humildade de construir ciência a partir de testemunhos das populações; todos nós devemos, por isso, ter a humildade de respeitar estes saberes, colaborar com eles e proclamar os seus contributos. Não são nossos(as) inimigos(as): são formas de nos tornar mais amigos e amigas.

Finalmente, como estudar, então, para disciplinas de ciências sociais que continuam a parecer tão aborrecidas, repletas de autores e de termos e conceitos estranhos e distantes? Enquanto Licenciado em Sociologia e Mestrando em Ciências da Educação, mas também como aluno que já fui do ensino secundário, já me coloquei esta questão várias vezes e vou obtendo – não é por mero acaso! – sempre a mesma resposta. O crucial passa por entender primeiro o que está realmente a ser dito ou escrito, depois refletir sobre isso como um problema com atualidade e passível de exemplificação (para isso procuro exemplos pessoais ou próximos de mim) e, por último, ver o que outros autores já pensaram sobre o assunto. Por isso, a minha proposta é que sugiram e incentivem os debates na sala de aula e o visionamento de vídeos, filmes e documentários que contextualizem e identifiquem de maneira mais clara o problema real, sem nunca esquecer que o estudo em casa passa também por leituras várias e por conversas com famílias, amigos e conhecidos. Não precisamos todos de ser filósofos, antropólogos, psicólogos ou sociólogos, geógrafos, historiadores, economistas ou cientistas da educação; mas a atualidade e o devir, na escola, no lar e na comunidade, exigem cada vez mais reflexões contínuas, diferentes, mais humanas – sobre o ambiente, a economia, a política, as artes e a cultura, a educação, a tecnologia e as relações internacionais – as quais não são viáveis sem uma noção mais sustentada do social e do humano.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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