Maria (M.): Fala-nos um pouco do teu curso, em que consiste e quais são as suas saídas profissionais.

Ana Silva (A.S.): O meu curso é o curso de Direito. O curso de Direito prepara-nos para uma multiplicidade de situações jurídicas, sendo que, ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, a única saída profissional não é a advocacia.

Ao longo dos 4 anos de curso, estudamos várias áreas do Direito. Começamos pelo Direito em geral (o que pode desencorajar muitas pessoas no 1.º ano), e depois vai especificando em matérias mais interessantes, como contratos, casamentos, testamentos, procedimentos em tribunal, finanças, e por aí fora. Tem de tudo um pouco, até porque no futuro é muito difícil trabalharmos única e exclusivamente numa só área.

Quanto a saídas profissionais, temos a advocacia, o notariado, a solicitadoria, juízes, etc.

Maria Fernandes (M.F.): Estudo Direito, uma área que certamente não peca por ser desconhecida mas, que, no entanto, muitas vezes é injustamente (?) reduzida ao “estudo das leis” para, com a sua aplicação, garantir a “justiça e a segurança” – embora não seja uma definição errada, qualquer estudante de Direito com mais de um semestre de experiência esboçará um sorriso na presença de tamanha ingenuidade.

Sim, estudam-se as regras de funcionamento da sociedade (não limitadas à lei!), nacional e internacional, e a sua aplicação, mas não só: por exemplo, contem com cadeiras de Economia, História ou Sociologia que, por muito inúteis que possam vir a parecer (existe sempre esse risco), vão revelar-se essenciais

Quanto às saídas profissionais? Não é por nada que alguém importante disse uma vez que o curso de Direito só não serve para “passar receitas e dar a missa”. Para além das tradicionais profissões jurídicas – os advogados e os magistrados, mas também os notários ou os solicitadores – há todo um rol de profissões para as quais um jurista está qualificado, e, desde a óbvia consultadoria jurídica à diplomacia (mas não só – o mundo é a ostra de um licenciado em Direito).

Ricardo Dias Barros (R.D.B): Em que consiste é capaz de ser a pergunta mais difícil que se pode fazer a um estudante de direito! Essencialmente porque as vertentes do curso são muito variadas e dentro do mesmo tens diferentes áreas (sendo a “grande divisão” entre o Direito Público e o Direito Privado; o primeiro trata mais do chamado “direito estadual” e o segundo é mais sobre a relação entre os particulares), e como se pode imaginar, isto também dá azo a que hajam “fações” dentro do curso, não sendo constituído por um corpo estudantil com um objetivo ou carreira em mente. Posso dizer que o curso é bastante focado na preparação para a área da advocacia, como a maior parte dos cursos de Direito no nosso país (embora não seja dada muita importância à parcialidade inerente a essa profissão). Como se pode imaginar, a principal saída profissional, em número de alunos, é a advocacia (um ano de estágio mais o exame de admissão na Ordem). Outra saída profissional possível, embora não tão popular, é o CEJ ou Centro de Estudos Jurídicos, onde se formam os nossos juízes. Estas duas são as principais saídas, mas também há quem queira ir para carreiras na PJ, por exemplo, que são facilitadas pela Licenciatura em Direito.



 

M.: O que te levou a escolher o teu curso e que factores tiveste em conta? Foi a tua primeira escolha?

A. S.: Sempre quis ir para Direito, desde que me lembro. Por acaso é engraçado porque a minha mãe sempre disse que não podia ir, mas quando ela viu que no 12.º ano eu não fazia a mínima ideia do que poderia seguir se não Direito, lá acabou por mudar de ideias.

O Direito é uma área muito específica, e só fica lá mesmo quem gosta. Ou aliás, até podem acabar o curso mas quem não gosta nunca vai fazer nada com ele.

A nível de factores a ter em conta, sinceramente não sei. Só sabia que era o que mais gostava e o que mais se adequava a mim.

M. F.: Não posso mentir: as minhas motivações para escolher Direito não foram, de forma alguma, idealistas (não há grandes divergências: ninguém tem memória da minha versão infantil a personificar um juiz). Procurava um curso que fosse de encontro aos meus interesses e aptidões, mas, ao mesmo tempo, me permitisse ser coerente com a habitual resposta vaga à pergunta “Que profissão queres ter no futuro?”.

Assim, a empregabilidade e a abrangência de saídas profissionais e do currículo pesaram muito na minha escolha, que não foi feita de forma leve: foi uma intensa pesquisa que me conduziu ao Direito, e, em particular, à Nova, fazendo de ambos a minha primeira opção.

R. D. B.: Sim, foi a minha primeira escolha. O que me levou a escolher Direito foi a densidade de matérias e a sua aplicabilidade quase imediata ao mundo que nos rodeia. Como mais tarde aprendi, o Direito envolve-nos quase como o ar que respiramos, está mesmo por todo o lado. Um fator também muito importante foi achar o curso muitíssimo interessante.

 

M.: O que é que te surpreendeu pela positiva e pela negativa no curso?

A. S.: Pela positiva, surpreendeu-me a aplicação que pode ter no dia-a-dia. Por exemplo, ninguém se apercebe da quantidade de pequenos contratos que celebra todos os dias!

Pela negativa, o que me surpreendeu foi sobretudo a postura de algumas pessoas. Por estarem no curso de Direito acham automaticamente que têm de alterar a sua maneira de ser e de vestir, mas sinceramente… pá, aproveitem enquanto não têm de andar de fato e sabrinas todos os dias!

M. F.: Não são poucos aqueles que, quando pensam em estudantes de Direito, pensam em pessoas enfiadas numa biblioteca escura, rodeadas de montanhas de livros, a fazer noitadas porque os têm de ler e decorar todos. Foi uma boa surpresa desfazer esta imagem – ainda que apenas parcialmente (desengane-se quem acha que não vai ser necessário ler a opinião de seis autores para se compreender totalmente determinado assunto, ou que não vão existir livros de leitura obrigatória com 1200 páginas). No entanto, descobrir que se trata mais de um trabalho de pesquisa e selecção de informação relevante, por forma a compreender e apreender (mais do que decorar) foi surpreendente – pela positiva.

Não se estranhará, portanto, que as surpresas mais desagradáveis, para mim, tenham sido as cadeiras em que o objectivo principal é decorar o manual da disciplina ou em que “Existem várias opiniões sobre o assunto, mas nós pensamos assim”. Ah, e o tempo que algumas notas demoram a sair – preparem-se para receber algumas estendidos ao Sol, a meio de Julho.

R. D. B.: Tal como disse, não estava à espera que o Direito fosse tão “omnipresente” e devo dizer que isso me surpreendeu bastante pela positiva. Também me surpreendeu pela positiva o facto de ter como professores os maiores especialistas das áreas sobre as quais davam aulas, saber que o professor era reconhecido pela sua sabedoria, tanto internamente como além-fronteiras, foi sem dúvida em fator que aumentou a vontade de estudar.

Pela negativa não tenho muito a apontar, felizmente. Não estava à espera que fosse um curso tão difícil, mas isso acho que também nunca ninguém está. É um ponto negativo, mas que faz parte da experiência. E depois compensa.



 

M.: Como tem sido a experiência de estudar nesse curso? O que é que te marcou mais?

A. S.: Tem sido uma experiência com os seus altos e baixos, sem dúvida. Posso chegar facilmente à conclusão que tem sido uma experiência bastante positiva, por muitas vezes que já tenha chorado e pensado, ‘mas onde é que tu te foste meter?’

O que me marcou mais foi sem dúvida um exame oral que fiz o ano passado de uma cadeira que tinha em atraso. Como sou trabalhadora-estudante só tenho mesmo o horário pós-laboral disponível, por isso fazer alguma cadeira em atraso tem de ser necessariamente por exame final, porque não tenho horário para encaixar as aulas de uma cadeira ‘extra’.

O que acontece é que, por exame final, precisamos de uma determinada nota para ficar logo com a cadeira feita (12), caso contrário vamos a oral de passagem. Nessa cadeira, que por sinal foi uma cadeira à qual chumbei no anterior com 9,4 (!), tive de ir a oral de passagem, e nunca me vou esquecer que o regente da mesma me chumbou única e exclusivamente porque nunca me tinha visto nas aulas e achava que me andava a baldar só porque sim.

No final, quando lhe levei o papelinho para ele assinar para justificar a minha ausência no trabalho, ele ficou muito admirado e disse: ‘ah, pois, não me tinha apercebido que era trabalhadora-estudante… Pronto olhe, estude agora para recurso’. Conclusão: o preconceito dele levou-o a chumbar-me a mim e a passar pessoas mais velhas que sabiam menos que eu simplesmente porque olha, não sabia que eu também passava as passinhas do Algarve.

M. F.: Depois de um ano de princípios constitucionais, interpretação e integração da lei, oferta e procura, e alegações de inconstitucionalidade por não cumprimento do 165.º, n.º 2, uma coisa posso garantir: estudar Direito é impróprio para cardíacos – mas de uma maneira boa. Direito tem uma mentalidade própria, que pode ser difícil de incorporar e que começa no facto de raramente existirem certezas (o clássico “A doutrina diverge”), passa pelo vocabulário, e vai até aos autores referenciados (Direito é uma religião politeísta, com deuses que vão de Hans Kelsen a Jorge Miranda). Demorou até a habituar-me a ela – por exemplo, custou-me a deixar de ter conflitos interiores com a ideia de interpretação da lei ou conceitos indeterminados -, mas uma vez apreendida, pode tornar-se perigosamente interessante.

R. D. B.: Estou a adorar. Como tive oportunidade de expressar nas perguntas anteriores, o mundo do Direito é verdadeiramente fascinante e digno de ser estudado a fundo. O ambiente académico também é muito bom. Na faculdade que frequento acrescenta-se o facto de ter colegas que partilham esta recém-descoberta paixão e que discutem, com muito gosto, as questões mais controversas do Direito (e há muitas).

 

M.: Como descreverias a tua adaptação ao ensino superior? Quais foram os teus principais desafios?

A. S.: Bem, a minha adaptação ao ensino superior não foi nada de extraordinário. O primeiro semestre teve tanto de bom como de mau: vivia com umas estudantes de Medicina que, estereótipos à parte, eram qualquer coisa de estranho. Controlavam-me, ficavam fechadas no quarto a estudar durante horas e horas e vida social zero. A única coisa de boa que teve o meu primeiro semestre foi mesmo ter entrado na Tuna porque a nível de faculdade e afins… meu deus.

Mas é assim, tudo se faz! Lá mais para o fim comecei a perceber mais qualquer coisa do curso, mas até nos habituarmos… é como se diz: primeiro estranha-se, depois entranha-se! E o Direito lá se entranhou.

M. F.: A minha adaptação ao ensino superior? Numa palavra? Conturbada (com tudo de bom e de mau que isso implica).

Instabilidade (mudei de casa três vezes durante o ano), gestão de tempo e de ansiedades e escolha do método de estudo, a que acresce uma tendência para a procrastinação, foram desafios que se estenderam ao longo do ano.

Estiveram, no entanto, acompanhados pelas actividades dos grupos autónomos e da Associação de Estudantes, família (incluído a académica) incansável e amizades que se formavam, e um espírito académico que, embora de concretização recente, é forte e se traduziu numa caloira com muito orgulho em poder, agora, usar o traje. Este ano foi, portanto, e para usar uma metáfora com tanto de foleira como de autêntica, uma verdadeira montanha-russa.

R. D. B.: Foi uma adaptação, sem dúvida, muito difícil. Como se costuma dizer: “é preciso ver para crer”, vai haver um grande choque, mas não há muito que possa ser dito de forma a “preparar” quem vai entrar, e com a entrada para a Universidade há um enorme degrau, tanto em termos de exigências dos professores como em termos de exigências individuais; ou seja, não só os professores exigem mais de ti, como tu próprio(a) também exiges mais de ti mesmo(a). É uma experiência que faz crescer, e de que maneira! Os meus principais desafios têm sido, e continuarão a ser, a complexidade de algumas matérias, que muitas vezes exigem muita prática e, sobretudo, paciência para que possam ser compreendidas.

 

M.: Achas que o teu curso te prepara para o exercício da profissão, isto é, que adquires as principais competências que um profissional dessa área deve ter?

A. S.: A nível teórico: sem dúvida. A nível prático: nem por isso. É muito bonito estudarmos Direito e as opiniões de cada Professor e afins, mas não é através de doutrina que vamos saber fazer uma peça processual.

Fica aqui a ressalva de que ainda não acabei o curso e supostamente no 4.º e último ano ganha-se uma preparaçãozinha prática um bocadinho maior, portanto até posso estar a falar do que não sei, mas pelo que vejo e mesmo por feedback de pessoas que já acabaram o curso e entraram na área da advocacia, não ficamos assim muito bem preparados. Mas também é assim, é para isso que serve o estágio da Ordem.

M. F.: Pode ser complicado dar uma resposta muito assertiva a esta pergunta quando ainda só se tem o primeiro ano concluído, mas, tanto quanto me é possível perceber, é um curso que dá o treino adequado, por um lado, para o óbvio exercício de profissões como a advocacia e a magistratura, mas também de outras, inclusive relacionadas com Relações Internacionais, Ciências Sociais ou Economia (há malta a tirar mestrados em Ciência Política, Direito e Gestão ou Direito do Mar – tudo bons exemplos).

R. D. B.: Depende. Como já tive a oportunidade de dizer, há uma miríade de áreas profissionais para onde se pode dirigir o Licenciado em Direito. Como também já disse, o curso prepara os seus alunos para aquilo que é a área mais concorrida e mais popular: a advocacia. Dito isto, sim, o curso prepara bem os seus alunos para a prática dessa profissão, embora sem a parcialidade tão característica dos advogados; isto é, embora a vertente principal do curso seja efetivamente a resolução de casos práticos e de situações de vida, muitas vezes nos é dito para resolver o caso de forma imparcial, como se nos tratássemos de juízes.



 

M.: Consideras o teu curso difícil? Porquê?

A. S.: Não é que Direito seja difícil, porque não é. Mas é muita coisa. Existem mil áreas em que nos podemos especializar, mil e quinhentas coisas que podemos seguir, e basicamente temos de aprender isso tudo em quatro anos e com 3 meses de aulas em cada semestre. É difícil nesse aspecto.

M. F.: Vou responder a esta pergunta de forma clássica – depende. Como já referi, é um curso com uma mentalidade muito própria, que exige esforço e dedicação, quer em termos de horas trabalhadas, quer em gestão de informação e recursos, e, portanto, se não se tiver um mínimo de motivação e gosto pelo que se está a fazer, pode rapidamente tornar-se num curso complicado. Por outro lado, se for com gosto que se lêem mais 30 páginas só porque não se percebeu muito bem a parte da personalidade jurídica, torna-se mais suave e até mesmo “fácil”.

R. D. B.: É um curso bastante difícil. As matérias curriculares de cada cadeira são, na maioria das vezes, muito densas e complexas e exigem de quem as aprende uma grande dedicação, paciência e um estudo contínuo ao longo dos semestres, por forma a que sejam compreendidas. Mas se essa dedicação estiver presente e for complementada por um bom método de estudo, vale bem a pena e o conhecimento é valorizado e recompensado (com boas notas).

 

M.: Quais são as tuas expectativas no que toca à entrada no mercado de trabalho? Que perspectivas tens?

A. S.: Sou suspeita porque já trabalhei na área antes e porque neste momento me encontro mais uma vez a trabalhar nela. Sinceramente o mercado de trabalho não está assim tão saturado, principalmente com a crise económica que está a acontecer as penhoras são mais que muitas, e há sempre lugar para mais um.

Acredito sinceramente que quando acabar o curso não vá ser difícil arranjar um estágio na minha área, ou até mesmo trabalho apenas como jurista. Mas lá está, o currículo também conta muito, e é importante mostrar actividade fora da licenciatura normal (voluntariado jurídico ou cursos intensivos, por exemplo, são boas opções).

M. F.: Assumindo de que se trata de perspectivas de empregabilidade, não me posso queixar: cerca de 90% dos alunos formados na Nova Direito estão empregados – há que confiar nas estatísticas. Por outro lado, existem também vários mecanismos que aproximam possíveis futuras entidades empregadoras à faculdade (protocolos com sociedades de advogados, oportunidades de estágios, um centro de investigação, etc.), facilitando a entrada no mercado de trabalho.

R. D. B.: As minhas perspetivas são bastante favoráveis. No curso que frequento a taxa de empregabilidade é alta e a minha média é capaz de me favorecer no mercado de trabalho.

 

M.: Pensas em continuar a estudar para um mestrados/doutoramentos ou pós-graduações?

A. S.: Sim. A formação de Direito hoje em dia, pós-Bolonha, é bastante geral, pelo que ter nem que seja uma pós-graduação é uma grande mais valia, tanto para nós a nível pessoal, como para os potenciais empregadores.

M. F.: Definitivamente; dentro da área do Direito ou perseguindo outros interesses, planeio continuar a minha formação superior.

R. D. B.: É difícil prever o futuro tão cedo, mas diria que sim. Como tenho bastante interesse na parte investigativa do Direito devo prosseguir estudos após a Licenciatura.

 

M.: Se soubesses o que sabes hoje, candidatavas-te para o mesmo curso novamente? Porque?

A. S.: Sim, sem dúvida. Nem me imagino noutro curso! Quando estamos no curso que queremos e que é certo para nós, nem conseguimos imaginar-nos a estudar outra coisa (pelo menos, falo por mim!)

M. F.: Maria de Setembro de 2015, escreve-te a Maria de Julho de 2016. Sei que estás cheia de dúvidas existenciais sobre a tua escolha de curso e de universidade, tens medo de não gostar, de não ter sucesso, de não gostar, mas ter sucesso, de gostar, mas não ter sucesso (vais acabar por gostar mais do curso do que estavas à espera, e vais ter uns sustos, sim, mas principalmente agradáveis surpresas). Eu sei; estás preocupada com o quarto (isso, deixa-me que te diga, não acaba assim tão cedo quanto isso), com a praxe (isso acaba mais cedo do que estás à espera), com as amizades que vais ou não fazer (vais fazê-las, com boas pessoas, inteligentes e admiráveis, mas que – prepara-te – também vão tornar “Que o Estado” a única resposta lógica à pergunta “No que é que estás a pensar?”), com tudo e mais alguma coisa que possa existir, mas… Deixa-me que te diga: no final do ano vão-te perguntar se escolhias o mesmo curso outra vez. A tua resposta – apesar de ponderada e cheia de nuances (bem à Maria Luís, como dizia o outro) – não vai deixar de ser que sim.

R. D. B.: Claro que sim! Embora por vezes seja difícil, o trabalho que se tem é maioritariamente recompensado (embora ninguém escape a injustiças possíveis), e o ambiente académico em que me encontro é bastante positivo.



 

M.: Que recomendações deixas aos candidatos ao ensino superior deste ano?

A. S.: Apenas que sigam o que têm a certeza que gostem. Não vao para um curso gastar dinheiro só porque ‘tem mais saída’ ou porque ‘dá para tudo’. Falo no caso de Direito, claro. Quantas pessoas não conheci eu que queriam Jornalismo ou Relações Internacionais mas foram para Direito porque ficava melhor no currículo e depois logo faziam Mestrado no que queriam? Claro está que todas essas pessoas desistiram de Direito passado uns anos e foram para o que realmente queriam…

M. F.: 1: Atão na se vai? Com estes míticos vai-se até ao Estado e mais além.

Estatisticamente, o mais provável é que não tenham percebido nada do que esta frase quis dizer – o que é, precisamente o meu objectivo. A entrada na universidade é também uma porta a novas amizades e é importante que essa porta se mantenha aberta e que, ao longo do ano, vão percebendo quem querem deixar entrar – vão ser as pessoas de quem vão ter que atender telefonemas à uma da manhã, mas que também vão perdoar que não respondam a mensagens durante três horas, com quem vão ter privet jokes em quantidades alarmantes (para exemplos, reler o título) e fazer noitadas (de estudo, obviamente), com quem vão partilhar o melhor e o pior do ano (e, quem sabe, não só). Tratem bem delas.

2: “O espírito académico somos nós que o fazemos”

Começo o meu segundo conselho citando a Dux da FDUNL na minha cerimónia do Traçar da Capa e com isto deixo as minhas impressões da praxe: no meu caso, foi um instrumento de intgeração, divertimento e criação de memórias colectivas (algumas, claro, embaraçosas), mas essencialmente de solidariedade e amizade. No entanto, pode não ser assim em todo o lado: se alguma vez sentirem que não é este o caso ou que nem sequer estão a ser respeitados, peguem nas vossas coisinhas e saiam – pode ser difícil de explicar à CMTV, mas vocês percebem: se é violenta e desrespeitosa, não é verdadeiramente praxe. E aproveitem os vossos padrinhos – dos apontamentos aos conselhos, das festas e jantaradas às verdades duras.

3: Faço o que posso com aquilo que tenho

Este não é tanto um conselho, é mais um aviso para terem a vantagem de saber, a priori, com o que contar: são tempos estranhos os que vão viver, especialmente se forem viver para longe ou sozinhos pela primeira vez. Vão desvendar facetas de vocês próprios que vos eram desconhecidas, modificar os vossos valores e fazer uma quantidade assustadora de coisas pela primeira vez. Mais uma vez, não posso dar grandes conselhos acerca de como lidar com isso: cada caso é um caso, portanto, só vos digo isto – vão fazendo o que podem, com aquilo que tiverem.

4: Testes intermédios de Micro e de TNJ

Vai haver bons e maus momentos na vossa vida académica: dezassetes sem grandes esforços e catorzes que vão saber a vintes, mas também quinzes e dezasseis que vão ser frustrantes e parecer derrotas – vai haver testes intermédios de Microeconomia (em que vão ficar de tal forma abalados que se vão esquecer de almoçar) e testes intermédios de TNJ (em que vão celebrar com gelado), e vão de aprender a lidar com ambos. Esforcem-se, façam uma boa escolha no método de estudo e, em caso de dúvida, peçam ajuda. Nem sempre vai correr tudo como esperado, mas o melhor mesmo é ir tentando ao máximo que isso aconteça.

5: Aproveitem

Nada mais do que isto. Segundo me dizem são os melhores anos da nossa vida, portanto façam por isso (sem se forçarem a nada). Ah, e façam boas escolhas de vida: se estiverem realmente a considerar Direito, venham para a Nova.

R. D. B.: No geral, deixo principalmente a recomendação de que é preciso ter calma. Inicialmente a maioria dos estudantes experiencia um enorme choque, como já referi, e é importante não “stressar” e pensar o curso com calma e ponderação; vi muitos colegas que, por não terem calma, cansaram-se muito rapidamente dos cursos em que estavam e acabaram por desistir.

Deixo também a recomendação, particularmente para quem está interessado em ingressar em Direito, que estudem, mas de que o estudo não é tudo. Tão importante como estudar é descansar e aproveitar o dia (carpe diem!) para fazerem outras coisas de que gostam.

 

M.: O que dizem… as tuas notas?

A. S.: As minhas notas? Bem, elas dizem muita coisa! A conclusão que posso retirar das minhas notas é que evoluí bastante. No primeiro ano, sou sincera, corri tudo a 10. 10, 10, 10. A partir daí, foi sempre a subir.

Acho que é positivo, significa que finalmente já percebo disto e finalmente estou a ganhar maturidade dentro do curso.

M. F.: Em primeiro lugar gostava muito de agradecer ao Daniel Oliveira da vida académica esta belíssima entrevista – até chorei um bocadinho, então ali na altura da “A doutrina diverge”…

Piadas (?) à parte, e tentando responder o melhor que consigo, acho que as minhas notas não podem mais do que reflectir as minhas experiências: o esforço (muito ou pouco), os professores (melhores ou piores, mais ou menos flexíveis), a gestão de tempo (uma saída em época de exames pode fazer tanto de mal como de bem), a ajuda e o método de estudo (a diferença que uma sessão de estudo em grupo faz!) ou mesmo a matéria da cadeira (e o interesse por ela despertado). Não poderia ser nem mais nem menos do que isto e certamente convosco vai ser igual.

E com esta me retiro. Sei que isto acabou por ficar enorme, mas sou estudante de Direito, de que é que estavam à espera?

R. D. B.: Penso que, acima de tudo, as minhas notas refletem o meu trabalho a uma determinada cadeira. Por vezes gostava que os valores fossem mais altos, e por vezes existem injustiças, mas creio que no geral são um bom reflexo do meu trabalho. Dito isto, as notas não são tudo. Existem áreas de interesse que nunca chegam a ser avaliadas, mas também é importante que cada aluno se interesse por matérias fora do domínio curricular das cadeiras que frequenta.

 

Ana Silva e Ricardo Dias Barros são estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, e Maria Fernandes da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.