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Compreender o ato de copiar para o eliminar


Lembrei-me de escrever este texto porque realizei uma breve viagem no tempo a todos os momentos de avaliação pelos quais passei. Sem exceção, estavam na sala estudantes que se concentravam nas suas provas, quase sem olhar para outros pontos do espaço que não as suas mesas ou apoios e as folhas de exame, e outras/os que tentavam preencher as respostas a partir de um apoio extra – aquilo a que chamamos copiar.

É comum que nos lembremos de colegas que, apresentando dificuldades na apropriação dos conteúdos, tenham copiado respostas de terceiros para que obtivessem a tão proclamada boa nota no teste. No fundo, esta é uma prática que só se coloca porque, como várias/os especialistas têm alertado ao longo do tempo, estamos a produzir coletivamente uma escola que, ao invés de se revelar como instituição de conhecimento, de inclusão social e de preparação para o futuro, equipa as/os alunas/os com demasiadas informações e detalhes, criando-se o mecanismo automático do “decora/marra, executa/despeja, elimina/esquece”. E, sendo o ensino superior uma extensão deste pensamento em que a matéria teórica (e, já agora, nem toda, dado que umas disciplinas são mais valorizadas socialmente do que outras) predomina e afasta as aprendizagens profissionais e mais práticas, aquele mecanismo é replicado também nesta realidade académica. Como afirmou, de resto, uma estudante da Ecole dynamique, em França, num episódio de “Planeta A”, narrado pelo ator João Reis: a escola vai até aos 18 anos de modo a preparar o exame final, depois desse exame vai-se para o ensino superior, de seguida para o mercado de trabalho e, neste, emerge um conjunto de hierarquias que parecem infindáveis.

Se o ato de copiar é resultado desta conceção da instituição escolar e do que deve ser o ensino e a aprendizagem, ele também não deixa de representar uma realidade diferente para alunos/as que, por motivos económicos, culturais ou outros, são socialmente discriminados, vendo as suas oportunidades mais restringidas comparativamente às/aos suas/seus colegas. Para essas/es, plagiar soluções nos testes acaba por ser a maneira de tentarem progredir, na base da promessa (na atualidade relativamente defraudada) de que a escola serve também de elevador social.

Estando contextualizado este ato do ponto de vista mais estrutural ou macrossocial, olhemos para o nível micro, ou seja, do indivíduo. Para esta unidade de análise defendo uma interpretação diferente do que é a cópia em momentos de avaliação. Por um lado, sou a favor do argumento que advoga a desvalorização do esforço nas situações em que alunas/os procedem dessa forma – não só do seu próprio empenho, mas igualmente do empenho dos outros que, tendo as suas histórias de vida, não deixam de jogar com as regras convencionadas que permitem a organização do sistema escolar e da própria sociedade. Por outro lado, copiar acaba por significar uma auto-rejeição da capacidade de ser criativa/o. Errar ou descobrir novas formas de chegar aos resultados certos são dois acontecimentos que fazem parte das nossas identidades e que dão informação aos outros sobre quem somos. Apenas sendo fiel connosco mesmas/os e admitindo as nossas falhas é que conseguiremos efetivamente reunir as condições para tentar novamente e encontrar as fontes dos equívocos. Porque ninguém é obrigada/o a acertar à primeira nem ninguém tem de se anular por se ter enganado.

Para que o copiar se extinga a escola e o ensino superior precisam de se focar mais na colaboração e em diferentes tipos de aprendizagens. E as/os alunas/os devem saber reconhecer o seu valor e os seus limites, com vista a um melhoramento progressivo nas dimensões das suas vidas em que não se sentem tão confortáveis.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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