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Maria (M.): Fala-nos um pouco do teu curso, em que consiste e quais são as suas saídas profissionais.

Ana Cristina Conde (A. C. C.): Ciências Farmacêuticas é um curso que abrange muitas áreas, vai desde a física, química, biologia e até matemática. Por abranger um numero tão grande de coisas também tem diversas saídas profissionais, nomeadamente a farmácia comunitária, farmácia hospitalar, indústria, investigação, distribuição grossista, entre outras (sugiro que consultem o site da universidade que disponha deste curso que lá encontrarão um maior número de saídas profissionais além destas que mencionei). Ao contrário do que muita gente pensa, farmacêuticas não se relaciona inteiramente com a saúde, é preciso gostar mesmo de química porque essa temática estará sempre presente até ao final do curso.

Katia Reva (K. R.): O meu curso, apesar de parecer que não (dada a errónea ideia que corre por aí de que “Porquê ir para ciências farmacêuticas? Para ficar a vender medicamentos atrás de um balcão?), consiste em formar um agente de saúde pública capaz de ver não só a complexidade biológica, química, física, que se estabelece entre o ser humano e o que ele consome (e não só) como medicamento, como também a vertente matemática, tecnológica, social e legislativa.

Em suma, consiste em formar verdadeiros agentes de saúde pública, com sentido de responsabilidade.

Quanto às saídas profissionais, bem, a mais conhecida delas todas, “vender medicamentos atrás de um balcão”, mais corretamente designada “farmácia comunitária”, que mais uma vez, recebe uma fama falaciosa (não me alongarei aqui em porquês). Para além disso, um indivíduo com o curso de CF pode seguir a vertente da venda de medicamentos em hospitais, da produção do medicamento (tendo esta vertente, por sua vez, outras vertentes (tecnológica, biológica,
etc)); investigação nas mais variadas áreas; análises clínicas; assuntos regulamentares; entre, quem sabe, outras vertentes!

Rodrigo Dias Almeida (R. D. A.): O Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas enquadra-se de forma relevante nas Ciências da Saúde e confere aos seus estudantes o grau de farmacêuticos, distinguindo-se da licenciatura em Farmácia (com que muitas vezes se confunde) que pretende formar técnicos de farmácia. O curso está organizado em seis áreas específicas (Ciências Físico-Químicas, Ciências Biológicas e Biomédicas, Ciências Farmacêuticas, Matemática, Estágio e uma opcional). Relativamente às saídas profissionais destaco a farmácia de oficina e hospitalar, a vastíssima indústria farmacêutica, assim como as indústrias química e alimentar, as análises clínicas, os assuntos regulamentares relacionados com o medicamento e produtos de saúde, etc.

Renato Silva (R. S.): O Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas tem uma duração de 5 anos, nos quais os 2 primeiros anos se focam em matérias básicas e os restantes 3 anos em cadeiras de especialidade, onde se segue um estágio no 2º semestre do 5º ano. O MICF tem como objetivo formar profissionais habilitados a exercerem funções associadas à profissão farmacêutica, nomeadamente farmácia comunitária (ou de oficina), farmácia hospitalar, indústria farmacêutica (assuntos regulamentares, marketing, controlo de qualidade, desenvolvimento, fabrico, distribuição grossista de medicamentos), análises clínicas entre outras de índole analítica (análises químicas, hidrológicas, bromatológicas, microbiológicas, toxicológicas, etc…), ensino e investigação.

Com base nas Diretivas Comunitárias Europeias, o MICF procura respeitar os conteúdos curriculares, entre o ensino teórico, prático e teórico-prático.

Aos estudantes que tenham realizado os 180 créditos correspondentes aos primeiros seis semestres curriculares de trabalho é conferido o grau de licenciado em Estudos Básicos de Ciências Farmacêuticas, permitindo aceder a vários mestrados em várias instituições de ensino.



 

M.: O que te levou a escolher o teu curso e que factores tiveste em conta? Foi a tua primeira escolha?

A. C. C.: Escolhi este curso porque tinha muitas saídas profissionais, foi um dos fatores que mais tive em conta, pois a taxa de desemprego ronda os 7/8 % e por isso, tinha de pensar nalguma coisa que me permitisse ter um trabalho nesta área caso emigrasse como também ter uma certa segurança nas várias áreas em que podia trabalhar dentro do meu país.  Não foi a minha primeira opção, o que eu queria mesmo era medicina veterinária, mas, como ciências farmacêuticas também era algo que eu gostava, principalmente a farmácia comunitária, decidi colocar isso na minha 5ª opção e acabei por entrar! 🙂

K. R.: O que me levou a escolher o curso… Bem, queria um curso que explorasse todas as interações que enumerei acima, para alem de querer aprender a ‘magia’ da cura. Tendo esta vontade a guiar-me 90% para CF, a cereja no topo do bolo foram as inúmeras saídas profissionais que o curso oferece, tendo feito então a decisão, para primeira escolha.

R. D. A.: Desde pequeno me interessei bastante pela área da saúde, a começar pelas séries de televisão que escolhia ( ainda hoje não troco um bom episódio de Anatomia de Grey por quase nada) e pelos artigos mais ligados a este tema que procurava sempre ler nos jornais e revistas.

No entanto, o interesse por algumas ciências mais puras como a Química, a Física, a Biologia e a Matemática e o gosto pelas artes, pela escrita e pelo associativismo, fizeram com que procurasse algo em que estivessem presentes de alguma forma e apareceu a possibilidade das Ciências Farmacêuticas, onde um médico, um engenheiro e um artista se compilam numa só profissão. Fantástico, era mesmo o que procurava! E nas férias de verão do 10º ano inscrevi-me na Universidade de Verão da Universidade de Coimbra, que me permitiu ter a certeza que era mesmo este curso que queria.

Apesar de ser a área que me desperta mais interesse também tive em conta as perspetivas de emprego e o vasto leque de oportunidades que este curso oferece, descartando outras hipóteses como as Ciências da Nutrição, a Gestão Turística e a própria Psicologia, que também me interessavam, fazendo de Ciências Farmacêuticas a primeira opção a constar na minha candidatura. A escolha da Universidade de Coimbra resultou de várias coisas: o interesse que sempre tive pela cidade, a boa reputação que o curso tem nesta instituição e sempre ter ouvido dizer que Coimbra permite algo diferente: a passagem da adolescência para a idade adulta de forma progressiva e única.

R. S.: Sim, foi a minha primeira escolha.

Sempre gostei de química e biologia, e o MICF trabalha essas áreas de uma forma que dificilmente outro curso aborda, uma vez que é um curso que proporciona uma formação de banda larga.

No caso da FFUP, tem 3 grandes departamentos: Ciências Químicas, Ciências Biológicas e Ciências do Medicamento, sendo que cada um deles é constituído por diferentes laboratórios de diferentes áreas. Isto mostra claramente que os alunos do MICF estudam um espetro alargado de matérias, que oferece uma “visão molecular” daquilo com que iremos trabalhar mais tarde, que nenhum outro profissional de saúde tem.

 

M.: O que é que te surpreendeu pela positiva e pela negativa no curso?

A. C. C.: Quando entrei no curso tinha uma ideia muito errada do mesmo. Apesar de ter consultado o plano de estudos e achar que as cadeiras que ia ter eram “minimamente” fáceis, pelo menos no 1º ano, entrei para o curso a achar que de alguma forma se relacionaria com a saúde. No entanto, essa ideia é um pouco errada. São poucas as cadeiras que temos inteiramente relacionadas com a saúde. Na minha opinião, o curso na minha universidade é muito focado para a área da investigação/indústria, que não é claramente aquilo que mais gosto de farmacêuticas, mas, estas áreas são talvez as mais difíceis para entrar no mercado de trabalho, pois frequentemente ouvimos que a média de conclusão de curso conta e muito para essas duas áreas, mas também porque essas duas áreas costumam ser bem pagas e garantem um futuro quase estável.

A nível positivo tenho que destacar que a maior parte dos professores são prestáveis, disponibilizam as sebentas e que apesar do 1º ano ser muito teórico, fornece-nos importantes bases para cadeiras do 2º ano, não tão fáceis quanto as do 1º ano. A nível negativo acho que ciências farmacêuticas na minha universidade é muito stressante, não temos tempo para quase nada e chegamos a ter 4 frequências + relatórios na mesma semana, ficando por vezes esgotados. Apesar disso, acho que a componente prática devia ser mais intensa e começar a partir do 1º ano com estágios observacionais e assim.

K. R.: Pela positiva – bem, sendo que o acto de surpresa envolve o indivíduo não esperar o que se segue e sendo que já vinha preparada para o que ia encontrar, só posso dizer que fui surpreendida com o ambiente (a todos os níveis) e as pessoas que conheci.

Pela negativa – compreendo que o que falarei a seguir é algo indispensável num curso como CF, e da minha parte, tendo tomado consciência de que o ia encontrar, adaptei-me com relativa facilidade, contudo não deixou de me desapontar a maneira como foi (neste caso, como não foi) abordado, e verifica-se sempre algum desagrado entre os caloiros. Falo da necessidade de preparar os alunos e de lhes administrar conhecimentos básicos necessários para todo o estudo que farão depois (em CF e depois de CF). Contudo, os alunos chegam ao 1º ano e são bombardeados com várias disciplinas que pouco mostram como vão ser úteis no futuro, mas pior que isso, e entro já no domínio da surpresa negativa que tive, é o bombardeamento sem qualquer explicação do porquê de estudar assuntos que, nessa fase inicial, parecem tão distantes daquilo que pensámos estudar. Falo de simples disciplinas de biologia, quimica, física, matemática, que depois levam a que a frase caracterizadora do 1º ano seja “é um pouco geral”.

R. D. A.: Fiquei surpreendido com a organização que existe no funcionamento do curso (a escolha dos horários é feita pelos alunos com a máxima flexibilidade e uma carga horária boa, não existem aulas demasiado longas e há horas de atendimento para todas as cadeiras) e até mesmo com a relação que temos com os professores que ao contrário do que se generaliza acontecer em Coimbra têm, quase todos, uma relação próxima com os estudantes, tanto para esclarecimento de dúvidas como no caso das consultas de provas se assim o desejarmos.

Quanto a aspetos negativos com que já me deparei penso que a distribuição das cadeiras pelos diferentes semestres podia ser outra: Biologia Celular e Biologia Molecular podem tornar-se pesadas para um primeiro ano, a cadeira de Matemática apresenta um grau de dificuldade desadequado para estudantes que não pretendem prosseguir estudos nesta área (ao ponto de alunos que tiveram 18 no exame nacional chumbarem) assim como ter três cadeiras de Química num mesmo semestre se torna um desafio, apesar desta formação mais geral ser essencial no início dos estudos nesta área.

R. S.: Pela positiva, foi claramente as áreas que fui descobrindo, nas quais posso vir um dia a trabalhar. Antes de ingressar no curso pesquisei muito e falei com várias pessoas da profissão, mas só à medida que vou tendo novas cadeiras a cada semestre, é que concluo que ganhei competências científicas para um dia poder vir a trabalhar nessa área.

Pela negativa, há uma inadequação do número de créditos ao real tempo de trabalho, em horas, das UC´s, assim como a falta de homogeneidade de avaliação prática e/ou teórico-prática dentro da mesma UC, devendo ser criados protocolos de avaliação a ser seguidos por todos os docentes. Penso que são problemas gerais comuns à maioria das faculdades.



 

M.: Como tem sido a experiência de estudar nesse curso? O que é que te marcou mais?

A. C. C.: Ciências farmacêuticas não é um curso fácil, ao contrário do que muita gente pensa. Química está presente em tudo, até misturada com a física, mas no meu caso, entrei no curso a odiar química e acabei o primeiro ano a gostar (ou pelo menos a perceber), por isso penso que tenha sido uma boa experiência. O que me marcou mais é sem duvida o espírito de entreajuda que temos uns para com os outros e até o espírito crítico, pois se um odeia um professor, o outro automaticamente vai perceber porquê e odiar também….acho que é uma coisa que se passa de geração em geração ahah.

K. R.: A experiência pode ser caracterizada como “hardworking” mas frutífera. O que marcou mais, até ao momento, foi provavelmente, o ganho de novas perspectivas e uma verdadeira assimilação e compreensão do que se aprende no secundário, desde química a estatística.

R. D. A.: Estudar neste curso e em concreto na FFUC (Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra) tem sido fantástico. O ambiente é incrível e os estudantes ajudam-se de forma genuína, ao contrário do que se costuma ouvir acerca de outros cursos. Aqui é diferente e isso marcou-me. “Se podes ter boa nota e ao mesmo tempo ajudar um colega, porque não fazê-lo?” É este o pensamento que quase todos temos: desde colegas que fazem sebentas e partilham com os restantes, a padrinhos que nos dão os materiais de anos anteriores e aos próprios professores que cedem o material utilizado nas aulas e inclusive disponibilizam PDF´s com livros recomendados.

Outro aspeto muito positivo, a meu ver, é a avaliação ser quase sempre por exame (exceto a laboratorial contínua). Por um lado é algo que torna as épocas de exame um pouco pesadas (tenho à minha espera uma sebenta de Botânica para resumir e mais uma ficha de Química Física para rever), mas possibilita-nos aproveitar o semestre ao máximo: todas as terças e quintas há convívios dos carros da faculdade (organizados pelos alunos que estão a concluir licenciatura); o Núcleo de Estudantes é muito ativo (organiza atividades desportivas, de cariz social, mais no âmbito cultural, estabelece relações internacionais e apoia os próprios estudantes da faculdade), os grupos musicais, desde as tunas ao coro e o próprio jornal da faculdade, permitem elevar o nome da FFUC e ao mesmo tempo potenciam-nos uma série de experiências fortemente enriquecedoras.

R. S.: Estou a gostar do curso, sobretudo da grande componente prática que a FFUP oferece no plano curricular, permitindo aumentar os conhecimentos técnicos para trabalhar em várias áreas.

Conheço quem ache isto uma desvantagem, devendo-se valorizar outro tipo de competências. Eu discordo.

 

M.: Como descreverias a tua adaptação ao ensino superior? Quais foram os teus principais desafios?

A. C. C.: A minha adaptação ao ensino superior não foi fácil. As primeiras semanas senti-me desolada e sentia vontade de chorar. Estava longe de casa, não havia nenhum pilar em termos de amizade no meu curso em que eu pudesse confiar plenamente e desabafar tudo o que estava a sentir com aquela falta de adaptação, pensei mesmo em desistir. No entanto, a praxe, apesar de exaustiva, fez com que surgissem novas amizades e que pudesse começar a comunicar com mais pessoas, o que não alterou de todo o meu estado de espírito, mas ajudou. Além disso, depois percebi que esta situação foi comum nas minhas amigas e como começamos a falar mais, tudo melhorou.

K. R.: Ao início, foi uma adaptação um tanto perdida, sem saber bem para onde me virar, pelo facto de encontrar vertentes curriculares, académicas, sociais, entre outras, repletas de atividades que nos poderiam levar quase todo o dia.

Os principais desafios estenderam-se provavelmente a nível curricular, já que vinha habituada a ter um professor a exigir constantemente algo de mim e um regime com obrigatoriedades. No ensino superior é dada liberdade aos métodos de trabalho e deixamos de ter alguém que insista continuamente connosco. Esta falta de rigor, a todos os níveis por vezes faz com que o aluno se perca.

R. D. A.: Relativamente à minha adaptação acho que não foi muito difícil, principalmente pelo ambiente da cidade e dos próprios estudantes da FFUC. Estou habituado a sair da zona de conforto e sempre passei muito tempo longe de casa e a encarar novos desafios. Mas sem dúvida que fui muito bem recebido e acho que tive a sorte de me aproximar das pessoas certas desde muito cedo. Certas no sentido de me mostrarem que caminhos podia escolher para este novo desafio e que erros não devia cometer. Mas também tive algumas atitudes erradas, daquelas que só mesmo batendo contra a parede é que percebemos que não queremos repetir!

Outro aspeto que acho importante é a própria mentalidade que apresentamos ao entrar na universidade (que já depende um pouco do que vem de trás). Não é difícil um estudante “perder-se” numa nova cidade, muitas vezes longe da família e em concreto, em Coimbra, que tem tanto para oferecer a nível cultural (já para não falar do ambiente noturno que é inigualável). No meu caso penso que tenho sido equilibrado e não me esqueço que estou nesta cidade com um objetivo principal: concluir o mestrado integrado em Ciências Farmacêuticas (agora que há tempo para tudo, há, e tenho-me divertido muito).

R. S.: Adaptei-me bem ao ensino superior, mas tenho noção que a responsabilidade está na base de tudo, independentemente do curso em causa.

Tem sido um desafio estabelecer o equilíbrio entre o tempo de estudo e as outras atividades que tenho paralelamente à faculdade. Mas o facto de ter outras atividades faz com que no momento de estudo seja muito mais eficiente e não procrastine. Ou pelo menos, tento…



 

M.: Achas que o teu curso te prepara para o exercício da profissão, isto é, que adquires as principais competências que um profissional dessa área deve ter?

A. C. C.: Como já referi nas questões anteriores, ciências farmacêuticas é um curso muito abrangente pelo que a componente teórica tem de ser diversificada, tal como a prática. No entanto, acho que a componente prática está um pouco em falta, não só na minha universidade, mas na maior parte das universidades em que há ciências farmacêuticas. Sou apologista que deviam existir mais atividades práticas, não necessariamente aulas práticas, mas atividades como estágios observacionais, ajuda nas farmácias locais abordando temas como a entrega de medicamentos, entre outras.

K. R.: Sim, sem dúvida.

R. D. A.: Como ainda me encontro no 1º ano, é um pouco difícil visualizar a entrada no mercado de trabalho, mas do que tenho visto o estágio curricular no último ano do curso acaba por ser um complemento da formação que é feita ao longo destes cinco anos, deixando-nos totalmente prontos a integrar o mercado. No entanto, acho que a obrigatoriedade de fazer este estágio em farmácia de oficina é algo a repensar no plano curricular do mestrado, pois acaba por restringir o nosso primeiro contacto com o mercado de trabalho, numa área que possivelmente não se encontra nos nossos horizontes.

R. S.: As “principais competências”, sim! Sem dúvida! Mas sou da opinião que a forma como vamos exercer a profissão, também se faz de muitas outras coisas que desenvolvemos fora do plano curricular. Obviamente que o plano curricular difere entre faculdades, e tudo o que estou a escrever segue aquilo que perceciono dentro da Faculdade de Farmácia do Porto.
Certamente que estas diferenças entre faculdades também contribui para diferentes profissionais, o que é bom.

 

M.: Consideras o teu curso difícil? Porquê?

A. C. C.: Como o curso é muito abrangente em termos de saídas profissionais temos de estar preparados para tudo, pelo que temos muita formação durante os 5 anos, o que torna o curso difícil. Além disso, o método de avaliação na minha universidade é por frequências, o que implica que quem quer ter férias mais cedo, ande o semestre inteiro a batalhar para tentar evitar os exames. A química, como já referi, está presente em tudo, desde a química simples que se dá no secundário até à quimica orgânica, um dos bichos de sete cabeças do curso! Assim, considero o curso difícil, mas nada que não se faça com muito esforço e dedicação.

K. R.: Não é um curso difícil. Mas também não é fácil. Por um lado, é possível fazer o curso sem nunca ir as aulas teóricas, estudar na época de exames e passar com média de 10. Por outro, se o aluno tiver como objetivo bons resultados, é garantido que terá que fazer um trabalho intenso, contínuo e, acima de tudo, dedicado.

R. D. A.: Sem dúvida. Pelo que consegui perceber neste primeiro ano o MICF tem uma dificuldade acrescida no 2º e 3º anos, com cadeiras muito trabalhosas e que exigem conhecimentos polivalentes. Mas o principal é manter o foco. Tudo se faz.

R. S.: Se a questão fosse “Consideras o teu curso mais difícil do que aquilo que estavas à espera?”, a resposta é sim!

Se é difícil ou não, não sei. A dificuldade das coisas depende de muitas variáveis, como as apetências pessoais; No entanto, reconheço que o curso é muito exigente, exigindo dos alunos um grande esforço, até porque as avaliações teóricas e as práticas estão dependentes.

 

M.: Quais são as tuas expectativas no que toca à entrada no mercado de trabalho? Que perspectivas tens?

A. C. C.: Este ano vou concorrer novamente ao ensino superior para tentar entrar em medicina veterinária. No entanto, se não for possível, espero terminar o curso de ciências farmacêuticas com uma média razoável e se possível entrar no mercado de trabalho em farmácia comunitária. A área que ambiciono é talvez aquela em que há mais oferta de farmacêuticos, no entanto, caso não seja possível, espero ir para investigação. Um dos objetivos era ficar em Portugal, mas, se não houver trabalho, terei que emigrar à espera de encontrar melhores propostas de trabalho.

K. R.: É certo que a situação financeira que viremos a ter é sempre incerta, no entanto, dado o esforço que faço, tenho espectativas de conseguir estudar/praticar aquilo que desejo. É difícil definir perspetivas quando ainda se está numa fase precoce e longe de compreender todo o jogo que se estende no medicamento.

R. D. A.: Quanto à minha entrada no mercado de trabalho é algo que ainda vejo com algum distanciamento, mas há várias áreas que despertam o meu interesse: a indústria farmacêutica, a gestão e o marketing associados a esta área e a própria farmácia de oficina, encontram-se no meu horizonte.

R. S.: O mercado de trabalho atualmente não procura só o “farmacêutico”. Procura o farmacêutico com um conjunto de muitas outras competências académicas e pessoais, que passam por um conjunto de soft-skills que não são abordados no plano curricular.

A questão que eu faço muitas vezes é “Como é que uma determinada entidade me distingue de outra pessoa que tem o mesmo curso que eu?”; Será pela média? Será pela experiência em investigação dentro da faculdade? Participação em congressos? Fez Erasmus? Fez estágios extracurriculares? (…) Bom, se formos a ver isto aplica-se atualmente a qualquer curso.

A entrada no mercado de trabalho é condicionada pela forma como levamos o curso e por um conjunto de outras competências paralelas. Mas uma coisa é certa, os alunos no MICF terminam com competências técnicas e científicas que nenhum outro profissional de saúde possui.



 

M.: Pensas em continuar a estudar para um mestrados/doutoramentos ou pós-graduações?

A. C. C.: O meu curso já tem o mestrado integrado e por enquanto, não penso em fazer o doutoramento. No entanto, não excluo esta opção, pode ser que num futuro próximo, um doutoramento me dê uma oportunidade de trabalho diferente.

K. R.: O curso de CF engloba mestrado, mas eventualmente pensarei num doutoramento.

R. D. A.: Sim, penso que uma pós graduação numa área que entretanto me desperte de facto muito interesse pode ser uma mais valia para completar a minha formação.

R. S.: De momento quero continuar o Mestrado Integrado. Quem sabe um dia continuar a minha formação com uma pós-graduação. Quem sabe… Não é algo que ocupe muito tempo a pensar, porque depende de muitos fatores.

 

M.: Se soubesses o que sabes hoje, candidatavas-te para o mesmo curso novamente? Porque?

A. C. C.: Muito provavelmente tinha ficado mais um ano no secundário para assistir às aulas e repetir os exames nacionais. Na minha perspetiva tive um ano muito exaustivo pois tive de conciliar o estudo para os exames nacionais com um curso universitário e ainda tirar a carta de condução. Quando pensei em fazer estas 3 coisas ia na esperança que farmacêuticas fosse mais fácil, mas, felizmente, a dificuldade do curso associada a outros factores fizeram-me perceber que com esforço e dedicação tudo é possível, e aqui estou eu, com o 1º ano feito, com a carta de condução na mão e com melhores notas nos exames nacionais comparativamente aos outros anos.

K. R.: Definitivamente. A resposta resume-se ao ponto (2), sabia o que queria e sabia que o encontraria em CF.

R. D. A.: Sem dúvida! Estou satisfeito com as condições do curso e as perspetivas para os próximos anos de faculdade são muito positivas.

R. S.: Sim, por todas as razões que fui enunciei ao longo da entrevista. Não me arrependo da decisão.

 

M.: Que recomendações deixas aos candidatos ao ensino superior deste ano?

A. C. C.: A minha recomendação para os futuros caloirinhos é que tentem entrar numa coisa que gostem e que vos garanta várias saídas profissionais. A minha sugestão para quem ainda está indeciso é colocar todos os cursos que gosta e ver quais são as saídas profissionais dos mesmos, taxa de desemprego (pode ser observada no dges) e ainda que ponderem bem a ordem da opção que colocam ao candidatarem-se. Lembrem-se que muito provavelmente, o curso que escolherem, se tudo correr bem, será a vossa profissão no futuro e é importante que gostem da mesma para que trabalhar seja um gosto e não uma obrigação.

Sugiro ainda que falem com pessoas das universidades e dos cursos em que pretendem entrar pois elas podem dar-vos informação sobre que cadeiras devem aplicar-se mais, quais devem deixar para exame…e quando entrarem que não se esqueçam das mesmas, pois os vossos superiores costumam ter fortes aliados como apontamentos e frequências/exames antigos que vos podem ser muito úteis na hora do estudo. Acima de tudo, boa sorte e ” may the odds be ever in your favor” neste jogo das candidaturas.

K. R.: Recomendação: não se desanimem com os conceitos leccionados no 1º ano, lembrem-se que tudo o que aprendemos, mais tarde ou mais cedo, é-nos útil! Para além disso, não se deixem intimidar com a carga de conhecimentos para fixar, com uma boa gerência, é possível ter boas notas e ter um ano de caloiro para sempre relembrar!

R. D. A.: Se ponderas a área da saúde acho que deves analisar bem as ofertas que os diferentes cursos proporcionam. Cada vez mais é preciso ter a capacidade de perceber que esta área tem muito para além do curso de Medicina. A própria responsabilidade e conhecimento do farmacêutico acaba por pesar mais em diversas situações, ao contrário do que é espelhado e transmitido à população. De que nos vale um médico sem recursos para tratar o seu paciente? Da mesma forma que um farmacêutico sozinho não consegue atuar de forma eficaz. Daí ser muito importante uma boa ligação entre estas áreas.

Se ponderas Ciências Farmacêuticas, mas tens medo de não lidar bem com tantas químicas (ou de não estar à altura do curso) tem calma! Eu não tive Química como opcional no 12ºano e isso não foi um factor muito relevante na minha adaptação a cadeiras como Química Inorgânica ou Química Física, às quais fui aprovado. Agora que as opcionais que tiveres no 12º ano podem dar muito jeito é certo e penso que Química e Biologia são as mais indicadas se pretenderes prosseguir estudos nesta área! No caso de Biologia Molecular os conhecimentos que trago da Biologia de 12º ano foram uma mais valia e ajudaram-me a concluir esta cadeira com sucesso sem precisar de muito tempo de estudo.

Quanto à escolha de Coimbra como cidade acho que já depende da visão que tens para os próximos anos. Queres dedicar-te inteiramente ao teu curso ou ao mesmo tempo gostavas de viver e aproveitar ao máximo a vida académica da cidade que vais integrar? Tal como Álvaro de Campos procuro sempre “Sentir tudo de todas as maneiras/ Viver tudo de todos os lados/ Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo.” e Coimbra permite-me faze-lo.

R. S.: Procurem definir metas e sobretudo aproveitar ao máximo o ensino superior. Não sou a pessoa mais experiente para falar do “mercado trabalho”, mas se todos nós trabalharmos e formos bons naquilo que fazemos, há sempre alguém que nos vai dar valor.

Tudo passa pela responsabilidade e dedicação de cada um.

 

 

M.: O que dizem… as tuas notas?

A. C. C.: Depois de tudo o que tive para fazer durante este ano letivo, consegui fazer todas as cadeiras do primeiro ano e acabei com uma média acessível para o primeiro ano de universidade. Ao inicio, foi difícil habituar-me a notas de 13 e 14 na universidade, pois achava que essas notas eram demasiado baixas, mas depois percebi que aquilo não é o secundário, claro que a média é importante, mas não é tudo. O que sugiro é que não guardem o estudo para a última, apesar de saber o quão antiga e tão difícil de seguir é esta frase e que vivam o vosso ano de caloiro. Não fiquem a marrar para terem 18 e 19, pois isso nem sempre é possível. Saiam, divirtam-se e quando for hora de estudar, estudem! Se já é difícil só com as cadeiras supostas para o vosso ano, imaginem com cadeiras atrasadas!

K. R.: As minhas notas… dizem que sou uma pessoa estudiosa, mas que não me ocupo 24h com o “marranço”. Aliás, não se deve restringir a avaliação de nós mesmos pelas notas, já que muitas vezes temos atividades extra-curriculares que nos roubam tempo, mas que não aparecem no currículo.

R. D. A.: Quanto às minhas notas e visto que esta época de exames ainda está a meio e só tive o conhecimento de três notas até à data (todas positivas) vou referir-me mais ao que foi o semestre passado. Das seis cadeiras que tive (de Matemática, Química, Física, História da Farmácia e duas mais ligadas à Biologia) Matemática foi a que se revelou como “pequeno cadeirão” do semestre e para a qual tive de estudar mais para ficar aprovado à disciplina. No entanto cumpri o principal objetivo de fazer as cadeiras todas (algumas com notas mais baixas que poderei melhorar um dia mais tarde), mas sinto-me orgulhoso do percurso que estou a ter. Quanto ao resto, o futuro dirá.

R. S.: Dizem que sou empenhado, mas que posso sempre fazer melhor. Não sei se serei exemplo para alguém, mas dou quase a mesma importância às notas, como dou a outras coisas que faço para tentar complementar a minha formação.

E sim, há nostalgia quando penso nas notas do secundário.

 

Ana Cristina Conde é aluna da Universidade da Beira Interior, Katia Reva e Rodrigo Dias Almeida são estudantes da Universidade de Coimbra e Renato Silva da Universidade do Porto. O último testemunho foi adicionado a 30 de julho.